
Jornalista de formação, Ruy Castro, a partir de “Chega de saudade” (1988), alterou a maneira de escrever livros biográficos no Brasil ao publicar obras caracterizadas por exaustiva pesquisa e abordagens originais. Dono de grande texto, o autor provou também gostar de uma boa conversa. A seguir, confira os múltiplos interesses de Castro e seu peculiar humor nessa atual entrevista que realizamos em 2005 (*concedida a Daniel Louzada).
Um dos seus últimos livros, “Carnaval no fogo”, trata da história e das peculiaridades do Rio de Janeiro. A maioria dos seus temas e personagens diz respeito ao universo carioca. Você tem a perspectiva de escrever sobre temas ou personagens não identificados com o Rio?
RUY CASTRO – Não sei responder bem essa pergunta porque quando fiz o livro da bossa nova não pensava que estava fazendo um livro sobre o Rio, nem quando fiz o do Nelson Rodrigues, nem o do Garrincha. Quando fiz o “Ela é carioca” sim, aí era uma coisa explicitamente da cultura carioca. E o “Carnaval no fogo” nem se fala. Ou seja, não foi algo programático. Acontece que os escritores se sentem mais à vontade nos cenários que conhecem melhor, com os quais tem mais familiaridade. Então é normal que as idéias que se tem sejam ambientadas naquele cenário do qual o autor se sente parte. O Guimarães Rosa, por exemplo, morou grande parte da vida no Rio e só escrevia sobre Minas Gerais, aquela região dele, ali na fronteira com a Bahia. Ninguém nunca cobrou do Guimarães Rosa que fizesse um romance carioca. Da mesma maneira, o cearense José de Alencar morou no Rio a maior parte da vida, mas metade de sua obra se passa no Ceará, naqueles romances indígenas; ao mesmo tempo, ele tem uma enorme quantidade de romances urbanos passados no Rio. Acho que eu não deveria ser cobrado por esse tipo de cenário.
Quando surgiu a idéia de escrever “Carnaval no fogo”?
RUY CASTRO – Tenho a impressão que foi quando começaram a sair os primeiros volumes da coleção original inglesa [O escritor e a cidade] e já se sabia que a Liz Caldwer, editora da Bloomsbury, queria um livro sobre o Rio. O Luis Schwarcz, editor da Companhia das Letras, me falou sobre isso – eu estava trabalhando no “A onda que se ergueu no mar” – e já fiquei empolgado. Eu tenho esse grave problema: se acerto mais ou menos um livro com a editora, mesmo que seja para começar daqui há seis meses, já começo a trabalhar por conta. Primeiro que só aceito as coisas que me empolgam. Quer dizer, não é que eu aceite ou não. As ideias de 95% de todos os livros que fiz partiram de mim. No caso desse a idéia não partiu de mim, partiu da Bloomsbury, através da Companhia das Letras, mas é um assunto sobre o qual eu estava me preparando há mais de dez anos. Foi o encontro feliz de duas circunstâncias. Comecei a ler e estudar com a maior empolgação enquanto cuidava dos outros livros que saíram nesse período. Foram nove meses só para escrevê-lo, mais do dobro do tempo que levei para escrever “O anjo pornográfico”, “Estrela solitária”, “Chega de saudade”. Muito tempo. E um ano e pouco lendo, estudando – e também lendo e estudando enquanto escrevia.
Quanto tempo você levou para fazer biografias como as de Nelson Rodrigues e Garrincha?
RUY CASTRO – A do Nelson Rodrigues levou dois anos – vinte meses de pesquisa e quatro para escrever. A do Garrincha levou três anos – trinta e dois meses de investigação e quatro para escrever.
O tempo para a feitura de um livro necessariamente está associado com o grau de dificuldade dele?
RUY CASTRO – Sim. Porque uma coisa é escrever um livro a partir de informações que você capta de duzentas fontes diferentes, você trabalha durante anos naquele livro, conversa com as pessoas. Na minha maneira de trabalhar, nunca sento para escrever uma biografia enquanto não tenho toda a história apurada. Eu acho um erro começar a escrever quando não se tem a história completa. Agora, à medida que vou entrevistando vou jogando as informações em arquivos separados, cada qual referente a uma época ou lugar. Quando considero que sei toda a história, que não há nenhuma pergunta difícil que eu possa me fazer e que eu não saiba responder, aí acho que está na hora de começar a escrever. Isso geralmente toma 80% do tempo que o livro leva para ser feito. Então quatro meses para escrever, para mim, é um tempo razoável. Quando eu digo quatro meses é quatro meses todos os dias, o dia inteiro. Enquanto escrevia os livros do Nelson e do Garrincha, por exemplo, eu ia dormir às 3:30h porque não conseguia mais, cansado, mas o relógio despertava às 7:30h do dia seguinte porque eu estava louco para recomeçar. Esse tipo de entrega acontece. Já em “Carnaval no fogo” eu não tinha essa base toda de informações com as quais trabalhar – era um livro de sacações. Então ficava sentado em frente ao computador pensando em como é o Rio hoje, como é o carioca, como ele reage a certas coisas e situações. Aí quando eu achava que tinha uma idéia interessante que pudesse ser desenvolvida ia a uma estante enorme de livros sobre o Rio e procurava alguma coisa que me avalizasse aquela situação contemporânea sobre a qual estava escrevendo. Às vezes eu encontrava, às vezes não. Às vezes isso me obrigava a ler quatro linhas de um livro, às vezes quarenta páginas, às vezes quatrocentas páginas.
Em 2000 você teve a primeira experiência em ficção com “Bilac vê estrelas”. Você pensa em escrever mais ficção?
RUY CASTRO – É como dizem os ingleses: você não pode mudar as pintas do leopardo. Eu trabalho com informações desde os 19 anos, quando comecei no Correio da Manhã, no Rio. Eu já li toda a ficção que me foi possível ler, já li todos os romancistas ingleses do século XVIII, franceses do século XIX, russos, americanos do século XX, brasileiros praticamente todos do passado. Quer dizer, eu tive a minha cota de ficção como leitor também, sei bem quais são os grandes fascínios e sei que a ficção é realmente a grande coisa, tanto que é a única que pode ser chamada de literatura, digamos assim. Mas eu comecei como jornalista muito jovem. Nunca escrevi uma lauda que não fosse paga. Eu posso dizer que sou um escritor profissional, escrevo profissionalmente desde os 19 anos de idade (estou com 55). Nunca escrevi um conto que deixasse na gaveta, um romance que um dia eu esperasse ser publicado. Quer dizer, tudo o que escrevi até hoje foi para jornal diário, revista semanal, revista mensal, revista trimestral ou livro. Então sempre havia prazo a ser cumprido e publicação em vista. Nunca tive a ânsia de ter uma história que precisasse contar, uma história de ficção que eu precisasse botar para fora para não enlouquecer, como acontece com os verdadeiros ficcionistas – eles escrevem ficção porque são compelidos a isso. Eu não, eu sou cercado de realidade, a realidade para mim não é só a realidade de 2003; a realidade de 1903 para mim existe, principalmente a do Rio. A realidade de 1703 também está comigo. O século 20 então é uma coisa fabulosa – tudo o que foi produzido no século 20, tudo que um dia foi dito, cantado, dançado, representado, enfim, praticamente tudo o que aconteceu no século 20 foi registrado, filmado, gravado, fotografado, copiado, escrito. E você tem acesso a isso hoje. Se quiser chamar o século 20 inteiro de volta na sua discoteca, na sua videoteca, na sua biblioteca você pode. Então eu vivo cercado do passado e do presente e o passado me fascina muito, talvez até mais do que histórias interiores que eu tivesse para contar. No próprio livro do Bilac você vai ver que 90% do que está ali é documentário. Qual era a idéia da coleção? Uma coleção de livros de mistério, de ação, em que o personagem central fosse um escritor famoso, não importa de onde, qual país e época. Eu escolhi o Olavo Bilac porque achei que era um personagem que se prestava a ser colocado em situações de agilidade física, de correr perigo, de levar uma pancada na cabeça, de desmaiar, de voar num balão imaginário. Ou seja, o Bilac se prestava a isso, o Machado de Assis não, o Lima Barreto também não. O Bilac andava na rua, era um personagem da cidade. E a época também me interessava muito, pois eu estava vindo do “Ela é carioca” e já escrevi muitos livros que se passam nas décadas de 50 e 60, naquele cenário da zona sul do Rio. Eu queria fazer uma viagem ao Rio do passado e do centro da cidade, mudar de época e de espaço. Mas como você não pode mudar as pintas do leopardo, me senti na obrigação de fazer um estudo profundo sobre o Rio de 1903.
Aí é a formação do jornalista.
RUY CASTRO – Exatamente. Do biógrafo, do “historiador”. Existe uma grande quantidade de livros sobre o Rio daquela época, não só os que a descrevem diretamente. Há “O Rio do meu tempo”, do Luiz Edmundo, as biografias daquelas figuras todas, do Bilac, do Patrocínio, dos personagens menores, da Colombo, da rua do Ouvidor, existe uma vastíssima bibliografia e eu tive o prazer de ficar pelo menos uns seis meses só lendo o material. Depois que aprendi tudo sobre aquela época eu tinha que inventar, botar o Bilac numa história. A história do balão do Patrocínio é verdadeira: o José do Patrocínio começou a construir um balão exatamente como está no livro, grande parte dele com dinheiro do poder público – ele era muito respeitado – o Bilac era amigo dele, o Santos Dumont realmente foi ao Rio para ver o balão. Eu tinha a história toda, a história real. Agora, o que fazer com os dados reais? Mais uma vez fui salvo pela Heloísa Seixas, que me disse: por que você não bota alguém tentando roubar os planos do balão do Patrocínio? Entrou a cabeça da ficcionista, que eu não tenho. Aí eu inventei os franceses porque eu queria levar a história para Paris também. Mas 90% do que está ali aconteceu: aquele padre existiu, ele não tinha aquele nome, mas um nome muito parecido, o nome verdadeiro dele era Severiano de Resende; a portuguesa existiu, era uma portuguesa que se dava com escritores na Europa, meio picareta, meio pilantra, bonita à beça, totalmente amoral, que foi parar no Rio e teve um caso com o padre; até certos detalhes da história como o da mulher que bem no começo do livro vê o Bilac parado na porta da Colombo, fica olhando para ele, embasbacada, e cai no buraco que havia em frente à confeitaria. Enfim, eu não consegui me libertar do documentário, mas conversando com a Heloísa ela me disse: você está querendo fazer ficção, isso pode ser uma transição boa para você que é conhecido por fazer biografias e livros de reconstituição histórica, talvez o leitor entenda isso como uma transição para o dia em que você fizer uma ficção completa. Espero que um dia eu seja capaz de fazer isso.
Você falou “historiador”. A universidade alimenta preconceitos em relação a abordagens históricas (ou que flertam com a história) realizadas por jornalistas?
RUY CASTRO – Não tenho a menor queixa em relação a isso. Ao contrário, me dou muito bem com os historiadores do Rio, já fui convidado a dar palestras na Fundação Casa Rui Barbosa, por acaso no livro do Bilac. Tenho contato com vários deles, pessoas seríssimas como a Isabel Lustosa, a Maria Fernanda Bicalho, uma série de pessoas que me tratam muito bem, vêem com muito respeito o que faço. Agora, eu é que não posso de maneira alguma me classificar como historiador porque sei a profundidade e as dificuldades do trabalho dos verdadeiros historiadores. Eu também me aplico muito, me empenho, procuro ir a fontes que nunca foram investigadas. Não me considero pesquisador, acho essa palavra negativa (pesquisador é um enviado especial ao arquivo, é um sujeito que vai atrás de material já publicado), prefiro me considerar um investigador. Qualquer pessoa é capaz de fazer pesquisa em um departamento de pesquisa de jornal ou editora e encontrar lá aquela quantidade de material já publicado, fazer uma cozinha daquilo – como se diz no jargão jornalístico – e escrever um livro. Eu quero as fontes primárias. As minhas fontes primárias são as pessoas, porque eu trato de assuntos mais ou menos modernos. Você encontra os contemporâneos dessas pessoas aí e elas estão dispostas a falar. Os historiadores não, as fontes primárias deles geralmente são aqueles documentos maçudos, aquelas atas, aquelas coisas terríveis do século XVI. É uma coisa importantíssima o que eles fazem. Eu não preciso ir tão longe, nem tão fundo. Dentro da minha especialidade procuro ir fundo também, localizando pessoas que nunca deram declarações. Por exemplo, quando fui fazer o livro da bossa nova eu era totalmente noviço nessa coisa e as pessoas me diziam: ah, livro sobre a bossa nova, ótimo, ih, você tem que entrevistar o Carlinhos Lyra. (risos) Eu achava aquilo de uma singeleza, uma sugestão tão bem intencionada. É claro que tem que entrevistar o Carlinhos Lyra! O Carlinhos Lyra é mole. Eu tenho que entrevistar é aquele baterista que nunca conseguiu trabalhar num conjunto profissional, entendeu? Eu tenho que entrevistar é a namorada do contrabaixista que nunca foi ouvida por ninguém. Aquele fotógrafo que ficou amigo dos músicos e já está aposentado, mas que deve ter uma gaveta cheia de material e que ninguém nem sabe o nome. É isso o que eu tinha que fazer, não é? Então é um trabalho digno também e acho que está fazendo até uma espécie de escola. Eu vejo trabalhos acadêmicos, principalmente sobre bossa nova, Nelson Rodrigues, fico lendo aquelas coisas, altamente importantes, não é… e eu sei muito bem de onde tiraram as informações. (risos) Certas informações passaram a circular como se sempre tivessem existido. Não é verdade: estavam soterradas. Precisou uma pessoa para localizar aquele fulano lá no caixa-prego para você ficar sabendo certas coisas que hoje são moeda corrente.
Quais são as suas principais referências literárias?
RUY CASTRO – Eu não creio que hoje, para um garoto nascido em meados do século XX, se possa reduzir as referências só à literatura. Nós nos tornamos um compósito de milhares de outras coisas. Desde os 4 anos de idade eu leio. No dia do meu aniversário de 5 anos ganhei o meu primeiro livro, “Alice no País das Maravilhas”, tradução assinada pelo Lobato (não sei se foi ele que traduziu, pelo menos assinou), Companhia Editora Nacional. Com 8 ou 9 anos de idade meu pai mandou construir a minha primeira estante. Então eu tinha, por exemplo, a coleção completa do Tarzan, a coleção Terra, Mar e Ar, também da Companhia Editora Nacional, toda aquela literatura infanto-juvenil, Sherlock Holmes completo, uma edição muito bonita da Melhoramentos que tenho até hoje. Tenho todos esses livros, não a maioria daqueles que tive criança, mas consegui localizar em sebos do Rio e São Paulo exatamente aquelas edições. Esse “Alice”, por exemplo, achei novinho, exatamente igual, num sebo da Praça Tiradentes por R$ 1,00 há uns três anos e para minha grande surpresa vi que era uma edição de 1934 ou 1935 (eu ganhei esse livro em 1953). Os livros tinham uma maior vida útil antigamente. Então você tem os livros, tem todos os filmes que viu. Na casa dos meus pais tinha disco até dizer chega, discos de 78 rotações, de toda espécie de música, brasileira, fado, francesa, bolero, tango, valsa vienense, orquestras americanas, Frank Sinatra, Dick Farney, Lúcio Alves. Tudo isso vai fazendo parte da sua vida. E também a rua, a rua para mim é uma grande referência literária. Assim que tive idade suficiente para poder sair para rua, ficar e circular na rua à noite, de madrugada, isso foi e é tão importante quanto todos os livros que li.
Você também é um notório cinéfilo. Já houve oportunidade ou vontade de trabalhar com cinema?
RUY CASTRO – Oportunidade, várias. Recusei todas e continuarei recusando. Cinema é uma coisa que faz muito mal à saúde, o pessoal que trabalha com cinema morre rápido. (risos) E tenho muita coisa para fazer nos próximos 40 anos. Deve ter uns 20 anos que eu não vou ao cinema, vejo pouquíssimos filmes no cinema, inclusive o diretor que eu ia ver já morreu – o Kubrick – o outro é o Woody Allen. Mas todas as noites passo um filme para mim. Tenho uns 1500 lasers e devo estar com quase mil dvds (todos os filmes, basicamente, de 1970 para trás). Eu tenho os clássicos do cinema mudo, os clássicos normais quase completos, Chaplin completo, Hitchcock completo, dezenas de filmes do Humprey Bogart, tudo do cinema americano, de cinema europeu tenho muita coisa – adoro o cinema europeu – expressionismo alemão quase completo, René Clair quase completo. Sempre fui assim, eu ia muito a Cinematecas no Rio e vi a maior parte dos filmes americanos dos anos 60 e 70 hoje considerados clássicos, na época, como filmes comerciais. E como todo garoto que gosta muito de cinema também pensei um dia: como seria bom fazer cinema. Só que em 1967, quando eu tinha 19 anos, a possibilidade de você pegar uma câmera e olhar pelo visor era mais remota do que ir à Lua, o que em dois anos já seria possível (não havia essa facilidade, não havia câmeras portáteis, domésticas). Fui à Paris pela primeira vez em 1967; ganhei um Prêmio Esso de Literatura e o prêmio era uma viagem à Europa. Naquela época, a nouvelle vague ainda estava pegando fogo. Então eu fazia coisas assim: sozinho em Paris, durante quarenta dias, andando pela cidade pra lá e pra cá, dia e noite, a pé, fazendo imaginariamente os travellings do Godard em Acossado. – Pô, o Godard filmou aqui! Eu lembrava porque já tinha visto Acossado dez vezes; eu sabia que a câmera partia daqui, fazia isso, então eu saía andando feito estátua egípcia, para frente e olhando de lado, como se fosse a câmera. (risos) Mas eu já trabalhava em jornal nessa época, no Correio da Manhã, que era o melhor jornal do Brasil, o mais importante, que derrubava ministro, presidente. Quer dizer, eu estava muito contente em ser repórter do Correio da Manhã. Então nunca considerei seriamente a idéia de trabalhar com cinema. Conversando com o Sérgio Augusto sobre isso algum tempo depois, ele me disse que todo mundo gostaria de fazer cinema ou fazer música popular ou fazer outras coisas, mas o jornal de certa maneira preenchia essas necessidades.
Você publica dois ou, no mínimo, um livro por ano. É uma produção intensa que exige bastante disciplina. Há alguma idéia sobre um personagem ou assunto que vem lhe perseguindo, mas que você não consegue colocar no papel?
RUY CASTRO – A biografia é um tipo de trabalho tão difícil, tão exaustivo, tão absorvente, que eu nunca conseguiria trabalhar com um biografado com quem não tivesse uma profunda afinidade. Deve ser um personagem que até mesmo inconscientemente esteja comigo há muito tempo. No caso da bossa nova, cresci ouvindo, foi a trilha sonora da minha geração e eu sempre quis saber como havia sido. Os livros que existiam tinham milhões de teorias, teses e discussões acadêmicas, mas eu sempre soube que música popular é outra coisa. Música popular não é concretismo, é algo que acontece aos poucos, leva tempo para se cristalizar, pode ter começado em diversos lugares ao mesmo tempo e finalmente se junta em um lugar através de uma pessoa. Enfim, eu intuía isso mais ou menos. Quando tive a idéia de fazer “Chega de saudade” essa coisa já me perseguia há muito tempo. Nelson Rodrigues então nem se fala porque praticamente aprendi a ler lendo Nelson, no colo da minha mãe, e sempre li Nelson nos jornais.
Você trabalhou com o Nelson Rodrigues?
RUY CASTRO – Fui contemporâneo dele no Correio da Manhã, em 1967. Eu era repórter, escrevia muitas vezes para o Segundo Caderno e o Nelson publicava diariamente suas memórias, que depois saíram no livro “A menina sem estrela”. Mas o Nelson não ia lá, não era funcionário do Correio da Manhã, era funcionário do Jornal dos Sports, sobretudo (ele mandava a coluna todo dia). Eu conhecia o Nelson porque ele freqüentava casas que eu também freqüentava. Cansei de estar com o Nelson, estive com ele pelo menos umas quinze vezes, como estou aqui com você. Uma delas só eu e ele numa entrevista longa que fiz para uma revista de São Paulo. Então Nelson Rodrigues também era uma coisa que me perseguia há muito tempo. Curiosamente, o Garrincha nunca me perseguiu. “O anjo pornográfico” saiu e eu estava indo para Londres com a Heloísa e falei para ela: estou com uma idéia de um livro sobre alcoolismo; queria reconstituir a trajetória de um alcoólatra. Ela fez uma cara como quem diz: é uma grande coisa, formidável. Imediatamente o Garrincha me veio à cabeça porque eu precisava de um fio condutor para isso e não queria que fosse um fracassado, queria que fosse uma pessoa conhecida e famosa para mostrar como o alcoolismo atinge todo mundo. Mesmo “Estrela solitária” tinha uma coisa que me perseguia há muitos anos. O grande futebol do Garrincha foi jogado entre 1953 e 1962 e esse foi o período, por coincidência, em que mais gostei de futebol, entre os meus 5 e 14 anos, que na verdade é o período em que a maioria dos garotos se interessa por futebol. Dos 14 anos em diante você começa a se interessar por outras coisas. (risos)
Sofreu muito com o Garrincha…
RUY CASTRO – Sofri benignamente, como digo no livro. O primeiro jogo que vi foi Flamengo e Botafogo, em 1958, no Maracanã. O Botafogo ganhou por 3×2, o Garrincha acabou com o Flamengo. Mas nunca vi o Garrincha como um inimigo, nem mesmo como um adversário. Ele era uma figura tão fascinante como jogador, você não consegue não gostar do Garrincha. O importante, para mim, é que acompanhei muito futebol entre 53 e 62, mas acompanhei mesmo, de ouvir todos os jogos, de ler o jornal no dia seguinte. Naquela época você tinha pouca televisão ou nem tinha, via os gols no cinema depois de alguns dias no cinejornal Esporte na Tela; havia as revistas semanais, a Manchete Esportiva. Eu sabia tudo de cor: resultado de jogo, escalação dos dois times, nome do juiz, renda, nome do bandeirinha, eventos. Futebol carioca, basicamente, e seleção brasileira. Eu sabia tudo que era possível um garoto saber do campo para fora. Quando tive a idéia do livro do Garrincha pensei: é a minha chance de descobrir tudo o que aconteceu no vestiário, nas concentrações, na casa dos jogadores, dentro das cabeças dos jogadores, ou seja, mergulhar no lado oculto da minha infância. Isso foi uma grande fascinação para mim ao fazer o livro e acho que consegui passar isso.
O livro “O vermelho e o negro” revelou a sua ligação com o Flamengo. Hoje, no entanto, o futebol profissional não se caracteriza como espetáculo vistoso e está cada vez mais orientado pela lógica mercantil. Você ainda tem o mesmo entusiasmo pelo esporte, considerando essa realidade e a triste situação porque passam os clubes brasileiros.
RUY CASTRO – Eu continuo acompanhando muito futebol, vejo futebol pelo menos duas vezes por semana; assisto a jogos na quarta e no domingo. E, por acaso, tenho a sorte de ser casado com uma mulher que também gosta de futebol.
Que maravilha!
RUY CASTRO – Torcedora do Fluminense, adora futebol. Nós vemos futebol toda quarta à noite e domingo à tarde, pela televisão. Ontem eu tentei ver um jogo – Milan e Peruggia. Mas que coisa horrorosa! Não é futebol. É de uma brutalidade, de uma estupidez, de uma violência. E esses jogadores consagrados que ganham milhões? Um bando de cabeças-de-bagre. Quando jogadores como Cafu, Zé Maria e outros começam a ser chamados de craques eu não entendo mais nada. Mas a mecânica do jogo ainda me empolga. O meu time vai muito mal de alguns anos para cá, outros também estão indo muito mal. O problema não é só dentro do campo, mas toda uma estrutura apodrecida, no Flamengo e em vários outros clubes. Dentro do campo, o Flamengo foi tri-campeão carioca há pouco tempo, foi campeão da Copa Mercosul, campeão da Copa dos Campeões, mas não é nada satisfatório para quem está habituado à glória de dois, três títulos por ano. O Flamengo produziu um livro na época de seu centenário, em 1995, e me pediram um texto. Eu escrevi o seguinte: se não houvesse a era Zico e aquele timaço que ele comandou, se eu tivesse morrido, vamos supor, um ano antes da era Zico, eu teria morrido muito feliz com o Flamengo; até então eu já havia tido todas as alegrias possíveis com o Flamengo. Nenhum de nós desconfiava que do Zico em diante estaríamos no apogeu das nossas vidas de torcedor. Então essas coisas são cíclicas: está péssimo hoje, vai melhorar amanhã.
Em “O vermelho e o negro” você destaca uma passagem da decisão do campeonato carioca de 2001, o milagroso gol de Petkovich no final dramático da partida contra o Vasco em que o fenômeno Flamengo se fez ver, dessa vez na Bienal do Livro. Eu casualmente estava lá e…
RUY CASTRO – Você estava lá? Naquela final? (risos)
Não vi a passeata que você cita, mas a comemoração. Foi uma explosão, um negócio, daquele jeito mesmo. Era o último dia da Bienal, quase noite. De repente, todo mundo saiu para os corredores pra comemorar: Pô, o que tá acontecendo!? Era o Flamengo.
RUY CASTRO – (risos) Foi um vexame, rapaz. Uma passeata no meio da Bienal. Todo mundo de Flamengo, uma coisa impressionante, correndo – eu inclusive. (risos) No meio de um bando de moleque, correndo pela Bienal. Os ingleses não deviam estar entendendo nada. (risos)
Você pretende desenvolver outro tema relacionado com o futebol? E você acha que no Brasil são publicados livros sobre futebol como se deveria ou esse é um assunto que não é levado muito a sério pelas editoras ainda?
RUY CASTRO – Sempre houve um estigma contra o livro de futebol entre as editoras brasileiras. A quantidade de livros publicados sobre futebol no Brasil é pouca em comparação com a sua importância e a dos clubes brasileiros. Esses livros mais antigos eram de editoras menores ou de editoras grandes, mas talvez não tenham desempenhado como esperado. São livros difíceis de encontrar em sebo. Isso significa que tiveram tiragens muito limitadas. Eu sempre soube que havia um estigma contra livro de futebol, como também havia contra livro sobre música popular. Dá a impressão de que quanto mais popular, quanto mais gente atinge, menos gente está interessada em ler sobre aquilo. Mas sempre conversei com o Luis Schwarcz sobre isso e nós achávamos que a razão deveria ser outra. Por que os livros sobre música popular nunca deram muito certo? Claro que deram certo, só que na medida em que tinham que dar certo. Se você faz um livro que é um estudo acadêmico sobre letras de música popular vai atingir os estudantes que estão interessados naquilo e que devem ser duas ou quatro mil pessoas em muitos anos. Quando fui fazer “Chega de saudade” jamais quis uma coisa acadêmica. Descobri desde o começo que eu não queria interromper a história que estivesse contando para dar uma aula de história ao leitor… João Gilberto gravou Chega de Saudade em 1958… naquele ano o Brasil estava sob o governo do Juscelino, que acabou de criar a indústria automobilística, que não sei o que… O João Gilberto já foi embora, entendeu? E eu estou dando uma aula de história que você não pediu. Então decidi que eu iria dar todo o panorama do Brasil e da época, mas de tal maneira dentro da história que você fosse seguindo as histórias ao mesmo tempo que absorvendo o contexto. Isso foi feito através das conversas com todo mundo: Você tinha carro na época? Que carro? Ou então: O que você bebia na época? Qual whisky você bebia? Qual refrigerante? Onde você comprava roupa? Enfim, esse tipo de coisa foi perguntado e as pessoas nem sempre entendiam porque. Assim, fui conseguindo criar a coisa. Você está fazendo um livro sobre a história de um movimento da música popular, mas o seu foco está nas pessoas que fizeram aquilo; você consegue não só fazer o leitor ir junto com você como atrai uma quantidade muito maior de leitores. Foi por isso que “Chega de saudade” vendeu quase 70 mil livros, porque não é um livro sobre a bossa nova exatamente; é um livro sobre as pessoas que fizeram a bossa nova. No caso de “O anjo pornográfico” a mesma coisa; não é um livro sobre teatro, é um livro sobre um ser humano que foi jornalista, foi autor de teatro, teve uma vida terrível, milhões de tragédias na vida. “Estrela solitária” também não é um livro sobre futebol; é sobre um ser humano que, por acaso, tinha como uniforme de trabalho calção e chuteira durante uma certa época. Eu decidi no caso do Garrincha reduzir a quantidade de passagens de jogo de futebol – fulano foi à linha de fundo para o outro cabecear – ao mínimo, em primeiro porque não vi a maior parte desses jogos, não posso garantir que foi desse jeito, não havia videoteipe naquele tempo, teria que me basear no que os jornais deram no dia seguinte, nem sei se com muita precisão (além disso, qualquer idiota inventa lance de futebol); só me limitei a narrar os lances indispensáveis na carreira do Garrincha, me concentrei na figura dele como ser humano. Acho que fiz muito bem porque consegui atrair uma quantidade grande de leitoras que não se sentiram chateadas em razão do livro estar cheio de futebol. Graças a “Estrela solitária” e graças também aos dois livros do Nelson Rodrigues sobre futebol – “À sombra das chuteiras imortais” e “A pátria em chuteiras” – criou-se um novo mercado para livros de futebol no Brasil.
“Estrela solitária” inclusive mereceu um comentário do Presidente Lula.
RUY CASTRO – Exatamente. Ao ser perguntado sobre qual livro gostaria de ter escrito, o Lula disse na campanha que seria “Estrela solitária”. Fiquei muito honrado com isso. Já iria votar nele, foi ótimo. (risos) E o Zagallo leu, na mesma época, naquela campanha pró-leitura que a Globo fez, um trecho do livro. No dia seguinte eu estava andando no centro do Rio e um mendigo me pediu o livro: – Ruy, me dá um livro! Olhei para ele, o cara sentado na esquina da Sete de Setembro com a Uruguaiana: – Mas que livro? – O livro do Garrincha. – Você acha que eu ando com o livro pra lá e pra cá? Quando passar de volta aqui eu te dou o livro. – Não, que nada, você nunca mais vai me ver. – Não, se eu passar aqui e te encontrar eu vou te dar esse livro. E fui embora. Daí uns quatro ou cinco dias eu voltei à cidade e levei o livro, mas não achei o cara.
É emocionante.
RUY CASTRO – Ah, espetacular. Um sem-teto com fome de leitura. Disse que estava lendo na biblioteca.
Para encerrar, gostaríamos que você deixasse uma mensagem aos nossos livreiros e leitores.
RUY CASTRO –Olha, só posso dizer uma coisa. Sei que as pessoas que estão na Saraiva trabalham, estão aqui profissionalmente. Eu trabalho em casa, fazendo os livros que serão vendidos pela Saraiva e por outras. Mas sempre digo: o dia em que eu morrer, eu não quero ir para o céu, eu quero ir para uma livraria.
BIOGRAFIA
Ruy Castro nasceu em Caratinga, Minas Gerais, em 1948. Ainda criança, mudou-se para o Rio de Janeiro. Graduado em Ciências Sociais pela UFRJ, iniciou sua atividade profissional em 1967 como repórter do jornal Correio da Manhã. Na seqüência, trabalhou como redator, repórter especial ou editor para as revistas Manchete, Seleções, Isto É, Playboy e Veja e para os jornais Jornal do Brasil, Folha de São Paulo e o Estado de São Paulo, entre outras publicações.
LIVROS DE RUY CASTRO
“Amestrando orgasmos” (Objetiva), “O anjo pornográfico – A vida de Nelson Rodrigues”, “Bilac vê estrelas”, “Carmen – uma biografia”, “Carnaval no fogo – Crônica de uma cidade excitante demais”, “Chega de saudade”, “Ela é carioca – Uma enciclopédia de Ipanema”, “Era no tempo do rei – um romance da chegada da corte”, “Estrela solitária” (Cia das Letras), “O leitor apaixonado”, “Meu querido canalha” (Objetiva), “A onda que se ergueu no mar”, “O pai que era mãe”, “Saudades do século XX” (Cia das Letras), “Tempestade de ritmos”, “Um filme é para sempre”, “Ungáua ! – 101 crônicas”, “O vermelho e o negro” (Ediouro).
LIVROS ORGANIZADOS OU ADAPTADOS
“Alice no País das Maravilhas”, “O amor de mau humor – Uma antologia de frases”, “Frankestein”, “O livro dos insultos de H. L. Mencken”, “Mau humor – Uma antologia definitiva de frases venenosas”, “O melhor do mau humor – Uma antologia de citações”, “O poder de mau humor – Uma antologia de citações”, “Querido poeta – Correspondência de Vinicius de Moraes” (Cia das Letras). Além disso, o autor coordenou a edição de 12 obras de Nelson Rodrigues, duas de Max Nunes, uma de Mário Filho e organizou os cds “Chega de saudade” e “A onda que se ergueu no mar”.