Máximas do mestre Shaw

Postado em Autores, Leituras, Literatura inglesa, Trechos em 09/02/2010 por Daniel

“Não deveis supor, só por eu ser um homem de letras, que nunca tentei ganhar a vida honestamente”.

“O homem razoável adapta-se ao mundo; o desarrazoado insiste em tentar adaptar o mundo a si mesmo. Por isso, todo progresso depende do homem desarrazoado”.

“Neste mundo sempre há perigo para aqueles que o temem”.

“É certo que um romance não pode ser ruim demais para não ser publicado… Mas é decerto possível que um romance seja bom demais para ser publicado”.

Socialismo para milionários – Bernard Shaw (Ediouro, 2004)

Do autor: “A profissão da senhora Warren (Peixoto Neto) e “O Teatro das ideias” (Cia das Letras).

Shakespeare and Co. e Leonardo da Vinci

Postado em Livreiro, Lugares, Vídeos em 07/02/2010 por Daniel

Shakespeare and Co.

Acesse pelos links abaixo os vídeos do programa Mundo S/A da Globo News que contam um pouco da história e retratam o clima de duas importantes livrarias em atividade, a parisiense Shakespeare and Co. e a carioca Leonardo da Vinci.

Shakespeare and Co.: http://bit.ly/axNhfS

Leonardo da Vinci:  http://bit.ly/9UMIs7

O último mito do rock também em livros

Postado em Biografia, Música em 02/02/2010 por Daniel

Há quase 16 anos o líder do Nirvana, Kurt Cobain, morria em sua casa, na cidade de Seattle (EUA). Compositor, guitarrista e vocalista, líder do grunge – movimento que deu novo impulso ao rock – Cobain pôs fim à própria vida poucos dias depois de ficar internado em razão de um coma provocado por overdose. Um tiro de espingarda no auge do sucesso.

Kurt Donald Cobain nasceu em 20 de fevereiro de 1967 em Aberdeen, cidade a 110km de Seattle, estado de Washington. Na infância pobre, considerado uma criança hiperativa, a ele eram dados remédios para se concentrar nos estudos e dormir à noite. A separação dos pais, quando tinha nove anos, o marcou negativamente; a partir de então morou com vários parentes (“Lembro-me de me sentir envergonhado o tempo inteiro. Eu queria desesperadamente ter uma família nos moldes tradicionais”).

Odiando os estudos, o garoto Kurt pintava, cantava e ouvia rock. Já aos 15 anos Cobain cultivava o niilismo que o caracterizaria e expressava desejos suicidas, segundo Charles Gross, autor da biografia “Mais pesado que o céu” (Globo), escrita a partir de extensa pesquisa, entrevistas e dos diários do artista.

Cobain ganhou sua primeira guitarra aos 14 anos e formou o Nirvana com Krist Novoselic aos 19. O primeiro disco – Bleach – é de 1989. Em 1991 saiu o clássico Nevermind, que alçou o trio (com Dave Grohl na bateria) à fama. Neste estão as duas músicas mais conhecidas da banda: Smells like a teen spirit e Come as you are. Em 1992 Cobain se casou com a cantora Courtney Love e teve uma filha. Em 1993 o Nirvana lançou seu último disco em estúdio, In utero – o também já clássico Acústico MTV veio em 1994.

Envolvimento pesado com drogas, tristeza e desesperança, as pressões do sucesso, uma constante dor de estômago. Aos 27 anos, Kurt Cobain preferiu “queimar de uma vez a desaparecer devagar”, como escreveu em seu bilhete de despedida, usando um trecho da música My My, Hey Hey, de Neil Young.

Tudo isso e mais está nos livros já lançados sobre Cobain no Brasil. Além da já citada biografia de Gross, você pode conferir:

Cobain (Springs)

Come as you are – a história do Nirvana – Michael Azerrad (Madras)

Kurt Cobain – fragmentos de uma autobiografia – Marcelo Orozco (Conrad)

Trechos do bilhete suicida de Cobain

“O fato é que eu não posso enganar vocês, ou qualquer um, simplesmente não é justo para mim nem para vocês. O pior crime que eu posso pensar seria o de enganar as pessoas ao fingir que estou me divertindo 100%”.

“Sou uma pessoa de humor muito errático e não tenho mais a paixão. Paz, amor, empatia, Kurt Cobain”.

Destaques da Record em fevereiro

Postado em Lançamentos em 01/02/2010 por Daniel

A editora Record acaba de divulgar seus próximos lançamentos. Veja a relação.

O aliciador – Donato Carrisi (Romance)

O que eu não contei – Azar Nafisi (Biografia)

Gentleman – Klas Östergren (Romance)

O estandarte da honra – Jack Whyte (Romance)

A casa de chá – Ellis Avery (Romance)

Arca sem Noé – Regina Rheda (Conto)

Curral da morte: o impeachment de sangue, poder e política no Nordeste – Jorge Oliveira (Reportagem)

O ouro de Moscou – Isidoro Gilbert (História)

Maiakóvski: um homem só coração

Postado em Autores, Biografia, Literatura russa, Poesia, Trechos em 31/01/2010 por Daniel

“Quando o poeta se encontra no ponto mais baixo, o mundo deve realmente estar virado às avessas. Se o poeta não está mais autorizado a falar em nome da sociedade, mas apenas no seu, não resta mais dúvida que descemos à última vala”.

Henry Miller em “A hora dos assassinos” (L&PM)

Vladimir Vladimirovitch Maiakóvski nasceu em 1893 na Geórgia, então Império Russo. Após a morte do pai, em 1906, mudou-se com a família para Moscou. Em 1908, aos 15 anos, filiou-se ao partido bolchevique (socialista), sendo preso duas vezes, a última delas por onze meses. Em 1910 ingressou na Escola de Belas Artes, de onde foi expulso quando já se encontrava ligado ao movimento futurista. Participou da elaboração do primeiro manifesto futurista russo e tornou-se uma das mais representativas figuras do movimento.

Após a revolução russa de 1917, Maiakóvski colaborou com o novo regime, participando ativamente em funções culturais. Suas inovações estéticas, todavia, trouxeram-lhe conflitos crescentes com as autoridades do período stalinista. Foi tachado pelos burocratas como “incompreensível para as massas”. Maiakóvski sustentava que “não há conteúdo revolucionário sem forma revolucionária”. Assim, a linguagem que empregava era a do dia a dia, sem nenhum apego a formalismos então em voga.

Sua obra é profundamente revolucionária na forma e nas idéias defendidas. Maiakóvski foi um homem de grandes paixões, arrebatado e lírico, épico e satírico ao mesmo tempo.  Nos últimos três anos de vida levou seus versos a mais de 180 mil pessoas em conferências e recitais por várias cidades, coerente com sua vida e seus múltiplos interesses (escreveu também peças teatrais e roteiros de cinema, além de ter se dedicado ao desenho e à propaganda).

Maiakóvski suicidou-se em Moscou, em 14 de abril de 1930, talvez pela falta de perspectivas que via para a sua arte, talvez por problemas de saúde, talvez pelos relacionamentos amorosos infelizes. Seja como for, sua existência brilhante e visceral continua viva, bem aqui.

Do autor: Minha descoberta da América (Martins), Mistério bufo (Musa), O percevejo (34), Poemas (Perspectiva) e Poética – como fazer versos (Global).

Sobre o autor: Maiakóvski e o teatro de vanguarda (Perspectiva), Maiakóvski – o poeta da revolução (Record), Maiakóvski – vida e obra (Paz e Terra), Maiakóvski – vida e poesia (Martin Claret) e A poética de Maiakóvski (Perspectiva).

A Flauta-Vértebra

Prólogo

A todas vocês,

que eu amei e que eu amo,

ícones guardados  num coração caverna,

como quem num banquete ergue a taça e celebra,

repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:

seria melhor talvez

pôr-me o ponto final de um balaço.

Em todo caso

eu

hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!

Convoca os salões do cérebro

um renque inumerável de amadas.

Verte o riso de pupila em pupila,

veste a noite de núpcias passadas.

De corpo a corpo verta a alegria.

Esta noite ficará na História.

Hoje executarei meus versos

na flauta de minhas próprias vértebras.

1915 (Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

A Sierguéi Iessiênin (Fragmentos)

Remédio?

Para mim, despautério:

mais cedo ainda

você estaria nessa corda.

Melhor morrer de vodca

que de tédio!

Por enquanto

há escória de sobra.

O tempo é escasso –  mãos à obra,

Primeiro é preciso

transformar a vida,

para cantá-la – em seguida.

Para o júbilo

o planeta está imaturo.

é preciso arrancar alegria ao futuro.

Nesta vida

morrer não é difícil.

O difícil

é a vida e seu ofício.

1926 (Tradução de Haroldo de Campos)

Fragmento 1

Me quer? Não me quer? As mãos torcidas

os dedos

despedaçados um a um extraio

assim se tira a sorte enquanto

no ar de maio

caem as pétalas das margaridas

Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e

que a prata dos anos tinja sem perdão

penso

e espero que eu jamais alcance

A impudente idade do bom senso

1928-1930 (Tradução de Augusto de Campos)

Outro olhar sobre o Haiti

Postado em Ciências humanas em 29/01/2010 por Daniel

Toussaint L'Ouverture, líder da independência haitiana

A tragédia humana e social que ocorre no Haiti também é uma oportunidade para conhecer a singular história desse país e de seu povo, enxergar para além do imediato e do sucessivo fracasso que tem sido a trajetória haitiana nas últimas décadas e entender as implicações de sua formação no cenário atual.  

País mais pobre da América, o Haiti foi o primeiro território a tornar-se independente na América Latina e o fez por meio da revolta dos escravos negros contra o colonizador, a França. Independência conquistada em combate e que lhe valeu o isolamento internacional porque avançada demais para a época, porque levava a sério os ideais da revolução francesa e porque, maldição suprema, foi realizada por escravos (num momento em que a escravidão era largamente utilizada por países como EUA e Brasil).  

Há pouca bibliografia disponível em português sobre o Haiti. Nos últimos anos, por conta da participação brasileira na missão de paz da ONU, surgiram alguns títulos em torno dessa experiência militar. Fora isso, há obras com enfoque mais ou menos acadêmico e um livro fundamental chamado “Os jacobinos negros”.  

Veja a seguir a nossa seleção e também a transcrição do artigo publicado essa semana pelo sempre lúcido Sérgio Augusto.  

1. Haiti (col. Tudo é História) – Marcelo Grondin (Brasiliense)  

Introdução básica à história do país.  

2. A república negra – histórias de um repórter sobre as tropas brasileiras no Haiti – Luís Kawaguti (Globo)  

Relatos de um repórter da Globo que acompanhou o trabalho das tropas brasileiras no Haiti.  

3. Um olhar sobre o Haiti – Elizeu de Oliveira Chaves (LGE)  

Enfoque na questão da migração como aspecto fundamental da história haitiana.  

4. Um soldado brasileiro no Haiti – Tailon Ruppenthal (Globo)  

Relato de um soldado brasileiro da força de paz da ONU sobre a missão no Haiti.  

5.  Os jacobinos negros – C. L. R. James (Boitempo)  

Escrito em 1938, portanto no auge das ideias racistas, por Cyril Lionel Robert James (1901-1989), professor e ativista de movimentos anti-coloniais e socialistas nascido em Trinidad e Tobago, esse clássico revela o papel da escravidão no sistema internacional centrando-se na opressão aos negros. Ao abordar a revolução que os escravos liderados por Toussaint L’Ouverture empreenderam e o cerco a que foram submetidos por conta disso é possível identificar raízes históricas para o atual panorama de indigência em que vive o país caribenho.  

 

O Haiti que importa – Sérgio Augusto

O Estado de S. Paulo (24.01.2010) 

Além da terra lacerada por terremotos e colonialismo, existe outro país, de duros guerreiros, músicos de ponta, grandes pintores

Há quem ligue o Haiti a Caetano Veloso ou a Graham Greene. Melhor do que nada. Muitíssimo melhor do que reduzir o Haiti ao vodu (ou à caricatura do culto de origem africana perpetuada mundo afora), a golpes de Estado, terremotos e furacões, desmatamentos e miséria, aos Tonton Macoutes e ditadores de óculos escuros espelhados. Mas existe um outro Haiti, anterior e posterior a Papa Doc e Baby Doc Duvalier, que tampouco está na música de Caetano e no romance satírico Os Comediantes, de Greene, e esse é o Haiti exemplar, o Haiti que importa: o Haiti de Toussaint L”Ouverture e Jean-Jacques Dessalines, Jean David Boursiquot e Wyclef Jean – o Haiti heroico e criativo.

L”Ouverture iniciou a libertação da ilha, concluída por Dessalines em 1804; Boursiquot é uma das glórias da renomada pintura naïf haitiana; Wyclef Jean, um rapper de fama mundial. Nas artes plásticas e na música (compas, zouk), os haitianos não disputam a repescagem. Encantei-me por seus pintores primitivos há mais de 30 anos, numa mostra em Miami, onde conheci, com vergonhoso atraso, os carnavais e as bodas de Boursiquot, as marinas de Jonas Camille Hector, as caçadas de Wilson Brigaud, os mercados de Fritzner Alphonse, cujas imagens nos remetem a Rousseau, Tarsila e Guignard.

Foi aí que deixei de associar o Haiti, única e exclusivamente, aos esbugalhados zumbis antilhanos dos filmes produzidos por Val Lewton e a uma americana chamada Kate. Invenção de Cole Porter, Kate foi até Porto Príncipe, nos anos 1930, para um descanso, mas lá apaixonou-se por um haitiano, depois por outro, e mais outro, adiando sempre a volta, até decidir-se por nunca deixar o Haiti, cujo turismo cresce exponencialmente depois que ela publica um livro sobre os mil encantos da ilha. A deliciosa ninfômana viveu até os 80 e teve funeral de luxo.

A canção Kate Went to Haiti foi composta por Porter para o musical Du Barry Was a Lady, cujo protagonista a certa altura sonhava que era Luís XV, às voltas com Madame Du Barry, a legendária amante do rei da França. Em 1793, quando Du Barry foi guilhotinada, o Haiti ainda se chamava St. Dominique e era a mais rica colônia europeia no Novo Mundo. Metade da produção mundial de café e açúcar saía de lá, não de Santo Domingo, a colônia espanhola do lado oriental da Ilha Hispaniola, futura República Dominicana.

Os escravos africanos que tocavam a agricultura de St. Dominique eram tratados com extrema crueldade pelos usineiros e cafeicultores franceses. Quem saía da linha, tinha o reto entupido de pólvora e o corpo implodido. Menos de uma década depois de Du Barry ter subido ao cadafalso, os escravos se revoltaram, sob a liderança de Toussaint L”Ouverture, a quem Napoleão mandou trancafiar num calabouço francês até que morresse de fome e sede. Em abril de 1803, o Espártaco creole afinal morreu. Nove meses depois, St. Dominique conquistou sua independência, proclamada por Jean-Jacques Dessalines.

Se tivesse sido branco, como Bolívar, e o Haiti não fosse apenas uma ilha, o general negro que derrotou Napoleão seria uma figura histórica bem mais conhecida no resto do continente. Vários livros inspirou, entre os quais Os Jacobinos Negros, do jamaicano C. L. R. James (traduzido pela Boitempo), e uma elogiada peça teatral do martiniquense Édouard Glissant, mas há anos que o ator americano Danny Glover luta contra o desinteresse dos produtores de cinema por imortalizá-lo na tela.

A França não vendeu barato a perda da colônia e a expulsão violenta de seus colonos. Com sua poderosa armada, embargou o comércio do Haiti, exigindo-lhe 150 milhões de francos de indenização pelos prejuízos causados pela independência, quantia extorsiva considerando-se que, na mesma época, a França vendeu a Louisiana aos Estados Unidos por 80 milhões de francos. Da nascente república norte-americana os haitianos, a rigor, só receberam ajuda de Alexander Hamilton, que colaborou na redação da primeira Carta Magna esboçada por L”Ouverture. Thomas Jefferson, antes mesmo de chegar à presidência, já antagonizava a nascente república antilhana. Tinha 180 escravos; não preciso explicar mais nada.

Com sanções comerciais e outros tipos de boicote, os Estados Unidos forçaram os haitianos a contraírem uma dívida colossal, em bancos americanos e franceses, que chegou a US$ 20 bilhões e só foi ressarcida em 1947. Reconhecer o Haiti como país independente, a Casa Branca só o fez em 1863, ou seja, com quase 60 anos de atraso. Mais um feito de Abraham Lincoln.

Por temer interferência alemã na zona do Canal do Panamá, os Estados Unidos de Woodrow Wilson ocuparam o Haiti em 1915 e lá ficaram durante 19 anos e cinco presidentes, o último dos quais, Franklin Delano Roosevelt, autor de uma nova Constituição imposta aos haitianos pela administração Wilson, de que Roosevelt fora subsecretário da Marinha. A nova Constituição, no melhor estilo uti possidetis, preludiou a degradação econômica e ambiental do país, cujas luxuriantes florestas de mogno e pinho caribenho foram dizimadas em questão de anos.

Para evitar “outra Cuba” nas vizinhanças, quatro presidentes republicanos e três democratas toleraram as atrocidades e as roubalheiras da ditadura Duvalier, que se perpetuou no poder de 1957 a 1986. Era Bush pai quem ocupava o Salão Oval quando o primeiro presidente democraticamente eleito do Haiti, Jean-Bertrand Aristide, foi derrubado em 1991, com a colaboração de Washington. Reconduzido ao governo três anos depois, com o beneplácito e uma coleira de Bill Clinton, Aristide passou três anos tratado como pária pelo Bush filho. Não era o fantoche ideal e acabou derrubado em 2004, no melhor estilo Zelaya, sob as baionetas dos marines e o dedo em riste do embaixador James Foley.

Jared Diamond dedicou 31 das 681 páginas de Colapso para explicar o que aconteceu com o Haiti (e a República Dominicana) desde a chegada de Colombo. Outros estudos existem, eventualmente mais detalhados, mas esse, traduzido há quatro anos pela Record, continua sendo o mais acessível. Sua leitura muito nos ajudará a evitar interpretações equivocadas do aparente beco sem saída haitiano. Quando pensar no Haiti e rezar pelo Haiti, tenha sempre em mente que os maiores flagelos que o atingiram nos últimos 500 anos não foram exatamente causados pela natureza.

Com Holden e Phoebe, sempre

Postado em Autores, Trechos em 28/01/2010 por Daniel

Morreu Jerome David Salinger, autor do livro que incendiou e incendiará juventudes.

Agora é hora de retomar o talvez esquecido exemplar velho e cinza do Apanhador e, com o impulso juvenil de Holden e Phoebe, saber que a vida pode ser mais do que consumir e cumprir convenções.

“Aí, de repente, comecei a chorar. Não consegui evitar o troço. Chorei baixinho para que ninguém me ouvisse, mas chorei. A Phoebe ficou apavorada quando me viu chorar e veio para perto de mim, me pedindo para parar. Mas depois que a gente começa, não consegue parar assim à toa. Quando comecei a chorar ainda estava sentado na beira da cama, e aí ela passou o braço por trás do meu pescoço e eu também pus o meu em volta dela, mas sem conseguir parar. Chorei um tempão. Pensei que ia morrer sufocado ou coisa que o valha. Puxa, nunca vi a pobrezinha da Phoebe tão apavorada. A droga da janela estava aberta e a Phoebe estava tremendo e tudo, porque só estava com o pijama em cima da pele. Mandei ela voltar para a cama, mas ela não quis. Até que enfim consegui parar de chorar. Mas custou um bocado. Aí acabei de abotoar o sobretudo e prometi a ela que ia telefonar. Respondeu que, se eu quisesse, podia dormir com ela, mas eu disse que não, que era melhor dar no pé, porque o Professor Antolini estava me esperando e tudo. Aí tirei o chapéu de caça do bolso e dei pra ela. Ela gosta desses chapéus malucos. Só a muito custo aceitou. Sou capaz de apostar que dormiu com ele na cabeça. Ela gosta muito desse tipo de chapéu. Aí eu disse de novo que ligava para ela, se desse jeito, e saí.”

(O apanhador no campo de centeio – J. D. Salinger. Ed. do Autor, pp. 175)

Do autor: Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour, uma apresentação (L&PM), Franny e Zooey (Ed. do Autor) e Nove estórias (Ed. do Autor).

Nova editora – Tinta Negra

Postado em Lançamentos, Livreiro em 27/01/2010 por Daniel

Nova editora na praça, a Tinta Negra Bazar Editorial, do Rio. Segundo comunicado, a nova casa pretende trabalhar com ficção, música, filosofia e gastronomia, entre outros temas, a fim de compor a idéia de variedade de um bazar oriental.

De saída, surgem 6 títulos, sendo um dos principais a reportagem “Metendo o pé na lama: os bastidores do Rock in Rio de 1985”, de Cid Castro. Compõem a primeira leva ainda:

Lugar – Reni Adriano (romance)

A vida literária no Brasil durante o romantismo – Ubiratan Machado (crítica literária)

O livro da metaficção – Gustavo Bernardo (crítica literária)

Contos mais que mínimos – Heloísa Seixas (contos)

Comida e filosofia – Roberta Sudbrack (gastronomia)

Nem só de mais vendidos

Postado em Livreiro, Primeiros passos em 27/01/2010 por Daniel

Stephen King

No mercado editorial a busca pela fabricação de best sellers é intensa. A expansão ou certa lógica desse mercado exige cada vez mais autores com temas capazes de atrair a atenção do público e, ideal, repetí-los o máximo possível com sucesso de vendas, como numa linha de produção. As editoras que atuam nessa diretriz definem regras para atingir o gosto médio consagrado, com toda carga de imprecisão que isso representa.

Por definição, ser um best seller não prejudica a qualidade literária de um livro. Distante de qualquer juízo, a expressão diz tudo: seu atributo é a quantidade vendida.

A necessidade de produzir best sellers gera ícones, super estrelas da máquina literária. Nomes como o brasileiro Paulo Coelho, a chilena Isabel Allende e os estadunidenses John Grisham e Stephen King construíram fortunas com a venda de milhões de exemplares e a tradução para vários idiomas de suas inúmeras obras.

Uma livraria, contudo, não sobrevive só com best sellers. Eles representam muito no faturamento, são o pães quentes. Mas todos os tem, inclusive pontos alternativos como bancas de revista, supermercados, postos de gasolina, farmácias e, sobretudo, sites diversos, varejistas que não tem o livro como principal negócio. Isso faz com que os preços desses títulos tendam para baixo, afetando as livrarias. Daí a receita para essas ser casar uma forte presença de lançamentos com catálogos consistentes nas diversas áreas do conhecimento. Fato óbvio, mas nem por isso sempre praticado.

Concertos para a juventude: Persépolis

Postado em Cinema, Literatura infanto-juvenil, Quadrinhos em 24/01/2010 por Daniel

Persépolis 1 – Marjane Satrapi (Cia. das Letras, 2004)

Autobiografia em quadrinhos de uma menina iraniana que vive os agitados dias do movimento que derrubou o Xá e desembocou na revolução islâmica em 1979.

Compreendendo a história de seu país através da convivência com familiares e amigos que tem tradição de lutas a narradora se descobre em contato com realidades extremas.

Divertido e bem humorado, mas igualmente profundo e sensível: a injustiça vista pelos olhos de uma criança. Mas não só: o livro leva, longe dos estereótipos a que estamos acostumados, a tomar contato com um Irã muito mais próximo do que comumente se imagina – de resto, essa percepção também pode ser encontrada no cinema iraniano, como no belíssimo A Maçã.

Esse é o primeiro de uma série de quatro livros da história de Marjane (há uma edição em volume único).

A série está também em um premiado filme disponível em dvd.

Pasárgada: Ovídio Martins x Bandeira

Postado em Ligações, Literatura africana, Literatura brasileira, Poesia em 24/01/2010 por Daniel

Anti-evasão

Ovídio Martins (Cabo Verde – 1928)

Pedirei
Suplicarei
Chorarei

Não vou para Pasárgada

Atirar-me-ei ao chão
E prenderei nas mãos convulsas
Ervas e pedras de sangue

Não vou para Pasárgada

Gritarei
Berrarei
Matarei

Não vou para Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira (Brasil – 1886-1968)

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

José Olympio divulga lançamentos

Postado em Lançamentos em 22/01/2010 por Daniel

A editora José Olympio anunciou seus próximos lançamentos. A previsão é de que estejam disponíveis em 29 de janeiro. Confira.

Uma mulher inacabada – Lillian Hellman  (Memórias)

Primeiro dos três volumes de memórias, Uma mulher inacabada versa menos sobre teatro e literatura do que sobre os autores com os quais Lillian Hellman (1905-1984) conviveu. Nascida em Nova Orleans, Ms. Hellman viveu a maior parte do tempo em Nova York , onde travou amizade com grandes escritores e intelectuais, como Ernest Hemingway, Arthur Miller, John dos Passos e viveu por mais de trinta anos com Dashiell Hammett. 

Destino poesia – Italo Moriconi (org.) (Poesia)

Esta coletânea reúne alguns dos mais talentosos poetas dos anos 1970: Ana Cristina Cesar, Cacaso, Paulo Leminski, Torquato Neto e Waly Salomão. Vivendo em um tempo de repressão política e de acirrada contestação, esses poetas misturam utopia, criatividade e vertigem. Todos nos deixaram cedo demais. Como observa Italo Moriconi, “os cinco deram respostas vivenciais e estéticas a seu tempo, regido pela lei número um da loucura utópica: mais vale viver 100 anos em 10, que 10 anos em 100. Como resultado da aceleração vital em que se jogaram inteiros na escrita, acabaram por reatualizar o mito romântico, do caráter aventureiro e arriscado, fatal ou trágico, de um ‘destino de poeta’”.

A balada do café triste – Carson McCullers (Contos)

Carson McCullers (1917-1967) publicou seus principais livros na década de 1940 e consagrou-se pela originalidade em suas obras. De saúde sempre instável morreu aos 50 anos. A balada do café triste é uma reunião de contos em cenários macabros, amor e ódio se entrelaçam, e a solidão das almas não parece ter fim. A primeira história, que dá título ao livro, foi levada às telas, num filme com Vanessa Redgrave e Keith Carradine.

O vinho da juventude – John Fante (Contos)

Raros autores foram tão obcecados por seu alter ego como o americano John Fante (1919-1983). O (anti)herói autobiográfico Arturo Bandini aparece em O caminho de Los Angeles, Espere a primavera, Bandini e Pergunte ao pó. Em O vinho da juventude, Fante introduz um novo alter ego, Jimmy Toscana. Nestes 13 contos, ele transpõe as pequenas epifanias do Dublinenses de James Joyce para a comunidade italiana do Norte de Denver, revendo o mundo da sua infância pelos olhos de um menino.

Os anos loucos: Paris na década de 1920 – William Wiser (História)

Crônica de uma década de efervescência cultural em Paris, a cidade para onde “todo mundo foi”, onde tudo acontecia. Paris nos anos 1920 era barata, excitante e repleta de artistas e intelectuais, ricos e novos-ricos que movimentaram os cafés da Rive Gauche e todo o grande período da arte do século XX. Lá estavam Josephine Baker, Sylvia Beach, Samuel Beckett, Coco Chanel, Colette, E. E. Cummings, Scott Fitzgerald, Ernest Hemingway, James Joyce, Modigliani, Picasso, Cole Porter, Gertrude Stein, entre outros.

Corrida selvagem – J. G. Ballard (Ficção)

Um perfeito condomínio de classe alta em Londres: neste cenário, J. G. Ballard (1930-2009) descreve a investigação de um assassinato em massa. Corrida selvagem revela o fascínio e a repulsa do autor pelas conquistas tecnológicas, numa parábola sobre o controle e a superproteção dos pais, que levam a consequências inesperadas. O livro é absolutamente original e atual, sobre uma sociedade que sente necessidade de estar permanentemente vigiada e de ser – ou parecer – feliz.

* Sinopses da editora.

De tudo que um mago é capaz

Postado em Autores, Literatura brasileira, Literatura de entretenimento em 22/01/2010 por Daniel

Paulo Coelho divulgou no Twitter quais são seus escritores preferidos. Dentre eles estão Oscar Wilde, Kafka, Borges, Jorge Amado, Henry Miller e Balzac.

Este Livro, após o exaustivo exame dos últimos tweets do autor – por hora não conseguiremos alcançar a obra completa – chegou à conclusão de que só a modéstia, virtude amiga dos genuínos vencedores, impediu Coelho de dizer que mais do que preferência, a leitura desses autores o influenciou decisivamente, marcando seu estilo e universo narrativo.

Dúvidas? Vejamos.

1. Não sou um corpo com uma alma. Sou uma alma com uma parte visível chamada corpo. (20.01)

Ambíguo como só Oscar Wilde o saberia.

2. Não defina seu objetivo de vida baseando-se naquilo que deseja agora.  (19.01)

Coisa que o Henry Miller nem sempre praticou. Ainda que morto, vale alertar seus eventuais seguidores.

3. Perdoe, mas não esqueça. Ou sofrerá de novo. (18.01)

Produto de uma leitura menos rasa do Kafka.

4. Dia do Sorriso em 2 semanas. Quem bom que não preciso ir em uma loja comprar um p/dar de presente. (18.01)

Difícil. Esse remete, talvez, a autores obscuros que, bem dito, desconhecemos; demérito nosso.

5. Quando fecharem as portas que não levam a lugar nenhum, joguem a chave longe! Pq a tendência é querer voltar. (12.01)

Aha! Voltar e se perder no labirinto infinito. Com a chave. Sem a chave. Borges puro.

6. A vida não é o porto. A vida é o barco. (11.01)

Bêbado, aliás. Mais uma vez a modéstia impediu a citação: Rimbaud.

7. Escrevi em inglês que os HOMENS estão desaparecendo da terra. Restam reprodutores, nada mais. (08.01)

O sertão está dentro da gente. Ou não. Jorge Amado ou Capitão Rodrigo?

8. Meditando no estacionamento: mesmo que esteja cheio, mantenha a mente vazia. (10.01)

Coisa que um leitor não deve fazer. Sobretudo em uma livraria.

Sobre a narrativa

Postado em Primeiros passos em 21/01/2010 por Daniel

Narrativas são as obras que contém os seguintes elementos-chave: escrita em prosa (com exceção da epopéia e de formas como a literatura de cordel), narrador, personagens, enredo, cenário em que se desenrola a história, tempo em que se desenvolve a história, linguagem ou maneira de narrar. A narrativa pode ser caracterizada como o ordenamento de vários acontecimentos fictícios ou reais em um todo mais ou menos coerente em que se movem os personagens.

Gênero com maior receptividade atualmente, o narrativo muitas vezes é confundido com ficção, mas nem sempre isso é verdade. Crônica, por exemplo, não é uma narrativa ficcional, ao passo que romance e conto sim. Utilizam-se do gênero narrativo também formas como a biografia, as memórias e o relato de viagem, embora essas não se enquadrem no estrito domínio literário.

Não é possível alcançar definições incontroversas a respeito dos gêneros e de suas ramificações. A narrativa ficcional contemporânea impõe grandes desafios ao leitor, fala muito nas entrelinhas e tanto no romance quanto no conto e na novela se pode encontrar uma rica variedade estilística e temática.

Etimologicamente, ficção significa “ato ou efeito de fingir; simulação, coisa imaginária; modelar, criar, inventar”. A literatura de ficção, simplificando, contempla as histórias produzidas pela imaginação dos autores. Fazer ficção, logo, é realizar uma leitura da realidade e da experiência humana através dos infinitos recursos da imaginação.

 

O escritor nada compreende

Postado em Autores, Literatura russa, Trechos em 11/01/2010 por Daniel

“Eu acho que não são os escritores que devem resolver questões como Deus, o pessimismo etc. O que cabe ao escritor é apenas representar quem, quando e em que circunstâncias falou ou pensou sobre Deus ou sobre o pessimismo. O artista não deve ser juiz de suas personagens e daquilo que dizem, mas tão-somente testemunha imparcial. Ouvi dois russos falarem sobre o pessimismo, numa conversa sem nexo e que não chegava a nada. Devo transmitir essa conversa exatamente como a ouvi; a julgá-la serão os jurados, ou seja, os leitores. Meu papel é apenas o de ter talento, ou seja, de saber diferenciar os testemunhos importantes dos inúteis, de saber iluminar as personagens e falar a língua delas. Chtcheglov-Leóntiev recrimina-me por eu ter concluído o conto com a frase: ‘Não se compreende nada neste mundo!’. Na opinião dele, o artista-psicólogo deve compreender, pois ele é psicólogo. Mas com isso eu não concordo. Já está na hora de as pessoas que escrevem, e principalmente os artistas, compenetrarem-se de que neste mundo não se compreende nada, como outrora reconheceu Sócrates e como Voltaire reconhecia. A turba acha que compreende tudo e que sabe tudo; e quanto mais estúpida ela é, mais amplo lhe parece o seu horizonte. Se um artista, em quem a multidão acredita, tomar a decisão de declarar que ele não compreende nada do que vê, só isso já constituirá um grande saber no domínio do pensamento e um grande passo à frente”.               

Anton Tchékhov (1860-1904)

Sem trama e sem final (São Paulo: Martins, 2007).

Livros: de poucos para bilhões

Postado em Livreiro, Primeiros passos em 07/01/2010 por Daniel

Livros demais?

Na Antigüidade e em parte da Idade Média os livros existiam na forma de manuscritos e se dispunham em rolos de papiro ou pergaminho, costurados ou avulsos. Como manuscritos, os livros precisavam ser copiados um a um por copistas especializados. Isso, associado à estrutura social da época, com poucas pessoas que sabiam ler, fazia do livro algo raro, um artigo destinado às elites econômicas e religiosas.

Os chineses foram pioneiros na arte da impressão de livros e, embora de modo bastante rudimentar, inventaram os tipos móveis, depois aperfeiçoados pelo alemão Johannes Gutemberg (1397-1468). Este imprimiu uma Bíblia de 1.282 páginas com tiragem de 100 exemplares, em 1450. Pela criação, Gutemberg é considerado o pai da imprensa.

Os tipos móveis possibilitaram um extraordinário aumento na capacidade de impressão de livros e o que antes era visto somente em poucas bibliotecas destinadas aos privilegiados passou a ser acessado de modo contínuo até hoje.

Das cópias manuais à prensa de tipos móveis; da pena à máquina de escrever, do computador ao leitor digital: as inovações tecnológicas revolucionaram a capacidade de produção e difusão dos livros e facilitaram a vida de editores, escritores e leitores.

El Rufián Melancólico

Postado em Livreiro, Lugares em 02/01/2010 por Daniel

Uma livraria como nenhuma outra. Ou um sebo com livros e revistas difíceis de achar. O caos aparente. O excesso. A poeira como parceira fiel. De repente, uma montanha de jornais e manuscritos largados em uma saleta do mezanino. Circulação truncada pelas muitas coisas do lugar. Esculturas surpreendentes e divertidas criam uma atmosfera bizarra, cômica e, às vezes, assustadora. 

Assim é El Rufián Melancólico, uma singular livraria localizada no bairro de San Telmo (Rua Bolívar, 857), em Buenos Aires, que homenageia com seu nome o também singular escritor argentino Robert Arlt.

O corvo em quadrinhos

Postado em Poesia, Quadrinhos, Trechos em 02/01/2010 por Daniel

Nos 200 anos de nascimento de Edgar Allan Poe (1809-1849), a editora Peirópolis lança o clássico poema “O corvo” na tradução de Machado de Assis, agora adaptado para os quadrinhos pelo desenhista mineiro Luciano Irrthum. Vale conferir.

Em certo dia, à hora, à hora
Da meia-noite que apavora,
Eu, caindo de sono e exausto de fadiga,
Ao pé de muita lauda antiga,
De uma velha doutrina, agora morta,
Ia pensando, quando ouvi à porta
Do meu quarto um soar devagarinho,
E disse estas palavras tais:
“É alguém que me bate à porta de mansinho;
Há de ser isso e nada mais.”

Ah! bem me lembro! bem me lembro!
Era no glacial dezembro;
Cada brasa do lar sobre o chão refletia
A sua última agonia.
Eu, ansioso pelo sol, buscava
Sacar daqueles livros que estudava
Repouso (em vão!) à dor esmagadora
Destas saudades imortais
Pela que ora nos céus anjos chamam Lenora.
E que ninguém chamará mais.

E o rumor triste, vago, brando
Das cortinas ia acordando
Dentro em meu coração um rumor não sabido,
Nunca por ele padecido.
Enfim, por aplacá-lo aqui no peito,
Levantei-me de pronto, e: “Com efeito,
(Disse) é visita amiga e retardada
Que bate a estas horas tais.
É visita que pede à minha porta entrada:
Há de ser isso e nada mais.”

Minh’alma então sentiu-se forte;
Não mais vacilo e desta sorte
Falo: “Imploro de vós, — ou senhor ou senhora,
Me desculpeis tanta demora.
Mas como eu, precisando de descanso,
Já cochilava, e tão de manso e manso
Batestes, não fui logo, prestemente,
Certificar-me que aí estais.”
Disse; a porta escancaro, acho a noite somente,
Somente a noite, e nada mais.

Com longo olhar escruto a sombra,
Que me amedronta, que me assombra,
E sonho o que nenhum mortal há já sonhado,
Mas o silêncio amplo e calado,
Calado fica; a quietação quieta;
Só tu, palavra única e dileta,
Lenora, tu, como um suspiro escasso,
Da minha triste boca sais;
E o eco, que te ouviu, murmurou-te no espaço;
Foi isso apenas, nada mais.

Entro coa alma incendiada.
Logo depois outra pancada
Soa um pouco mais forte; eu, voltando-me a ela:
“Seguramente, há na janela
Alguma cousa que sussurra. Abramos,
Eia, fora o temor, eia, vejamos
A explicação do caso misterioso
Dessas duas pancadas tais.
Devolvamos a paz ao coração medroso,
Obra do vento e nada mais.”

Abro a janela, e de repente,
Vejo tumultuosamente
Um nobre corvo entrar, digno de antigos dias.
Não despendeu em cortesias
Um minuto, um instante. Tinha o aspecto
De um lord ou de uma lady. E pronto e reto,
Movendo no ar as suas negras alas,
Acima voa dos portais,
Trepa, no alto da porta, em um busto de Palas;
Trepado fica, e nada mais.

Diante da ave feia e escura,
Naquela rígida postura,
Com o gesto severo, — o triste pensamento
Sorriu-me ali por um momento,
E eu disse: “O tu que das noturnas plagas
Vens, embora a cabeça nua tragas,
Sem topete, não és ave medrosa,
Dize os teus nomes senhoriais;
Como te chamas tu na grande noite umbrosa?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

Vendo que o pássaro entendia
A pergunta que lhe eu fazia,
Fico atônito, embora a resposta que dera
Dificilmente lha entendera.
Na verdade, jamais homem há visto
Cousa na terra semelhante a isto:
Uma ave negra, friamente posta
Num busto, acima dos portais,
Ouvir uma pergunta e dizer em resposta
Que este é seu nome: “Nunca mais”.

No entanto, o corvo solitário
Não teve outro vocabulário,
Como se essa palavra escassa que ali disse
Toda a sua alma resumisse.
Nenhuma outra proferiu, nenhuma,
Não chegou a mexer uma só pluma,
Até que eu murmurei: “Perdi outrora
Tantos amigos tão leais!
Perderei também este em regressando a aurora.”
E o corvo disse: “Nunca mais!”

Estremeço. A resposta ouvida
É tão exata! é tão cabida!
“Certamente, digo eu, essa é toda a ciência
Que ele trouxe da convivência
De algum mestre infeliz e acabrunhado
Que o implacável destino há castigado
Tão tenaz, tão sem pausa, nem fadiga,
Que dos seus cantos usuais
Só lhe ficou, na amarga e última cantiga,
Esse estribilho: “Nunca mais”.

Segunda vez, nesse momento,
Sorriu-me o triste pensamento;
Vou sentar-me defronte ao corvo magro e rudo;
E mergulhando no veludo
Da poltrona que eu mesmo ali trouxera
Achar procuro a lúgubre quimera,
A alma, o sentido, o pávido segredo
Daquelas sílabas fatais,
Entender o que quis dizer a ave do medo
Grasnando a frase: “Nunca mais”.

Assim posto, devaneando,
Meditando, conjeturando,
Não lhe falava mais; mas, se lhe não falava,
Sentia o olhar que me abrasava.
Conjeturando fui, tranqüilo a gosto,
Com a cabeça no macio encosto
Onde os raios da lâmpada caíam,
Onde as tranças angelicais
De outra cabeça outrora ali se desparziam,
E agora não se esparzem mais.

Supus então que o ar, mais denso,
Todo se enchia de um incenso,
Obra de serafins que, pelo chão roçando
Do quarto, estavam meneando
Um ligeiro turíbulo invisível;
E eu exclamei então: “Um Deus sensível
Manda repouso à dor que te devora
Destas saudades imortais.
Eia, esquece, eia, olvida essa extinta Lenora.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta: Ou venhas tu do inferno
Onde reside o mal eterno,
Ou simplesmente náufrago escapado
Venhas do temporal que te há lançado
Nesta casa onde o Horror, o Horror profundo
Tem os seus lares triunfais,
Dize-me: existe acaso um bálsamo no mundo?”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

“Profeta, ou o que quer que sejas!
Ave ou demônio que negrejas!
Profeta sempre, escuta, atende, escuta, atende!
Por esse céu que além se estende,
Pelo Deus que ambos adoramos, fala,
Dize a esta alma se é dado inda escutá-la
No éden celeste a virgem que ela chora
Nestes retiros sepulcrais,
Essa que ora nos céus anjos chamam Lenora!”
E o corvo disse: “Nunca mais.”

“Ave ou demônio que negrejas!
Profeta, ou o que quer que sejas!
Cessa, ai, cessa! clamei, levantando-me, cessa!
Regressa ao temporal, regressa
À tua noite, deixa-me comigo.
Vai-te, não fique no meu casto abrigo
Pluma que lembre essa mentira tua.
Tira-me ao peito essas fatais
Garras que abrindo vão a minha dor já crua.”
E o corvo disse: “Nunca mais”.

E o corvo aí fica; ei-lo trepado
No branco mármore lavrado
Da antiga Palas; ei-lo imutável, ferrenho.
Parece, ao ver-lhe o duro cenho,
Um demônio sonhando. A luz caída
Do lampião sobre a ave aborrecida
No chão espraia a triste sombra; e, fora
Daquelas linhas funerais
Que flutuam no chão, a minha alma que chora
Não sai mais, nunca, nunca mais!

Cia. das Letras divulga lançamentos de janeiro

Postado em Lançamentos em 01/01/2010 por Daniel

Siri Hustvedt

A editora Companhia das Letras divulgou seus lançamentos para o primeiro mês de 2010. Veja a seguir.

Desilusões de um americano – Siri Hustvedt   (Romance)

Romance narrado por um solitário psicanalista que se envolve com sua locatária, ao mesmo tempo que vasculha o passado do pai imigrante norueguês.

O enigmista – Ian Rankin   (Romance policial)

John Rebus, um inquieto e cínico detetive, está às voltas com o desaparecimento da bela e rica Philippa. No curso das investigações, ele vai ter de lidar com miniaturas sinistras, um misterioso jogo de enigmas pela internet e um possível serial killer.

Um chapéu para viagem – Zélia Gattai   (Memórias)

No aniversário de setenta anos de Jorge Amado, Zélia Gattai presenteou o marido com este livro sobre seus primeiros anos de casamento.

Evolução em quatro dimensões – DNA, comportamento e a história da vida – Eva Jablonka e Marion J. Lamb   (Ciência)

A israelense Eva Jablonka e a britânica Marion J. Lamb resgatam as ideias de Lamark e propõem uma reestruturação do darwinismo argumentando que há mais do que genes na hereditariedade.

Surfando no Nilo – Jon Scieszka e Lane Smith (ilustrações)   (Ficção juvenil)

“Ele é como o Michael Jordan o Elvis e o presidente numa pessoa só”, disse Fred. “Ele é mais do que isso”, disse Sam. “Se a pessoa é faraó, é como um deus na terra.”

O mais sensacional atlas do mundo todo – Simon Adams e Ralph Lazar e Lisa Swerling (ilustrações)   (Infantil)

Das praias ensolaradas das ilhas do Caribe às paisagens geladas do continente antártico, os Ideias-Brilhantes serão os guias de uma viagem fascinante ao redor do mundo.

Nyama – Tesouros sagrados dos povos africanos – Christiane Lavaquerie-Klein e Laurence Paix-Rusterholtz   (Infantil)

Da mesma coleção de Huaca – Tesouros sagrados dos povos da América Latina, este Nayma apresenta povos e culturas da África por meio de seus artefatos.

Palavrinha ou palavrão? – Karin Sá Rego e Daniel Kondo (ilustrações)   (Infantil)

Um divertido livro em que as crianças vão aprender que onomatopéia, esse palavrão um tanto engraçado da língua portuguesa, são aquelas palavrinhas que usamos para representar os sons.

Se eu fosse você – Richard Hamilton e Babette Cole (ilustrações)  (Infantil)

Um pai e uma filha com os papéis trocados, o papai de vestido rosa de bailarina, sendo levado pela filha para passear?!

Companhia de Bolso: “Respiração artificial” – Ricardo Piglia e “O homem e o mundo natural” – Keith Thomas.

*Sinopses da editora.

Lançamentos da Objetiva e da Alfaguara para janeiro

Postado em Lançamentos em 30/12/2009 por Daniel

Deus é meu camarada – Cyril Massarotto (Suma das Letras)

O personagem tem 30 anos e trabalha numa sex shop. Um cara normal, não fosse seu melhor amigo Deus.

A estrada – Cormac McCarthy (Alfaguara)

O livro que marcou a literatura americana contemporânea vem para as telas do cinema.

A casa verde – Mario Vargas Llosa (Alfaguara)

Um prostíbulo é montado perto de uma das cidades mais isoladas do Peru.  

O fim do meu vício – Olivier Ameisen (Fontanar)

A história do médico que superou o alcoolismo.

O mestre e margarida – Mikhail Bulgákov (Alfaguara)

Bulgákov narra a chegada do diabo em plena Moscou comunista dos anos 1930.

Maquiavel, filósofo do poder – Ross King (Objetiva)

Nesta biografia conhecemos várias facetas de Maquiavel, um autêntico homem da Renascença.

Sally e a sombra da morte – Philip Pullman (Objetiva)

Philip Pullman dá continuidade à saga da heroína em uma história para leitores de todas as idades.

Até mais, vejo você amanhã – William Maxwell (Alfaguara)

A amizade de dois garotos nos anos 1920, subitamente interrompida por um crime passional.

O labirinto da felicidade – Alex Rovira e Francesc Miralles (Fontanar)

Uma fábula na tradição de clássicos como O Pequeno Príncipe eO Mágico de Oz”.

O grande livro de histórias de fantasmas – Vários autores (Suma das Letras)

Charlotte Brontë, May Sinclair, Edith Wharton, Ruth Rendell, A.S. Byatt, Angela Carter e outras 25 autoras reunidas numa série de contos aterrorizantes.

*Sinopses baseadas nas informações da editora.

Os 50 livros mais vendidos em 2009

Postado em Listas em 30/12/2009 por Daniel

O campeão dos campeões

Abaixo a lista dos 50 livros mais vendidos na Saraiva em 2009, um ano marcado pelos vampiros, pela força do leitor juvenil (ou adultescente), pelas voltas triunfantes de Dan Brown e Chico Buarque, pela migração de títulos antes qualificados ou indexados como auto ajuda para outros gêneros como ficção, pela consolidação da história como gênero para o grande público e pelo extraordinário desempenho das editoras associadas Sextante e Intrínseca.

1. A cabana - William Young (Sextante)

2. Eclipse - Stephenie Meyer (Intrínseca)

3. Amanhecer - Stephenie Meyer (Intrínseca)

4. Lua nova - Stephenie Meyer (Intrínseca)

5. Crepúsculo - Stephenie Meyer (Intrínseca)

6. O símbolo perdido - Dan Brown (Sextante)

7. Vade Mecum Saraiva 2009 (Saraiva)

8. O vendedor de sonhos - Augusto Cury (Academia de Inteligência)

9. Mentes perigosas - Ana Beatriz Silva (Objetiva)

10. O caçador de pipas - Khaled Hosseini (Nova Fronteira)

11. Comer, rezar, amar - Elizabeth Gilbert (Objetiva)

12. Leite derramado - Chico Buarque (Cia. das Letras)

13. A cidade do sol - Khaled Hosseini (Nova Fronteira)

14. O menino do pijama listrado - John Boyne (Cia. das Letras)

15. A menina que roubava livros - Markus Zusak (Intrínseca)

16. Vencendo o passado - Zibia Gasparetto (Vida e Consciência)

17. Mini Aurélio - Aurélio Buarque de Holanda Ferreira (Positivo)

18. Quem me roubou de mim? - Fábio de Melo (Canção Nova)

19. Anjos e demônios - Dan Brown (Sextante)

20. Direito constitucional esquematizado - Pedro Lenza (Saraiva)

21. O monge e o executivo – James Hunter (Sextante)

22. O vendedor de sonhos e a revolução dos anônimos – Augusto Cury (Academia de Inteligência)

23. Uma breve história do mundo – Geoffrey Blainey (Fundamento)

24. O despertar – Diários do vampiro – vol. 1 – L. J. Smith (Record)

25. O código da inteligência – Augusto Cury (Thomas Nelson)

26. Os homens que não amavam as mulheres - Stieg Larsson  (Cia. das Letras)

27. Marley e eu – John Grogan (Ediouro)

28. A arte da guerra – Sun Tzu (Jardim dos Livros)

29. Cartas entre amigos – Gabriel Chalita (Ediouro)

30. A hospedeira – Stephenie Meyer (Intrínseca)

31. O pequeno príncepe – Antoine Saint-Exupéry (Agir)

32. 1808 – Laurentino Gomes (Planeta)

33. Se abrindo pra vida – Zibia Gasparetto (Vida e Consciência)

34. Minidicionário Houaiss – Antonio Houaiss (Objetiva)

35. Minutos de sabedoria – Carlos Torres Pastorino (Vozes)

36. Nunca desista de seus sonhos – Augusto Cury (Sextante)

37. Querido diário otário 1 – Jim Benton (Fundamento)

38. Box da série Crepúsculo – Stephenie Meyer (Intrínseca)

39. O ladrão de raios – Rick Riordan (Intrínseca)

40. Proibido para maiores – as melhores piadas para crianças – Paulo Tadeu (Matrix)

41. Uma breve história do século XX – Geoffrey Blainey (Fundamento)

42. A sombra do vento – Carlos Ruiz Zafón (Objetiva)

43. Por que os homens amam as mulheres poderosas – Sherry Argov (Sextante)

44. Dicionário escolar Michaelis (Melhoramentos)

45. A menina que brincava com fogo – Stieg Larsson (Cia. das Letras)

46. Marcada – série House of night – P. C. Cast (Novo Século)

47. A cabeça de Steve Jobs – Leander Kahney (Agir)

48. Formaturas infernais – Meg Cabot e outros (Record)

49. Os segredos da mente milionária – T. Harv Eker (Sextante)

50. Casais inteligentes enriquecem juntos – Gustavo Cerbasi (Gente)

Fonte: Livrarias Saraiva e Siciliano, Saraiva.com e Siciliano.com

Um livreiro chamado Pavão

Postado em Lançamentos, Livreiro, Trechos em 29/12/2009 por Daniel

 

As editoras Cosac Naify e 7 Letras, como parte da coleção Às de Colete, acabam de lançar “Mapoteca”, de Felipe Nepomuceno. O livro reúne poemas, contos e pequenos textos diversos desse interessante autor.

A seguir, um trecho de “Meu livreiro se chama Pavão”.

“Meu livreiro se chama Pavão. Hoje passei em frente à sua livraria com o Corsa e vi um livro de capa amarela. O sinal abriu e o carro que estava atrás do Corsa começou a buzinar. Antes de andar, gritei: Pavão, segura esse de capa amarela para mim!

Ele, em vez de dizer “é claro”, começou a reclamar sem razão nenhuma. Infelizmente, tive que andar com o meu carro.

Pavão era um livreiro incomum. Para começar, eu era o seu único amigo. Perguntava quais eram os melhores lançamentos e pedia um palpite para os presentes que volta e meia tinha que comprar. As pessoas sempre dizem que eu sei muito bem dar presentes. Ninguém sabe que é Pavão quem os indica.

Um dia cheguei na livraria totalmente acossado. Eram seis da tarde. Era o dia do aniversário de 60 anos da minha mãe e eu, para variar, estava apostando todas as minhas fichas no meu livreiro.

Pavão, como sempre, estava bêbado. Era um profissional na arte de transformar livros em cachaça.

Começava bem cedo. Todos os dias vasculhava as lixeiras do bairro e todo fim de dia levava novos títulos para a sua livraria”.

Marighella revisitado

Postado em Biografia, Ciências humanas, Eventos, Lançamentos em 29/12/2009 por Daniel

Desde novembro e até 7 de fevereiro de 2010 o Memorial da Resistência de São Paulo abriga a exposição Marighella. Ela marca os 40 anos do assassinato do militante comunista Carlos Marighella (1911-1969) pela ditadura militar de 64 e reúne cartas, documentos, livros, objetos, muitas imagens e depoimentos.

Com curadoria de Isa Grinspum Ferraz e Vladimir Sacchetta a exposição resgata Marighella pra longe dos lugares-comuns aprofundando-se na sua trajetória como liderança social e intelectual comprometida com o Brasil e seu povo.

A entrada é gratuita de terça a domingo, das 10h às 17:30h, e é também uma boa oportunidade para conhecer ou fazer nova visita ao Memorial da Resistência, parte integrante da Estação Pinacoteca, e a sua exposição de longa duração que aborda a repressão que teve lugar no local durante as ditaduras brasileiras de 30 e 64.

Leia o recém lançado “Carlos, a face oculta de Marighella”, de Edson Teixeira da Silva Junior (Expressão Popular).

Os 10 mais da década segundo O Globo

Postado em Listas, Literatura brasileira em 28/12/2009 por Daniel

O caderno Prosa e Verso do jornal O Globo reuniu dez críticos literários (acadêmicos e escritores) para eleger os 10 melhores livros brasileiros de ficção e poesia publicados nos anos 2000. Como em toda lista, e ainda mais em uma dessa ordem e com tal limitação - o que pode despertar paixões e preferências incontornáveis - há controvérsias. Mas o resultado é interessante no geral, traz os óbvios da década e algumas novidades que se não estivessem entre os 10, estariam entre os 15 ou 20 mais. Vale como mais uma indicação e convite à leitura dos contemporâneos.

1. Dois irmãos – Milton Hatoum (Cia. das Letras)  *6 votos

2. Nove noites – Bernardo Carvalho (Cia. das Letras) *5 votos

3. Eles eram muitos cavalos – Luiz Ruffato (Record) *4 votos

4. O vôo da madrugada – Sérgio Sant’Anna (Cia. das Letras) *4 votos

5. Acenos e afagos – João Gilberto Noll (Record) *3 votos

6. Elefante – Francisco Alvim (Cia. das Letras) *3 votos

7. Máquina de escrever – Armando Freitas Filho (Nova Fronteira) *3 votos

8. O filho eterno – Cristóvão Tezza (Record) *3 votos

9. Um defeito de cor – Ana Maria Gonçalves (Record) *2 votos

10. Leite derramado – Chico Buarque (Cia. das Letras) *2 votos

*Note-se o domínio absoluto de duas editoras entre os livros escolhidos: Cia. das Letras e Record.

A invasão russa

Postado em Literatura russa, Trechos em 28/12/2009 por Daniel

“Lady Macbeth do distrito de Mtzensk”, editado pela 34 em 2009 na coleção Leste com tradução, notas e posfácio de Paulo Bezerra, foi publicado originalmente em 1865 e é considerada a obra-prima de Nikolai Leskov (1831-1895). O livro narra a história de Catierina Lvovna de um casamento entediante e opressor ao assassinato. Não é preciso dizer que recomendamos sua leitura. Veja abaixo o trecho inicial da obra.

“De quando em quando aparecem em nossas paragens uns tipos que nos fazem sentir um tremor na alma sempre que nos lembramos deles, por mais que o tempo tenha passado desde o nosso último encontro. E um desses tipos é Catierina Lvovna Izmáilova, mulher de um comerciante, outrora protagonista de um terrível drama, após o qual a nossa nobreza, usando uma expressão bem apropriada, passou a chamá-la “Lady Macbeth do distrito de Mtzensk”.

Catierina Lvovna não nascera bela, mas era de aparência muito simpática. Tinha apenas vinte e quatro anos: estatura mediana, mas elegante, pescoço como que modelado em mármore, ombros arredondados, colo vigoroso, nariz reto, afilado, olhos negros, vivos, fronte alva e alta e cabelos negros, de um negro beirando o azulado. Casaram-na com o nosso comerciante Izmáilov, de Tuskara, província de Kursk, não por amor ou qualquer atração, mas sem quê nem para quê, simplesmente porque Izmáilov pedira sua mão e, sendo ela pobre, não precisaria ficar escolhendo marido. A casa dos Izmáilov em nossa cidade não era das piores: negociavam com farinha candial, arrendavam no distrito um grande moinho, possuíam um pomar rendoso nos arredores e uma boa casa na cidade. No geral, eram comerciantes abastados. Além do mais, a família era bem pequena: o sogro Borís Timofiêitch Izmáilov, que já passara dos oitenta, viúvo havia muito tempo; o filho Zinóvi Boríssitch, marido de Catierina Lvovna, que também já passara dos cinquenta, a própria Catierina Lvovna, e só. Catierina Lvovna entrara no quinto ano do seu casamento sem ter filhos. Zinóvi Boríssitch também não tinha filhos da primeira mulher, com quem vivera uns vinte anos antes de enviuvar e casar-se com Catierina Lvovna. Imaginava e esperava que pelo menos do segundo casamento Deus lhe desse um herdeiro para o nome e o capital dos comerciantes; mas a felicidade tampouco lhe veio com Catierina Lvovna.

Essa ausência de filhos deixava Zinóvi Boríssitch muito amargurado e provocava grande tristeza não só nele, como novo velho Borís Timofiêitch e na própria Catierina Lvovna. E visto que no claustro daquela casa de comerciantes, com cerca alta e cães de guarda soltos, o tédio imenso mais de uma vez causara na jovem esposa uma melancolia que chegava ao torpor, ela iria alegrar-se, Deus, como iria alegrar-se ao cuidar um pouco de uma criancinha; de mais a mais, estava farta de recriminações – “Por que casou, para que casou, por que amarrou o destino de um homem, mulher estéril?” –, como se ela realmente fosse alguma criminosa perante o marido, perante o sogro e todo o seu honesto clã de comerciantes”.

Russos, Mazzaropi, Recreio e Noel… para o Natal

Postado em Lançamentos em 24/12/2009 por Daniel

5 lançamentos que Este Livro sugere como leitura para o longo fim de semana que se inicia.

Teatro completo – Nikolai Gogol (34) Inclui as peças “O inspetor geral”, “Os jogadores”, “O casamento”, “À saída do teatro” e “Desenlace de O inspetor geral”. Com tradução, notas e estudo introdutório da professora da USP Arlete Cavaliere.

Gente pobre – Fiódor Dostoiévski (34) Primeiro romance do autor: saiu em 1846 quando Dostoiévski tinha 24 anos. Tradução de Fátima Bianchi.

Noel Rosa – poeta da Vila, cronista do Brasil – Luiz Ricardo Leitão (Expressão Popular) Não só uma biografia, mas uma análise da obra do autor entendida como pertencente a certa tradição de interpretação do Brasil, o que o liga a nomes como Gregório de Matos e Lima Barreto.

Mazzaropi – uma antologia de risos – Pedro Duarte (Imprensa Oficial) Para lembrar e rever o velho Mazzaropi em fotos, textos e histórias.

Ruptura e subversão na literatura para crianças – Maria Lucia Machens (Global) Livro interessante que parte da tese de mestrado da autora para abordar o nascimento e a trajetória da revista Recreio durante a ditadura militar.

Lula em cordel

Postado em Biografia, Cinema, Lançamentos em 23/12/2009 por Daniel

Seguindo o processo de quase canonização da figura de Lula, e na esteira do lançamento do filme Lula, o filho do Brasil em 1º de janeiro de 2010, mais um livro sobre o presidente brasileiro surge na praça. Dessa vez, a forma é menos usual, mas interessante: cordel.

Na obra “Lula na literatura de cordel” (Imeph) o autor potiguar Crispiniano Neto reúne poemas seus e de diversos outros cordelistas para celebrar seu personagem. Escritos em diferentes momentos da nossa história recente, os cordéis vão da trajetória política e pessoal de Lula à história do PT e da luta sindical, passando inclusive por projetos do governo federal como o Bolsa Família e o pré-sal.

“Finalmente aproveito pra lançar

Nosso Lula nos versos de Cordel,

Ele que hoje inspira o menestrel

A cantar junto à luta popular.

Que levou o poeta a se inspirar

Com as batalhas nascidas do povão

Quando as massas enfrentam o tubarão,

Quando o povo oprimido vai à luta,

Derrubando o poder da força bruta

E mudando a história da nação”

Outros livros sobre Lula que aproveitam o mote de lançamento do filme.

1. A história de Lula – o filho do Brasil – Denise Paraná (Objetiva)

2. Lula, o filho do Brasil – Denise Paraná (Perseu Abramo)

3. O menino Lula – Audálio Dantas (Ediouro)

4. Lula do Brasil – A história real, do nordeste ao Planalto – Richard Bourne (Geração)

As lições do mestre

Postado em Biblioteca Saraiva em 21/12/2009 por Daniel

Quatro livros fundamentais de Julio Cortázar fecham em grande estilo o primeiro ano da Biblioteca Saraiva.

Um dos escritores mais inventivos da literatura latino-americana e referência para várias gerações de leitores, Cortázar volta à tona com seu estilo irônico e intrincado, exemplarmente materializado em contos e romance.

Gigante a preço baixo.

1. As armas secretas – De: 27,00   Por: 13,90

2. História de cronópios e de famas – De: 31,00   Por: 14,90

3. O jogo da amarelinha – De: 64,00   Por: 29,90

4. Todos os fogos o fogo – De: 28,00   Por: 13,90

Nelson Rodrigues e Shakespeare

Postado em Autores, Ligações, Teatro, Trechos em 18/12/2009 por Daniel

(Herculano chega em casa. Tem um certo cansaço feliz.)

HERCULANO (gritando) – Geni! Geni!

(Aparece a criada negra.)

NAZARÉ – Veio mais cedo, dr. Herculano?

HERCULANO – Nazaré, cadê d. Geni?

NAZARÉ – Saiu.

HERCULANO – Mas eu avisei! Telefonei do aeroporto dizendo que já podia tirar o jantar.

NAZARÉ – Pois é.

HERCULANO – Foi aonde?

NAZARÉ – Não disse.

HERCULANO (entre espantado e divertido) – Que piada!

NAZARÉ – Ah, mandou entregar isso ao senhor.

(Ao mesmo tempo, Nazaré apanha em cima do móvel um embrulho.)

HERCULANO (falando à criada) – Estou com uma fome danada! É um caso sério! Mas o que é?

NAZARÉ – Isso aqui.

HERCULANO (recebendo o embrulho) – E, nem ao menos, deixou recado?

NAZARÉ – Comigo não deixou.

(Herculano, intrigadíssimo, abre o embrulho.)

HERCULANO – Fita de gravação! (não entende) Boazinha!

NAZARÉ – D. Geni disse para o senhor não deixar de ouvir o disco.

(Sai Nazaré. Então, sozinho, Herculano assovia e prepara-se para ouvir a gravação. Apaga-se o palco. Nas trevas, ouve-se a voz de Geni.)

GENI – Herculano, quem te fala é uma morta. Eu morri. Me matei. (ao mesmo tempo que Geni fala, ilumina-se parte do palco. Aparecem Patrício e as tias. Enquanto durar a fala de Geni, Patrício e as tias permanecerão imóveis e mudos)

GENI – Herculano, ouve até o fim. Você pensa que sabe muito. O que você sabe é tão pouco! (com triunfante crueldade) (violenta) Há uma coisa que você não sabe, nem desconfia, uma coisa que você vai saber agora, contada por mim e que é tudo. Falo pra ti e pra mim mesma. (dilacerada) (ressentida e séria) Escuta, meu marido. Uma noite em tua casa.

___________________________________________________________

Obsessivo, Nelson Rodrigues (1912-1980) soube transformar suas tragédias pessoais em arte. Uma das características essenciais de sua obra é a morbidez, a atração pela morte – retratada no excerto acima de “Toda nudez será castigada”.

Tal atração, muitas vezes concretizada através de verdadeiros banhos de sangue, Rodrigues compartilhou com o maior nome do teatro em todos os tempos, William Shakespeare (1564-1616).

Tanto um quanto o outro, separados por três séculos e antes do reconhecimento, foram acusados de estimular a vulgaridade e o mau gosto. 

Só para princesas

Postado em Exclusivo, Lançamentos, Literatura de entretenimento em 18/12/2009 por Daniel

Logo após a caixa sobre a Segunda Guerra Mundial e a de best sellers recentes que abordam o universo feminino e viraram filmes, a Saraiva traz, em parceria com a editora Record e para a reta final do Natal, uma belíssima lata com os 4 primeiros títulos da série Princesa, da norte-americana Meg Cabot.

Oportunidade única para fãs e presente certo.

Corra: são só 1.000 latas.

Começo a conhecer-me

Postado em Poesia, Primeiros passos em 18/12/2009 por Daniel

"Dar a cada emoção uma personalidade, a cada estado de alma uma alma"

“Começo a conhecer-me. Não existo.

Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram,

Ou metade desse intervalo, porque também há vida…

Sou isso, enfim…

Apague a luz, feche a porta e deixe de ter barulho de chinelas no corredor.

Fique eu no quarto só com o grande sossego de mim mesmo.

É um universo barato”

O poema acima é do heterônimo Álvaro de Campos. Mas o que é um heterônimo? O poeta português Fernando Pessoa (1888-1935) criou “personagens” que tem sua própria maneira de escrever, personalidades e histórias particulares, diferentes da sua. Os mais conhecidos e completos heterônimos de Pessoa são Alberto Caeiro, Ricardo Reis e Álvaro de Campos (Caeiro é o poeta bucólico e cético; Reis, o poeta estóico; Campos, o poeta modernista  e revoltado). Com sua assinatura, Fernando Pessoa publicou em vida apenas um livro de poemas em português, “Mensagem”, obra que aborda a aventura marítima e imperial lusitana.

Crítica literária

Postado em Primeiros passos em 18/12/2009 por Daniel

Antonio Candido

A crítica literária é a arte de julgar a obra em diversos aspectos: forma, estilo, temática, contexto em que foi produzida etc. Pode ser exercida na universidade ou através da imprensa. Críticos literários são leitores que lançam um olhar complexo sobre a obra, interpretam-na segundo determinados parâmetros. A crítica literária informada é muito importante na consolidação e na divulgação da literatura. Exemplos de críticos com sólido embasamento são os brasileiros Antônio Cândido (1918-), Alfredo Bosi (1932-) e Roberto Schwarz (1938-), o alemão Walter Benjamin (1892-1940), o húngaro George Lukács (1885-1971) e o russo Mikhail Bakhtin (1895-1975).

Guerra e diversão em duas caixas exclusivas

Postado em Ciências humanas, Exclusivo, Lançamentos, Literatura de entretenimento em 09/12/2009 por Daniel

Dentre as novidades que programamos para o Natal da Saraiva, destacam-se duas caixas exclusivas da Record e da Best Seller. Ambas chegam no início da próxima semana às lojas e ao site.

A primeira, como já adiantamos, é a de livros sobre a Segunda Guerra Mundial, que traz títulos de Antony Beevor – “Stalingrado” e “Berlim 1945: a queda” – e Stephen Ambrose – “Dia D: 6 de junho de 1944″.

A segunda tem outro clima, mais leve, e reúne quatro títulos da chamada chick lit – é a caixa Literatura no Cinema – Mulheres. As obras que a compõem são “O diário de Bridget Jones”, “O diabo veste Prada”, “Sex and the city” e “Os delírios de consumo de Becky Bloom”.

São oportunidades únicas, ótimas sugestões de presente que aliam qualidade a preços muito bons. Confira.

Desonra, o filme

Postado em Cinema, Literatura africana, Literatura inglesa em 08/12/2009 por Daniel

É lugar comum comparar filmes com os livros que lhes deram origem.

Lugar comum é criticar filmes baseados em livros, sobretudo em livros marcantes.

E é lugar comum dizer que um e outro são linguagens diferentes, portanto pouco comparáveis.

Sim, tudo com certa razão. Assim é o lugar comum.

Mas quem vê o filme Desonra (2009, Dir. Steve Jacobs e com John Malkovich no papel principal) se perde de uma obra extraordinária, não há resquícios dela ali. Um filme que, embora não exatamente ruim, está muito aquém da grande realização de J. M. Coetzee.

Fica a sugestão: leia o livro; só depois veja o filme.

As armas da crítica

Postado em Ciências humanas, Lançamentos em 07/12/2009 por Daniel

Este Livro antecipa 5 dos principais lançamentos da editora Boitempo para 2010.

Em defesa das causas perdidas – Slavoj Zizek
No mundo dominado pelo pós-modernismo a emancipação global e os valores universais estariam fadados a desaparecer? Neste manifesto “em defesa das causas perdidas”, Zizek (foto) combate ferozmente o ideário pós-moderno, recolocando a luta de classes no cerne da realidade global.
 
Os cangaceiros – Luiz Bernardo Pericás
Nesta análise de fôlego sobre o cangaço, Luiz Bernardo Pericás reconstitui com o rigor do historiador um dos episódios mais controversos da história brasileira. Revisando extensa bibliografia e levantando fontes primárias inéditas, o autor analisa mais de cinquenta anos deste movimento social que teve uma influência determinante sobre vários estados do nordeste.
 
A potência plebeia: ação coletiva e identidades indígenas, operárias e populares na Bolívia – Álvaro García Linera
Esta coletânea de ensaios do acadêmico e vice-presidente da Bolívia, Álvaro García Linera, é o retrato da produção intelectual que se coloca como intérprete e protagonista do profundo processo de transformações pelo qual passa o país. Reúne textos tanto do período pré-eleição de Evo Morales, quando era preciso reescrever a história boliviana, como do período pós-eleição, que tratam de teorizar as transformações do Estado para poder radicalizá-las.
 
A linguagem do império: léxico da ideologia estadunidense – Domenico Losurdo
Terrorismo, fundamentalismo, antiamericanismo, rechaço ao Ocidente, são algumas das reações ao império estadunidense. Este livro insere-se em um clima mundial de comoção contra a barbárie, no qual nem todos que estão contra os Estados Unidos, estão automaticamente contra a paz e a civilidade.
 
As armas da crítica – Emir Sader e Ivana Jinkings (orgs.)
Esta obra reúne os principais textos clássicos do pensamento de esquerda, cujas teorias socialistas e anticapitalistas se voltaram para a crítica radical e transformação da sociedade moderna. Contém escritos de Karl Marx, Friedrich Engels, Leon Trotski, Rosa Luxemburgo e Antonio Gramsci.

Bate bola com Washington Olivetto

Postado em Entrevista, Exclusivo, Lançamentos, Livros sobre futebol em 05/12/2009 por Daniel

Washington Olivetto acaba de lançar mais um livro sobre o seu time do coração, o Corinthians. Depois da parceria com Nirlando Beirão em ”Corinthians - É preto no branco”, título integrante da coleção Camisa 13 (Ediouro), o publicitário vem agora em vôo solo com “Corinthians x Outros – Os melhores nossos contra os menos ruins deles” (Leya). Como não poderia deixar de ser, o livro é criativo e bem humorado; já o autor prefere definí-lo como provocador…

Este Livro: Pergunta clássica: o que está lendo?

Washington Olivetto: Leio cinco livros por vez. Li a biografia do Erasmo, genial. A biografia do Simonal, muito bem escrita e muito triste também. Li um livro em inglês sobre agências de propaganda virtuais que um amigo me deu. E as biografias da Nara Leão e do Plínio Marcos.

EL: Você tem ido a jogos?

WO: Só a alguns.

EL: Você tem um segundo time?

WO: Nenhum torcedor de verdade tem um segundo time!

EL: O novo livro é só para o corinthiano apaixonado?

WO: É para torcedores de todos os times, pois mistura ficção e jornalismo. O livro é muitas coisas, até um roteiro turístico do Rio de Janeiro cabe nele.

EL: Como você misturou ficção e jornalismo?

WO: Reuni alguns torcedores para fazer a escalação dos times dos sonhos. Então meu time dos sonhos enfrenta o Santos de Fausto Silva, o Palmeiras de José Serra, o São Paulo de Ricardo Kotscho, o Fluminense de Jô Soares, o Flamengo de Jorge Ben Jor, entre outras agremiações. São ao todo 14 partidas.

EL: Há injustiças?

WO: Claro! São sempre 14 jogadores e alguns são injustiçados.

Luciana, Daniel, Vera Esaú, Olivetto e Corina, da Leya

EL: Você conta um pouco da história dos outros clubes também?

WO: Tem as notas de roda os pés. Informação histórica pura.

EL: Não teve jogador repetido no time dos sonhos do pessoal, não?

WO: Teve. Rivelino aparece em dois.

EL: E quem ganha as partidas?

WO: O Corinthians! Mas tem muito humor para todos.

EL: O livro traz um brinde…

WO: Um pôster com a minha escalação do Corinthians de todos os tempos.

EL: E o lançamento oficial? Cadê a festinha?

WO: Provavelmente teremos no ano que vem uma festa no Museu do Futebol (São Paulo) e por agora eventos, autógrafos.

Fora da lei

Postado em Biografia, Ciências humanas, Lançamentos em 04/12/2009 por Daniel

Por Daniel Louzada

Os conhecidos Billy, the Kid, Lampião, Jesse James, Barbaroxa, Robin Hood, Butch Cassidy e Sundance Kid. Os desconhecidos La Kahina, Bartholomew Roberts, Calamity Jane e Pierre Loutrel. Ou ainda personagens tão díspares como Henry David Thoreau, Lawrence da Arábia, Buenaventura Durruti e Bobby Sands.

Bandidos clássicos, bandidos sociais, libertários ou simplesmente aventureiros. Assim é a turma que compõe “Fuera de la ley – Piratas, anarquistas, insumisos, ases del gatillo y otros rebeldes… ellos escogieron su libertad”, de Laurent Maréchaux (Blume).

Livro curioso que traz 41 perfis de marginais em seu tempo, do ano 704 até as últimas décadas do século XX. A unidade pretendida na seleção – oposição ao poder – é forçada, mas vale como registro e para conhecer algumas figuras – inclusive fisicamente, pois a obra é bem ilustrada – sobretudo os que entendemos por bandidos comuns.

Trecho: “Na atualidade, os insubmissos a toda forma de autoridade, seja religiosa, moral, econômica ou política, são escassos. Os conquistadores de sonhos impossíveis e os grandes rebeldes baixaram os braços ou se perderam na selva urbana ou no inferno dos bosques. O individualismo alcançou o idealismo”.

Promoção Dan Brown: saiu o resultado!

Postado em Promoção em 03/12/2009 por Daniel

Saiu o resultado da nossa bombástica promoção Dan Brown!

Este livro pede desculpas pelo atraso na divulgação dos ganhadores, que ocorreu devido à grande quantidade de textos recebidos. Obrigado a todos os participantes.

Veja abaixo os textos vencedores.

Link da promoção:  http://estelivro.wordpress.com/2009/11/02/leve-pra-casa-um-dan-brown-autografado/

*Em breve, contactaremos os premiados.

1º lugar: Geovana Lima Hinoue

Prêmio: livro “The lost symbol” autografado por Dan Brown

Robert Langdon estava em seu escritório na Universidade de Harvard quando de repente seu telefone toca. O professor não hesitou em atender pois estava atordoado com a pequena escultura que tinha em mãos trazida por um amigo brasileiro, professor da USP.
- Robert, sou eu, Lucas. Venha correndo para o Brasil! Quero que você seja o primeiro a saber! E desligou.
Langdon que já estava exausto de tantas confusões que ocorreram na universidade, ficou pensando no que seu amigo professor havia descoberto, o motivo de tanta pressa para vê-lo. Durante esse momento, Robert observou que naquela misteriosa escultura velha, trazida de uma civilização quase extinta da Amazônia, havia pequeninos, quase imperceptíveis números, 21122012, exatamente a data da tão famosa profecia dos Maias: 21 de dezembro de 2012. O professor ficou estarrecido e nesse mesmo momento ligou para Lucas para informar que já estava a caminho de São Paulo.
Chegando em SP, seu amigo já o esperava no aeroporto, eles foram direto ao escritório de Lucas na universidade em que ele era professor de arqueologia. Robert se adiantou e, tirando de sua mala a escultura, foi dizendo:
- Encontrei registro do calendário Maia nessa escultura. Onde foi mesmo que você a encontrou?
- Na parte oeste da floresta – respondeu – e é sobre isso mesmo que quero falar com você, Langdon.
Os dois sentaram nas poltronas e Lucas continuou falando:
- Na última semana fiz uma viagem até a região onde encontrei tal escultura e fiquei estremecido com a descoberta que tive. Durante minhas pesquisas naquela terra encontrei algumas outras esculturas que me revelaram, com quase certeza, que ali havia uma pequena civilização Maia e o melhor é que ainda existem algumas pessoas que fazem parte dessa civilização, porém estão escondidas na floresta e tudo indica que ali foi feito o primeiro calendário Maia.
Langdon dá uma risada sarcástica.
- Não pode ser! A civilização Maia, o calendário na Amazônia?
- Sim, Langdon, preciso que me ajude a desvendar todo esse mistério que está escondido, lá tem muitas ruínas, muitos códigos e só você pode ajudar.
- Que tipo de códigos você diz?
- 21122012 por toda a parte.

2º lugar: Victor Hugo Vieira Denis

Prêmio: livro “O símbolo perdido”

Robert Langdon visita o Brasil para dar palestras sobre os símbolos e no meio de uma dessas palestras um dos espectadores pergunta se ele tem conhecimento de uma rota em que José de Anchieta deixou um tesouro com todos os manuscritos do Vaticano, relatando os crimes que foram praticados durante a colonização da América. Robert diz que jamais ouvira falar, mas fica intrigado e pergunta mais ao espectador. O espectador esclarece que não passa de uma lenda brasileira.

Após sua palestra, Robert recebe uma ligação de Sophie, dizendo que um antigo amigo de seu avô, Jacques Saunière, estava a caminho do Brasil, pois havia extremistas que estavam no Brasil caçando os manuscritos.

Assim, Robert Langdon se empenha em mais uma aventura percorrendo os cantos do Brasil atrás dos manuscritos. Percorre o Cristo Redentor em busca de um artefato escondido dentro dele; embaixo do marco zero de São Paulo existem mais pistas! Conhece novas pessoas, enfrenta uma seita que também quer encontrar os documentos.

Enfim, uma aventura recheada de mistérios em que percorre todo o Brasil. No final, ele protege este segredo que, se porventura viesse à tona, abalaria os pilares da fé mundial.

3º lugar: Vanessa Oliveira

Prêmio: livro “O símbolo perdido”

Uma jovem estudante de simbologia e história da Universidade de São Paulo com seu pai adotivo, um reitor de muito respeito internacional, chama o simbologista de Harvard às pressas para o Brasil.

Se vendo em um momento em que poderia aproveitar e fazer novas pesquisas sobre tribos indígenas, ele aceita o convite sem ter idéia de que não sabia exatamente de nada ainda.

Chegando ao país, ele descobre que estava entrando em algo maior do que imaginava, estava frente a frente a uma procura pelos Filhos de Set ou a Nova Ordem Mundial. Langdon chega tarde demais, somente a tempo de ver o sepultamento do reitor. 

Junto com a estudante Cristine ele se vê em uma perseguição para salvar a sua vida e a dela, apenas ligado às pistas deixadas e às varias investigações do reitor.

A guerra e suas batalhas

Postado em Ciências humanas, Lançamentos em 30/11/2009 por Daniel

Por Daniel Louzada

Atualmente, sem dúvida é a guerra o tema mais popular entre os leitores de história. A guerra, as personalidades nela envolvidas, o próprio acontecimento de batalhas emblemáticas motivou nos últimos anos um aumento significativo de novos livros que abordam de maneira menos acadêmica e com mais ou menos rigor esse evento sempre dramático.

A avalanche de publicações e abordagens corresponde a um sensível aumento das vendas da área de história nas livrarias. Nessa linha, tanto em número de novas publicações quanto em vendas, a Segunda Guerra reina soberana.

Embora a Primeira Guerra tenha sido talvez tão selvagem quanto à Segunda – já que não é possível medir o impacto de um conflito pelo número de mortes – esta exerce fascínio adicional sobre o imaginário dos leitores por conta de fatores como o nível de racionalidade e alcance da matança produzida em razão da tecnologia, as características do extremismo fascista e a força simbólica de alguns líderes. Assim, não é de estranhar que não só nos livros, mas também em revistas e DVDs máquinas voadoras, campos de concentração e personagens como Hitler e Churchill, por exemplo, sejam sempre garantia de sucesso.

Uma das linhas da onda são os grandes livros ilustrados que compilam um tema. Nessa perspectiva, acaba de ser lançado pela Larousse “As grandes batalhas da história”. Seu mérito está justamente em não se ater as grandes guerras do século XX apenas, mas em oferecer um apanhado geral do assunto.

A obra contém muitas ilustrações e mapas e abarca batalhas desde 1274 a.C., a famosa batalha de Qadesh, de Ramsés II, até a invasão do Iraque pelos EUA, em 2003. É um bom panorama sobre a história das guerras e principais conflitos e pode despertar o interesse para outras leituras.

Na compilação há batalhas que conhecemos mais pelo mito ou por serem romanceadas como a própria Qadesh e Azincourt (a primeira por Christian Jacq, a segunda por Bernard Cornwell) do que por meio de referências históricas concretas, batalhas clássicas como Waterloo e Stalingrado e episódios menos conhecidos mas igualmente relevantes como os massacres promovidos pelo Japão na China em 1937.

O livro certamente tem o mérito de contemplar outros séculos que não o XX – são 95 episódios de outros séculos e 42 do XX – mas há ausências importantes. Não vemos ali, por exemplo, fora a batalha de Argel – cujo documento brilhante é o filme homônimo de Gillo Pontecorvo – nenhuma das guerras de independência africanas dos anos 60.

Vale a dica, inclusive como sugestão de presente para o Natal. E, a propósito, vale outra, especialmente para os clientes da Saraiva. No mês de dezembro teremos nas lojas e no site uma oportunidade muito boa para quem gosta de história. São três títulos referenciais (“Berlim 1945″, “Dia D” e “Stalingrado”)  sobre a Segunda Guerra em uma belíssima caixa exclusiva.  Confira.

Filmes de guerra

Postado em Cinema, Listas em 30/11/2009 por Daniel

Este Livro indica: 15 filmes de guerra.

  1. A Balada do Soldado – Grigori Chukhrai (1959) – Segunda Guerra Mundial
  2. A General – Buster Keaton (1927) – Guerra Civil Americana
  3. Além da Linha Vermelha – Terrence Malick (1998) – Segunda Guerra Mundial
  4. Apocalipse Now – Francis Ford Coppola (1979) – Guerra do Vietnã
  5. A Queda – Oliver Hirschbiegel (2004) – Segunda Guerra Mundial
  6. Casablanca – Michael Curtiz (1942) – Segunda Guerra Mundial
  7. Dr. Fantástico – Stanley Kubrick (1969) – Guerra Fria
  8. Glória Feita de Sangue – Stanley Kubrick (1957) – Primeira Guerra Mundial
  9. Johnny vai á Guerra – Dalton Trumbo (1971) – Primeira Guerra Mundial
  10. Nascido para Matar – Stanley Kubrick (1987) – Guerra do Vietnã
  11. O Grande Ditador – Charles Chaplin (1940) – Segunda Guerra Mundial
  12. O Pianista – Roman Polanski (2002) – Segunda Guerra Mundial
  13. Stalingrado – Joseph Vilsmaier (1993) – Segunda Guerra Mundial
  14. Terra de Ninguém – Danis Tanovic (2001) – Guerra da Bósnia
  15. Terra e Liberdade – Ken Loach (1995) – Guerra Civil Espanhola

Dia de perder-se na cidade com Benjamin

Postado em Autores, Ciências humanas, Lugares, Textos em 27/11/2009 por Daniel

Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução. Nesse caso, o nome das ruas deve soar para aquele que se perde como o estalar do graveto seco ao ser pisado, e as vielas do centro da cidade devem refletir as horas do dia tão nitidamente quanto um desfiladeiro. Essa arte aprendi tardiamente; ela tornou real o sonho cujos labirintos nos mata-borrões de meus cadernos foram os primeiros vestígios”.

“E antes que um contemporâneo chegue a abrir um livro caiu sobre seus olhos um tão denso turbilhão de letras cambiantes, coloridas, conflitantes, que as chances de sua penetração na arcaica quietude do livro se tornaram mínimas. Nuvens de gafanhotos de escritura, que hoje já obscurecem o céu do pretenso espírito para os habitantes das grandes cidades, se tornarão mais densas a cada ano seguinte. Outras exigências da vida dos negócios levam mais além”.

Walter Benjamin

Obras escolhidas II: Rua de mão única. Brasiliense, 1995.

Millôr infantil

Postado em Lançamentos, Literatura infanto-juvenil em 27/11/2009 por Daniel

Por Daniel Louzada

Um bonito projeto gráfico da Cosac Naify marca o relançamento do livro infantil “Maurício, o leão de menino”. Fruto da parceria entre Flavia Maria e Millôr Fernandes, o título foi publicado originalmente em 1969.

A nova edição ganhou mais ilustrações e um texto de Jaguar, além do formato maior. A história é a de um menino que tem um leão dentro do guarda-roupa, leão que parecia assustador mas que logo se revela um grande companheiro, incapaz de qualquer ato selvagem. Exceto engolir provisoriamente algumas pessoas… mas só para devolvê-las melhores.

Pérolas lusas

Postado em Lançamentos, Livros sobre futebol em 27/11/2009 por Daniel

Por Daniel Louzada

Não é nossa intenção reforçar a piada ou reunir argumentos para. Mas não é nada contrária ao mito a compilação que João Pombeiro faz do futebol lusitano em “30 anos de mau futebol”, lançamento da editora Quetzal.

Fonte insuspeita, o português Pombeiro não conta aquelas do Manoel e sim reúne preciosidades como a abaixo.

Livrarias

Postado em Listas, Livreiro, Lugares em 23/11/2009 por Daniel

Este Livro seleciona 15 livrarias pelo mundo.

1.      Altaïr, de Barcelona: www.altair.es

2.      Atlantis Books, da Grécia: www.atlantisbooks.org

3.      Bookartbookshop, de Londres: www.bookartbookshop.com

4.      Calder Bookshop, de Londres: www.calderpublications.com

5.      City Lights, de São Francisco: www.citylights.com

6.      Galignani, de Paris: www.galignani.com

7.      Gleebooks, de Sydney: www.gleebooks.com.au

8.      La Bouquinèrie, de Marselha: www.labouquinerie.com

9.      La Central, de Barcelona: www.lacentral.com

10.  La Feltrinelli, da Itália: www.lafeltrinelli.it

11.  La Hune, de Paris: www.lahune.fr

12.  Page One, de Hong Kong: www.pageonegroup.com

13.  Selexyz Dominicanen, de Maastricht: www.selexyz.nl

14.  Shakespeare and Co., de Paris: www.shakespeareco.org

15.  Strand, de Nova York: www.strandbooks.com

As capas de Montag

Postado em Conectado, Livros sobre livros em 18/11/2009 por Daniel

Uma boa pedida pra quem quer conhecer um pouco mais sobre a história e as tendências do design gráfico, sobretudo o que se traduz nas capas de livros, é o blog do designer gráfico e editor Pedro Marques, Montag. Aqui duas amostras do que se pode encontrar por lá.

Saramago, Hemingway e Dias Gomes no Natal da Biblioteca Saraiva

Postado em Biblioteca Saraiva em 14/11/2009 por Daniel

Mosaico 

Por Daniel Louzada 

Na próxima semana as lojas Saraiva e Siciliano receberão os novos títulos negociados para a Biblioteca Saraiva, uma iniciativa inédita promovida em conjunto pela Livraria Saraiva e algumas editoras para oferecer por baixo preço obras que fazem parte da formação básica do leitor de literatura de ficção e poesia.

Dessa vez, a remessa é de livros da Bertrand Brasil. São 9 títulos dos autores José Saramago, Ernest Hemingway e Dias Gomes. Só clássico. E calha, assim como os demais que compõem a Biblioteca (48 livros da Record, da WMF – Martins Fontes e da Cosac Naify), como excelente sugestão de presente para o Natal.

Boa leitura!

Memorial do convento - José Saramago (De: 53,00 Por: 26,90)

Levantado do chão – José Saramago (De: 53,00 Por: 26,90)

O velho e o mar – Ernest Hemingway (De: 31,00 Por: 18,90)

Paris é uma festa – Ernest Hemingway (De: 42,00 Por: 19,90)

Por quem os sinos dobram – Ernest Hemingway (De: 59,00 Por: 29,90)

Contos – vol. 1 – Ernest Hemingway (De: 35,00 Por: 19,90)

Contos – vol. 2 – Ernest Hemingway (De: 42,00 Por: 19,90)

Contos – vol. 3 – Ernest Hemingway (De: 42,00 Por: 19,90)

O pagador de promessas – Dias Gomes (De: 29,00 Por: 16,90)

Bertrand

Clube do Livro Saraiva

Postado em Eventos em 13/11/2009 por Daniel

DSC07159

Um encontro para os amantes da leitura debaterem, trocarem ideias e sugestões sobre clássicos e lançamentos. Assim é o Clube do Livro Saraiva que acontece sempre no último sábado de cada mês, às 15h, na loja do shopping Rio Sul, no Rio. 

A 4ª edição do Clube foi em 31.10. Dessa vez, o tema foi Halloween e a discussão girou em torno de livros de terror e suspense, sem esquecer dos clássicos de Stephen King e Agatha Christie, entre outros. E é claro que os vampiros, a grande onda do momento, também não ficaram de fora. 

O evento, idealizado e coordenado por Cíntia Lopes e novamente sob o comando de Frini Georgakopoulos e Patricia Lima “Patoka”, teve um público de mais de 40 pessoas, que participaram do sorteio de livros de suspense de editoras como a Planeta. Além disso, os presentes ganharam a carteirinha de sócio que dá direito a desconto de 10% na compra de livros na loja Rio Sul no dia do Clube.

Em novembro ocorre a 5ª edição. Participe.

DSC07145

DSC07157

Trecho de “Os espiões”, novo livro de Luis Fernando Verissimo

Postado em Exclusivo, Lançamentos, Literatura brasileira, Trechos em 13/11/2009 por Daniel

Os espiões

“Formei-me em Letras e na bebida busco esquecer. Mas só bebo nos fins de semana. De segunda a sexta trabalho numa editora, onde uma das minhas funções é examinar os originais que chegam pelo correio, entram pelas janelas, caem do teto, brotam do chão ou são atirados na minha mesa pelo Marcito, dono da editora, com a frase “Vê se isso presta”. A enxurrada de autores querendo ser publicados começou depois que um livrinho nosso chamado Astrologia e Amor — Um Guia Sideral para Namorados fez tanto sucesso que permitiu ao Marcito comprar duas motos novas para sua coleção. De repente nos descobriram, e os originais não param mais de chegar. Eu os examino e decido seu futuro. Nas segundas-feiras estou sempre de ressaca, e os originais que chegam vão direto das minhas mãos trêmulas para o lixo. E nas segundasfeiras minhas cartas de rejeição são ferozes. Recomendo ao autor que não apenas nunca mais nos mande originais como nunca mais escreva uma linha, uma palavra, um recibo. Se Guerra e Paz caísse na minha mesa numa segunda-feira, eu mandaria seu autor plantar cebolas. Cervantes? Desista, hombre. Flaubert? Proust? Não me façam rir. Graham Greene? Tente farmácia. Nem le Carré escaparia. Certa vez recomendei a uma mulher chamada Corina que se ocupasse de afazeres domésticos e poupasse o mundo da sua óbvia demência, a de pensar que era poeta. Um dia ela entrou na minha sala brandindo o livro rejeitado que publicara por outra editora e o atirou na minha cabeça. Quando me perguntam a origem da pequena cicatriz que tenho sobre o olho esquerdo, respondo:

— Poesia.

Corina já publicou vários livros de poemas e pensamentos com grande sucesso. Sempre me manda o convite para seus lançamentos e sessões de autógrafos. Soube que sua última obra é uma compilação de toda a sua poesia e prosa, com quatrocentas páginas. Capa dura. Vivo aterrorizado com a ideia de que ainda levarei esse tijolo na cabeça.

Uma ameaça imediata vinha do Fulvio Edmar, autor do Astrologia e Amor, que nunca recebera os direitos autorais pela sua obra. Ele pagara pela primeira edição e achava que deveria receber os direitos integrais de todas as edições depois que o livro estourara. O Marcito não concordava. E eu é que tinha que responder as cobranças cada vez mais desaforadas de Fulvio Edmar. Há anos trocávamos insultos por cartas. Nunca nos encontráramos. Ele já descrevera com detalhes como faria para que meus testículos substituíssem minhas amídalas, quando isso acontecesse. Eu já o avisara que carregava sempre uma soqueira no bolso.

Mesmo as minhas cartas de rejeição mais violentas, minhas diatribes de segunda-feira, terminam com um P.S. amável. Instrução do Marcito. Se a pessoa estiver disposta a pagar pela edição do seu livro, a editora terá enorme prazer em rever sua avaliação etc. etc. Conheci o Marcito na escola. Os dois com 15 perebentos anos. Ele sabia que as minhas redações eram as melhores da turma e me convidou para escrever histórias de sacanagem, que reunia num caderno grampeado, intitulado O Punheteiro, e alugava para quem quisesse levá-lo para casa, com a condição de devolver no dia seguinte sem manchas. Depois da escola passamos anos sem nos ver até que descobri que ele abrira uma editora e fui procurá-lo. Eu tinha escrito um romance e queria publicá-lo. Não, não era de sacanagem. Demos boas risadas lembrando os tempos de O Punheteiro, mas o Marcito disse que, a não ser que eu pagasse pela edição, não tinha como publicar meu romance, uma história de espionagem sobre um fictício programa nuclear brasileiro abortado pelos americanos. A editora estava recém-começando. Ele era sócio de um tio, fabricante de adubo, cujo único interesse na editora era a publicação de um almanaque mensal distribuído entre seus clientes no interior do estado. Mas Marcito me fazia uma proposta. Tinha planos para criar uma editora de verdade. Precisava de alguém que o ajudasse. Se eu fosse trabalhar com ele, eventualmente publicaria meu romance. Não podia prometer um grande salário, mas… Me lembrei que ele não dividia comigo o dinheiro do aluguel de O Punheteiro. Ia certamente me explorar de novo. Mas a ideia de trabalhar numa editora me seduzia. Afinal, eu me formara em Letras e na época era funcionário de uma loja de vídeos. Estava com 30 anos. Tinha recém me casado com a Julinha. O João (a Julinha não aceitou que ele se chamasse le Carré) estava para nascer. Topei. Isso foi há 12 anos. Minha primeira tarefa na editora foi copiar um texto sobre camaleões de uma enciclopédia, para incluir no almanaque. Escolha profética: o camaleão é um bicho que se adapta a qualquer circunstância e desaparece contra o fundo. Desde então é isso que eu faço. Leio originais. Escrevo cartas. Redijo quase todo o almanaque para ajudar a vender adubo. Me lamento e bebo. E, lentamente, desapareço contra o fundo”.

Os espiões – Luis Fernando Verissimo (Objetiva)

Os 7 passos de um homem

Postado em Leituras em 12/11/2009 por Daniel

 

Por Daniel Louzada

Um afogado abre a janela

Poesias de Álvaro de Campos – Fernando Pessoa (Cia. das Letras, FTD)

Mais conhecido e angustiado heterônimo criado pelo português Fernando Pessoa, Álvaro de Campos condensa o sangue e a alma que a poesia pode trazer em seus altos momentos. Para ler, reler, sentir e pensar, sobretudo com realizações definitivas como “Na estrada de Sintra”, “Tabacaria” e “Passagem das horas”.

Nesse dia não há o que comemorar

O processo – Franz Kafka (Cia. das Letras)

No dia de seu 30° aniversário, o funcionário Joseph K. acorda com a polícia à porta: é acusado, mas não sabe e não lhe dizem o motivo. A ficção do tcheco de expressão alemã Franz Kafka, emblema do século XX, é uma metáfora da irracionalidade que vêm por trás da aparente racionalidade deste mundo, como ele está.

Um espectro de tragédia

Édipo rei – Sófocles (Difel, L&PM)

Tragédia grega fundamental que conta a história de Édipo, aquele que desposou a própria mãe. Boa iniciação para a rica herança deixada pelos gregos antigos à cultura ocidental e à leitura dos melhores textos de teatro.

As dúvidas o perseguem

Dom Casmurro – Machado de Assis (Saraiva)

Memórias do solitário personagem Bentinho, apelidado de Dom Casmurro. Ele reconstitui sua relação com Capitu (a de olhar oblíquo), sua ex-mulher, por quem suspeita ter sido traído com seu melhor amigo, Escobar. A trama é muito intricada, há grande análise psicológica, poder de ironia e sátira e reflexão sobre a miséria humana.

Senta-se no meio-fio da capital do País

Antologia poética – Carlos Drummond de Andrade (Record)

Maior poeta brasileiro, Drummond escreveu obras marcadas pela inadaptação ao mundo e por um agudo sentido em relação ao outro. Aqui, uma coleção de clássicos: desde “No meio do caminho” (“tinha uma pedra no meio do caminho” – quem nunca ouviu?), passando pelos políticos “A flor e a náusea” e “Morte do leiteiro” e chegando ao magnífico (dizer isso é pouco) “A máquina do mundo”.

Perde o rumo

Fahrenheit 451 – Ray Bradbury (Globo)

No futuro, os bombeiros têm uma nova tarefa: queimar livros. O bombeiro Guy Montag leva uma vida alienada nessa sociedade dominada pelo consumo e pelas telas de televisão até tomar consciência da miséria em que está metido e se juntar aos que, clandestinamente, resistem à opressão e à ignorância. História boa, mas nem tão bem escrita.

Suas contas já não são com Deus

Os ratos – Dyonélio Machado (Planeta)

Numa cidade provinciana, a Porto Alegre dos anos 30, o funcionário Naziazeno, às voltas com as dificuldades econômicas e precisando sustentar a mulher e o filho pequeno, é atormentado pela dívida que tem com o leiteiro. Drama de grande profundidade psicológica, marco do modernismo brasileiro, embora pouco conhecido.

Ritmo e poesia

Postado em Música, Poesia, Vídeos em 11/11/2009 por Daniel

Por Daniel Louzada

Comumente se diz que poesia não vende, que a maioria das pessoas não gosta de poesia. Se a poesia não é lida tanto quanto outros gêneros é por outras razões, contudo.

Impõem-se duas perguntas. Não são as músicas populares formas de poesia? Por que há receptividade tão grande para a música e seus versos e não para a poesia?

Palavra de poeta – Paulo Leminski

“Eu não sei se todos os povos amam os seus dentistas, mas todos os povos amam os seus poetas. No Brasil, por exemplo, Vinicius de Moraes, Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso, Milton Nascimento e seus parceiros… Os poetas são amados por milhões. Por que os povos amam os seus poetas? Porque os povos precisam disso, porque os poetas dizem coisas que as pessoas precisam que sejam ditas. O poeta não é um ser de luxo, não é uma excrescência ornamental da sociedade; ele é uma necessidade orgânica de uma sociedade. A sociedade precisa daquela “loucura” pra respirar. É através da loucura dos poetas, através da ruptura que eles representam que a sociedade respira”.

A chave certamente está no acesso a uma e outra.

É importante lembrar que até certa altura da Idade Média as poesias eram acompanhadas de música. Hoje um movimento nascido nos guetos negros dos Estados Unidos concentra a maior força da música popular mundial –movimento justamente centrado na palavra aliada ao ritmo. O RAP (ritmo e poesia, em inglês) não possui a elaboração de linguagem da poesia clássica, mas guarda nos seus melhores exemplos o mesmo espírito.

Vamos ler um livro – Juventude Armada

Chega de ler besteira

Chega de babaquice

Procure se informar

Não seja o mestre da burrice

São tantos que falam merda

E isso enjoa, é um tormento

Procure ler um livro

Pois é a máquina do tempo.

Traduções

Postado em Primeiros passos em 11/11/2009 por Daniel

James Joyce

Por Daniel Louzada

Há alguns anos, uma obra renovadora e ousada, “Ulisses”, de James Joyce, foi reeditada no Brasil (Objetiva). Sua reedição não disse respeito simplesmente a uma nova capa e a um novo projeto gráfico, mas remeteu a um aspecto fundamental para os grandes livros: a tradução.

Uma obra rica em linguagem oferece grandes dificuldades na tradução para outro idioma. O tradutor, por nem sempre haver correspondências entre dois idiomas, por ser impossível fazer uma tradução literal, é obrigado a achar soluções originais a fim de escrever um texto que tenha sentido e ritmo.

Grandes livros exigem, assim e de tempos em tempos, uma nova tradução, uma nova leitura, como nota o crítico Ivo Barroso.

Segundo o tradutor brasileiro de “Finnegans Wake”, obra também escrita por James Joyce (e quase ilegível para o não iniciado), Donaldo Schüler, a prosa do autor irlandês é muito rica: “A técnica cinematográfica em Joyce está presente já na primeira página do Ulisses. Ele dá muita atenção às artes modernas. Joyce rompe com o vocabulário inglês. Ele tem cerca de 60 mil verbetes, quando as pessoas normalmente falam 3 mil vocábulos. Ele lida com sessenta línguas. Faz composições com palavras de sessenta línguas”.

O tradutor interpreta, descomplica. Ou complica mais ainda. Uma má tradução pode assassinar o melhor dos autores. Esses dias cotejei duas versões de poemas do Maiakóvski disponíveis em português. Em uma delas Maiakóvski é sangrado até a morte a ponto de se tornar um escritor enfadonho. Por conta do infeliz encontro com esse tipo de edição certamente deixamos de descobrir muitos talentos.

Atentas a isso, editoras como a 34 – que publicou a obra de Dostoiévski e a de outros russos no Brasil – primam por trabalhar com nomes qualificados como Boris Schnaiderman. Tradutores que evitam confirmar o velho ditado italiano que os persegue: traduttore traditore.

O popular maluquinho

Postado em Enquetes, Literatura infanto-juvenil em 11/11/2009 por Daniel

Menino maluquinho

Encerrada a nossa enquete sobre personagens infantis.

Para 31% dos votantes, o personagem mais marcante de suas infâncias foi o Menino Maluquinho, criação do célebre e ativo Ziraldo.

Logo atrás veio a Mônica e sua turma com 25% das preferências. Emília e a turma do sítio encantam as crianças há muitas gerações e mereceram 19% dos votos. Em seguida, empatados e fechando a lista com 6% cada, ficaram Sherlock Holmes e Pollyana.

Entrevista: Marcelo Tas

Postado em Entrevista, Exclusivo em 10/11/2009 por Daniel

Nunca antes

O divertido “Nunca antes na história deste país” acaba de ser lançado por Marcelo Tas. O livro, muito bem ilustrado, traz frases de Lula comentadas pelo autor, mas não é simplesmente uma compilação. Tas esteve conosco e com muita simpatia contou, entre outras coisas, um pouco de como surgiu a idéia do livro.

ESTELIVRO: Como surgiu a ideia de escrever o livro “Nunca antes na história deste país” a partir de frases do Lula?

Marcelo Tas: A ideia veio da editora Panda. Fiquei com essa história dormindo na minha mente por um tempo e depois propus uma ampliação do livro. No começo, seria somente uma compilação de frases e pensei nos vários personagens que o Lula já assumiu falando. E o volume de frases é abissal, é muita coisa! Eu pensei: ‘vou ter que ver uma maneira de traduzir esse ser que existe dentro do Lula’. Aí eu vi que existem vários seres, ele assume várias profissões, e associei com essa história de ele não ter diploma. Quer dizer, um cara que não teve diploma e de repente teve vontade de ter todos os diplomas do mundo. Depois pensei na imagem que é uma coisa que está associada à televisão, então busquei alguém que pudesse traduzir isso em imagem. E aí foi ficando cada vez mais complexo para meu desespero. Trouxe um animador, Ricardo Gimenez, que faz animação de televisão, desenho animado, web e livros também. O livro cresceu bastante e a editora gostou bastante dessa ampliação do livro. Para mim foi uma surpresa entender que o livro nasce de uma ideia, mas depois ele acaba virando outro livro ao longo do processo.

ESTELIVRO: Você falou que o Lula assume diversos personagens ao longo do livro. Qual você acha que é real: o metalúrgico ou o Presidente?

Eu acho que o mais real é o metamorfose ambulante. O Lula é um cara que muda muito rapidamente e isso não é nenhuma crítica. Ele é capaz de se adaptar facilmente. Se ele entrar nessa sala, vai entender tudo de livros de uma hora para outra e vai nos deixar extremamente seduzido por eles. O Lula tem essa capacidade e isso eu já ouvi de vários amigos. Eu conheci o Lula pessoalmente, durante entrevistas, que é um tipo de Lula, o Lula marqueteiro, que fala com os jornalistas, fala muito bem sobre o que ele está fazendo, o que deixou de fazer. Você quase acredita em tudo o que ele está dizendo. O Lula seduz economistas que é uma classe super científica. Tenho amigos de direita que, depois que participaram de um seminário com o Lula, ficaram apaixonados… Inclusive a eles eu dediquei esse capítulo: Lula, economista.

ESTELIVRO: O Lula já sabe sobre o livro?

Eu acho que o Lula não sabe. Eu tenho muito contato com os assessores dele que geralmente me ligam muito por causa do CQC.

ESTELIVRO: Ele assiste ao CQC?

Ele assiste. Comenta o programa, às vezes, quando encontra a nossa equipe. Ele manda alô para o Marco Luque. Aliás, eu entendo porque ele consegue se comunicar com o Marco Luque, eles tem uma linguagem corporal. Linguagem de sinais. Eu tenho certeza de que ele não sabe do livro. Estou curioso para saber qual vai ser a reação dele porque se tem uma coisa que eu fiz questão é: o livro não é nem um pouco partidário, não é contra nem a favor. Quando o José Simão foi escrever o prefácio, ele me perguntou: ‘Você quer um prefácio contra ou a favor?’. Eu falei: um a favor do contra. Então o livro é um pouco disso, ele confunde. Tem momentos simpáticos ao Lula, com razão, nunca na história desse país existiu alguém tão surpreendente no comando desta nação, tem suas virtudes, e tem também seus fracassos e as suas trapalhadas redondas que a gente também critica no livro. Não é um livro unilateral, confunde a minha própria posição diante do Lula, que também é ambígua. Eu sou muito mais pela anarquia do que pela ordem política. Acho uma bobagem crucificar o Lula ou endeusá-lo. Vai ser curioso como isso vai ser percebido.

 

PA250006

Tas com Luciana e Daniel, do Este Livro, e Natasha, do Palco Alternativo

 

ESTELIVRO: Você pretende entregar o livro pessoalmente ao Lula?

Eu gostaria. Aliás, o cara que criou o formato do CQC, o nosso chefão da Argentina, ficou sabendo do livro e pediu para eu mostrar esse livro no CQC. Então a gente deve fazer isso sim. Esse livro deve virar personagem do CQC em algum momento.

ESTELIVRO: Foi feita uma pesquisa com os argentinos e 60% votariam no Lula.

Eu acredito que ele seria um excelente candidato para a Argentina. Este país esta passando por uma fase terrível. E acho mais: o Lula teria mais porcentagem no Brasil se ele pudesse ser candidato [novamente]. E isso faz justiça ao governo dele. O governo Lula deu certo porque ele não cumpriu nada do que prometeu. É a primeira vez que isso acontece na história do nosso país. E por isso deu certo. Ele fez um governo que descumpre tudo aquilo em que acreditava: as alianças, a política econômica… E deu certo. O Brasil é esse país difícil de entender. E é por isso que eu acredito na capacidade do humor para contar a história do Brasil. Isso tem muito a ver com o livro. A minha carreira é muito em cima da tentativa de explicar o Brasil por meio do humor, desde o Varella até os programas infantis, pelo meu blog, a minha relação com os jovens e a minha tentativa de falar do que eu acredito é sempre pelo viés do humor. A gente vive num país tão absurdo, tão surpreendente que eu acredito que colocando essa lente do humor, a gente consegue se aproximar mais dessa realidade absurda do que se, de repente, a gente for muito técnico e científico.

ESTELIVRO: Você aderiu ao twitter como uma importante ferramenta de divulgação de informações. Qual é o próximo passo das redes sociais?

Quem fica olhando para o próximo passo pode cair agora porque a gente está numa velocidade muito alta. Eu sempre procuro observar o que está acontecendo nesse instante porque ninguém tem muita noção do instante seguinte. O próprio twitter, tenho o meu desde 2007, ele ficou dormindo ali um ano, um ano e meio, e em 2008 parece que foi descoberto, mas já existia há um tempão… O que está aumentando cada vez mais é a velocidade com que as pessoas captam e distribuem a informação através das redes. Para mim, sempre o que interessa é a qualidade da comunicação, quem conseguir fazer isso vai estar sempre surfando bem essa onda. Existem aquelas coisas que disparam novidades para fazer um showzinho pirotécnico aqui e ali, como, por exemplo, o Second Life, teve uma hora que parecia que o mundo ia ser dominado por isso…

ESTELIVRO: Nos fale um pouco sobre as obras que você está lendo.

Eu sou muito caótico na minha leitura. Leio coisas antigas e novas simultaneamente. Estou lendo, neste instante, “O andar do bêbado”, um livro que fala exatamente sobre esse assunto, meio que o twitter, meio que para onde estamos indo. É o andar do bêbado. Aliás, ele confirma o que eu falei: você não tem como prever o próximo passo, é melhor que você não preveja porque o próximo passo é um andar de bêbado, graças a Deus, não é uma coisa linear. Por causa do livro [“Nunca antes...”], eu mergulhei muito na vida do Lula e me surpreendi o quanto a gente desconhece dele. O livro da Denise Paraná, “Lula, o filho do Brasil”, no qual foi baseado o filme, é sensacional. Ninguém o leu ainda. O que eu acho incrível.

ESTELIVRO: Agora começou a vender.

Esse livro eu acho que vai explodir depois do filme. O que é curioso é que é um livro quase acadêmico. Quase não, é acadêmico. É uma pesquisa acadêmica. São entrevistas longuíssimas com o Lula e com todas as pessoas que se relacionaram com ele antes de ele ficar conhecido.

ESTELIVRO_TAZ_LULA

ESTELIVRO: Você tem outros projetos de livros?

Tenho, mas tenho até medo de falar porque nunca pensei que desse tanto trabalho fazer um livro. Pensei que fazer televisão era difícil. E estou chocado. É trabalhoso e fascinante. Já havia ouvido muitos escritores dando essa entrevista, mas percebi que o livro se torna trabalhoso justamente porque é apaixonante. Eu tenho outros projetos, até já relativamente desenhados, mas eu prometi para mim mesmo que nunca mais eu escreveria outro livro, mas acho que vou ter que descumprir essa promessa. O livro é um negócio que rouba a alma, mas num sentido muito bonito de você resolver se dedicar àquilo de corpo e alma. E como eu faço várias outras coisas isso é perigosíssimo.

ESTELIVRO: Tem a ver com o objeto livro mesmo. Porque você lida bastante com tecnologia, blog, twitter etc. Tem alguma mudança na sensibilidade?

Tem porque eu percebo que o livro é um esforço coletivo também, o que é fascinante.  Ele é composto por várias camadas. Quando você entrega, vamos dizer assim, a versão final, que demora para ser a última, isso se aproxima muito de outra experiência que eu tive que é o teatro. Quando você chega numa peça e acha que ela está no formato final percebe que é aí que começa o trabalho, que você verá os detalhes mais profundos do que está fazendo. É um jogo fascinante, mas é extenuante. Você percebe que aquilo não tem fim.

Colaborou nessa entrevista Natasha Ramos, do blog Palco Alternativo.

Leve pra casa um Dan Brown autografado!

Postado em Exclusivo, Promoção em 02/11/2009 por Daniel

PA260009

Participe da nossa promoção e leve um exemplar capa dura de “The lost symbol” autografado pelo próprio autor! Isso mesmo!!!

E mais! 2º e 3º lugares ganham “O símbolo perdido”, edição brasileira, recém saído do forno.

Regulamento

O participante deve responder a duas questões obedecendo todos os critérios estipulados abaixo. Serão consideradas participações válidas somente aquelas que preencherem as exigências das duas questões.

Questões

1) Qual cena dos livros de Dan Brown em que Robert Langdon é protagonista você considera mais marcante? Descreva a cena, o livro e o capítulo.

2) Crie uma cena, tendo como cenário o Brasil, em que Langdon viva uma situação inusitada. A cena deve estar no contexto das narrativas de Dan Brown e de Langdon. O texto deve ter no mínimo 8 e no máximo 20 linhas.

Critérios

Para a questão 1 serão consideradas somente respostas corretas.

Para a questão 2 será considerada a criatividade do participante.

Envio e validade

As respostas devem ser enviadas para estelivro@gmail.com

A validade da promoção é de 02.11 a 18.11.2009.

Somente serão consideradas as participações recebidas até as 23h59 de 18.11.

Divulgação do resultado

A divulgação do resultado acontecerá em 23.11 no blog.

Vencedores

1º lugar – 1 exemplar de “The lost symbol”, edição dos EUA, autografado.

2º e 3º lugares – 1 exemplar de “O símbolo perdido”, edição brasileira, para cada.

Divulgaremos nomes, cidades e as respostas dos vencedores.

Entrega dos prêmios

Para moradores de São Paulo entregaremos os prêmios pessoalmente. Para moradores de outras cidades, os prêmios serão enviados pelo correio. 

The Lost Symbol

Kill the Kindle

Postado em Conectado, Vídeos em 29/10/2009 por Daniel

Menos catastrofismo. Mais humor.

Série Vaga Lume: é da sua época?

Postado em Fundo do baú, Literatura infanto-juvenil em 29/10/2009 por Daniel

este livro - baú - imagem 1

Por Luciana Rede

Alguns comentários que tecemos acabam denunciando a idade!

Quer saber se a colega já passou dos 30? Fale ao acaso: “O caso da borboleta Atíria”, “O escaravelho do diabo” e ”Zezinho, o dono da porquinha preta”!

Os mais velhos com certeza se lembram, mas hoje estes livros deram lugar a adoções de livros mais modernos ou nem tanto.

A vontade de escrever sobre a coleção veio de uma conversa com colegas que tinham trauma, que odiavam ler quando meninos!

Me lembro que eu e meus amiguinhos tínhamos uma brincadeira de nerd: competíamos pra ver quem já tinha lido mais livros da série! A série tinha ótimos títulos como os do Marcos Rey, autor atualmente em outra editora. Livros de puro entretenimento (algumas exceções como “O feijão e o sonho” e “Éramos seis”), linguagem fácil e sem cobrança.

Mas as experiências com leitura na infância podem ser traumáticas! Tenho uma amiga traumatizada pela “Bolsa Amarela”… e é tão bonitinho… Quem nunca foi obrigado a ler na escola algo que não condizia com a idade? “Lucíola” e “Memórias de um sargento de milícias” que nos digam!

este livro - baú - imagem 2

Lembrando do “Memórias”, me lembro que dois anos atrás tive um ataque e quis reler todos os livros que não gostei na escola. Comecei por este e é admirável a falta que faz um pouco mais de vivência e conteúdo para se compreender um livro. “Sargento de milícias” é engraçadíssimo e retrata a vida das pessoas comuns na época da vinda dos reis de Portugal utilizando uma linguagem bem afiada!

Uma ótima dica são os clássicos adaptados para quadrinhos!

Você leu algum livro na infância que depois releu e mudou de idéia?

Escritores, misticismo e religiosidade

Postado em Autores, Literatura inglesa, Literatura portuguesa, Religiões em 27/10/2009 por Daniel

1_Este livro_Doyle_Pessoa

Por Luciana Rede

Existem incontáveis livros psicografados de personalidades muito famosas quando em vida, entre eles Liév Tolstoi, Charles Dickens e até o próprio Jesus.

Mas definitivamente não vamos discutir aqui no ESTE LIVRO como os famosos utilizam seu tempo no além-túmulo.

Muitos escritores de renome tiveram sua vida pessoal ligada à espiritualidade.

Fernando Pessoa, a exemplo de William Blake, tem sua obra conhecida como transcendental.

Além de dar conta de tantos heterônimos, dominava assuntos tidos pelos intelectuais como supersticiosos e ignorantes como Alquimia, Kabbalah, Astrologia, Magia e Ocultismo.

Pessoa foi Rosacruz, estudioso de Teosofia e amigo pessoal de Aliester Crowley, do qual traduziu poemas, entre eles Hino a Pã, cuja tradução foi publicada pela primeira vez em 1931 no livro Presença. O nome de Crowley não aparece no livro, apenas seu nome mágico, Mestre Therion.

Arthur Conan Doyle, criador do detetive Sherlock Holmes, personagem querido por gerações, também teve suas buscas e assim como Fernando Pessoa, se interessou pela Teosofia e Ocultismo, até que perdeu a esposa e filhos em um acidente e se tornou espírita fervoroso.

Escreveu um livro sobre o assunto, “História do Espiritismo”, editado no Brasil pela Pensamento. Muitos confundem e acreditam que este livro é psicografado, mas não, foi escrito em vida e reflete seu pensamento na época em que ajudou a divulgar esta doutrina de origem francesa em sua Inglatera.

Ao contrário de Pessoa, Doyle quase não passa traços de espiritualidade e misticismo para a literatura.

Trecho do inédito romance de Edney Silvestre

Postado em Exclusivo, Lançamentos, Literatura brasileira, Trechos em 25/10/2009 por Daniel

Edney Silvestre

Abaixo transcrevemos os parágrafos iniciais do primeiro romance do jornalista Edney Silvestre, “Se eu fechar os olhos agora”, a ser lançado no próximo dia 4 de novembro pela editora Record. A trama se desenvolve a partir do momento em que dois garotos de uma pequena cidade do estado do Rio, em 1961, descobrem o corpo mutilado de uma linda mulher.

“Se eu fechar os olhos agora, ainda posso sentir o sangue dela grudado nos meus dedos. E era assim: grudava nos meus dedos como tinha grudado nos cabelos louros dela, na testa alta, nas sobrancelhas arqueadas e nos cílios negros, nas pálpebras, na face, no pescoço, nos braços, na blusa branca rasgada e nos botões que não tinham sido arrancados, no sutiã cortado ao meio, no seio direito, na ponta do bico do seio direito.

Eu nunca tinha sentido aquele cheiro pungente antes, aquele cheiro que ficaria para sempre misturado ao cheiro das outras mulheres, das que conheci na intimidade, que invadiria o cheiro de outras mulheres e que para sempre me levaria de volta a ela. Aquela mistura de perfume doce, carne cortada, suor, sangue e – o mais próximo que consegui perceber, até hoje – sal. Como se sente quando próximo do mar. Como quando adere à pele. Não os grãos do sal – mas a poeira invisível e olorosa do sal em dias úmidos.

Mas eu também não conhecia o mar, naquela época, eu nunca tinha sentido o cheiro nem visto o mar, então aquele odor do corpo sobre a lama, nu, eu nunca tinha visto uma mulher nua nem sentira o cheiro de uma mulher nua assim tão próxima, quer dizer, não que ela estivesse completamente nua, mas o seio com aquele bico grande e… As coxas estavam abertas, a saia levantada, e eu vi os pelos pretos intrincados no alto delas, das coxas, onde as coxas longas se encontravam, e dali exalava, não, não dali, dela toda, aquele odor de corpo de mulher misturado ao sangue e eu acho que tinha se cagado, acho que tinha se borrado, como hoje eu sei que nos acontece a todos, na hora que a vida abandona nosso corpo e ele todo se relaxa, e o esfíncter se abre e… Essa também era uma palavra que eu nunca tinha ouvido. Nem lido. Esfíncter. Eu tinha doze anos e palavras como essa não eram ditas na minha casa. A gente não conhecia palavras assim.

Ela, ali, morta. Nua. Quase nua”.

A fantástica história de Padre Cícero

Postado em Biografia, Lançamentos, Vídeos em 25/10/2009 por Daniel

Padre Cícero – poder, fé e guerra no sertão, de Lira Neto, estará disponível em 12 de novembro.

Grande aposta da Companhia das Letras, a biografia promete colocar novamente em discussão a polêmica figura do padre cearense Cícero Romão Batista (1844-1934). Lira Neto recupera a trajetória do líder religioso e político desde a infância revelando fatos até então desconhecidos. Santo para uns, impostor para outros, atualmente cogita-se nos meios católicos a reabilitação de Padre Cícero.

O silencieiro

Postado em Autores, Leituras, Literatura argentina em 24/10/2009 por Daniel

O silencieiro

Por Daniel Louzada

Uma cidade latino-americana depois de 1950, um homem jovem que não suporta o barulho produzido pela metrópole.

“O ruído não me permite existir”.

A solidão e o dilaceramento do personagem principal por conta da sensibilidade ao mínimo ruído.

O amigo Besarión e o zelo de sua mãe.

“Mas ninguém é absolutamente mau para si próprio, embora o seja para os demais. Todos temos uma justificativa. Que não será admitida pelos outros (exceto aqueles predispostos, que são os que nos amam)”.

Fuga. Os barulhos o fazem perambular com a família de casa em casa, de bairro em bairro.

Perseguido pela cidade em expansão, inexorável, incontrolável em sua trajetória.

“Os mártires, me parece, não podem se defender. Ninguém os escuta”.

Acusado de incendiar a casa de uma vizinha vai preso.

Tentativa de suicídio.

“Mártir da pretensão de viver minha vida e não a vida alheia, a vida imposta”.

Antonio Di Benedetto (1922-1986) é autor de “O silencieiro” (1964), “Mundo animal” (1953), “Zama” (1956) e “Os suicidas” (1969), todos editados no Brasil pela Globo, entre outros. Jornalista, foi preso e torturado com o advento do golpe militar argentino de 1976. Libertado após catorze meses, exilou-se em vários países, ficando fora da Argentina até 1984. Conciso, discreto, mas nem por isso menos denso e pungente, Di Benedetto, é um dos gigantes da literatura latino-americana do século XX.

A biblioteca de Gonçalo Tavares

Postado em Autores, Lançamentos, Literatura portuguesa, Trechos em 23/10/2009 por Daniel

Biblioteca

Quatro excertos do mais novo livro de Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (Casa da Palavra). Nele, o escritor português reúne pequenos textos à moda de um dicionário. A matéria prima é o universo de autores tão diferentes quanto Platão, Kafka, Nelson Rodrigues e Umberto Eco.

Dylan Thomas

“Não ignoro que a iluminação, quando entra na água, se torce como a vara que parece se torcer. Mas há uma diferença: a vara toca no fundo, mesmo na água suja, e a luz, não sei se com a água suja toca no fundo. A luz não é um metal.

Ou o metal talvez seja uma luz mais lenta. Como o ouro mostra. E daí o seu valor monetário, que não é mais que o seu valor para os olhos.

A tudo o que ilumina um coração podre podemos chamar luz. O dinheiro, por exemplo”.

E. M. Cioran

“Se a alma é uma víscera, não quero pensar o que será Deus.

O homem que quer destruir traz as mãos pesadas. O homem que quer fugir traz os pés leves.

O homem que quer lutar não traz pressa. O homem que quer morrer encontrou o mundo certo”.

Sade

“No fundo, entre a febre excitada e a sabedoria há um combate, e umas vezes ganha a febre, outras vezes é a sabedoria que perde”.

Yukio Mishima

“Toda a estética é uma renúncia ao músculo.

Claro que a renúncia ao músculo é sempre temporária, porque a morte vem, e nela o corpo tem de estar presente. Porém a estética não. A morte, poderias dizer, torna dispensável a estética.

Se colocares o ouvido junto ao dorso de uma vaca não escutarás o som do mar”.

O editor

Postado em Autores, Livreiro em 23/10/2009 por Daniel

Monteiro Lobato

Por Daniel Louzada

Além de ter sido criador de inesquecíveis personagens infantis que encantam sucessivas gerações de crianças desde a década de 20 do século XX, Monteiro Lobato (1882-1948) foi também um destacado editor. O escritor paulista introduziu inúmeras inovações no mercado editorial do País, foi pioneiro na implantação de práticas avançadas no processo de edição e comercialização de livros tais como distribuição consignada para bancas de jornal, papelarias, armazéns e farmácias, cuidado com o aspecto gráfico das obras (capas atraentes, ilustrações e diagramação moderna), publicidade em jornais por ocasião dos lançamentos e envio gratuito de exemplares para bibliotecas de escolas. A trajetória empresarial de Lobato materializou-se na Monteiro Lobato & Cia, na Companhia Editora Nacional e, por fim, na Brasiliense – que fundou com Caio Prado Jr., entre outros – e exemplifica o duplo papel que tem um editor: sendo um comerciante é, ao mesmo tempo, um agente cultural; as histórias de grandes editores como José Olympio (1902-1990), Ênio Silveira (1925-1995) e Jorge Zahar (1920-1998) o comprovam.

Robert Crumb

Postado em Autores, Quadrinhos em 19/10/2009 por Daniel

Crumb

Por Daniel Louzada

A cena é essa: com um exemplar fresquinho (ou seria quentinho?) do Gênesis de Robert Crumb nas mãos, pronto pra ser lido. Um Crumb tão poderoso como quase sempre, ao que tudo indica.

Gênesis (Conrad) é mais uma oportunidade – a melhor, talvez, pois o álbum mereceu divulgação inédita nessas bandas - para o reconhecimento desse mestre dos quadrinhos que produziu obras essenciais pra quem gosta do gênero ou ainda nem tanto.

Abaixo, aproveitando a ocasião e como tira-gosto à leitura do Gênesis, sugerimos três Crumbs de boa cepa.  

Fritz, the Cat – Robert Crumb (Conrad)

Um gato brigão, preguiçoso e que adora sexo. Símbolos da contracultura nos EUA dos anos 60, as histórias de Fritz contém o universo daquele momento recheado de drogas, sexo e rebeldia contra os padrões da sociedade produtivista, um caldeirão caótico e irônico. Fritz levou o cartunista à notoriedade e a sentir pela primeira vez o assédio da indústria cultural. Mantendo uma notável coerência, Crumb não teve dúvidas e matou o personagem quando ele estava no auge da popularidade – a história em que Fritz é morto por uma avestruz inclusive está neste volume. Assim como estão as histórias que Crumb produziu ainda na adolescência (o material do álbum vai de 1961 a 1971).

Mr. Natural – Robert Crumb (Conrad)

Primeiro personagem de Crumb a ter uma revista própria, o velho, alegre e barbudo Mr. Natural vaga pelos Estados Unidos distribuindo conselhos cercado de discípulos. Se a princípio se assemelha a um charlatão que só busca dinheiro, por outro parece alguém que alcançou certa sabedoria e encara as coisas com leveza envolvendo-se com figuras atormentadas como Flakey Foont e Shuman, the Human. Crumb escreveu uma pequena biografia para seu personagem que, entre tantas aventuras, teria inventado um remédio milagroso, sido músico de uma famosa big band e taxista no Afeganistão. O certo é que nos quadrinhos deste álbum está toda a irreverência de Crumb, sua crítica ácida ao americano médio, a ironia em relação ao flower power e seu despudor característico, longe de qualquer politicamente correto.

Zap Comix – Vários autores (Robert Crumb, S. Clay Wilson, Rick Griffin, Victor Moscoso, Manuel Spain Rodiguez, Gilbert Shelton, Robert Williams, Paul Mavrides) (Conrad)

Coletânea dos 15 números da revista Zap Comix (1967-1998), que chegou a vender centenas de milhares de exemplares de algumas de suas edições. Sempre fora do esquema da grande indústria do entretenimento, negando continuamente as tentativas de cooptação, a Zap se tornou escola e referência para o universo underground surgido nos anos 60 nos Estados Unidos. A Zap no. 1 foi totalmente desenhada por Robert Crumb, assim como a no. 0, que saiu posteriormente. Na seqüência foram agregados os demais cartunistas.

Bastante desigual, neste volume sobressai a figura de Crumb, que alia a forma ao conteúdo. Alguns, como Griffin e seu psicodelismo, parecem agora bastante datados. Outros, como Moscoso, são estilistas do desenho, mas falta força. Ainda assim, destaco S. Clay Wilson (pela irreverência como na divertida história do encontro de piratas gays com piratas lésbicas) e Gilbert Shelton (com o seu javali-maravilha). Nas quatro últimas histórias da coletânea está retratada a desavença entre os artistas, que tem como um dos membros-chave Crumb, para quem não fazia mais sentido levar adiante uma experiência que considerava esgotada – isso rende ofensas entre alguns deles. A velha Zap acabou em 1998.

Vale recordar, ainda, o depoimento que nos deu há dois anos o Allan Sieber a propósito do livro “Bob & Harv – dois anti-heróis americanos”, também da Conrad:  “Pra quem gosta de quadrinhos para adultos não débeis mentais (categoria em extinção hoje em dia, especialmente depois do lançamento do 14º filme do Homem-Aranha), esse livro é um prato cheio. Todas frustrações do roteirista e perdedor Harvey Pekar no traço classudo de R. Crumb, um dos inventores do gênero do quadrinho autobiográfico. Na América de Pekar  – e em todo mundo, sejamos realistas – não há lugar para quem não tem o bronzeado certo, o carro certo e não puxa o saco das pessoas certas. Só resta odiar e reclamar, coisas que os dois fazem com maestria”.

A rua das livrarias

Postado em Livreiro, Lugares em 19/10/2009 por Daniel

Placa

Por Daniel Louzada

A rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, onde hoje fica a Saraiva Mega Ouvidor, sempre foi reduto de livrarias. Dentre elas, destacaram-se pelo pioneirismo a tradicional Livraria Garnier, de meados do século XIX, e a filial da parisiense E. Mongie, inaugurada em 1832. Nessa época, as atividades de livreiro e editor se confundiam – a Garnier, comandada pelo francês Baptiste Louis Garnier (1823-1893) e por seu irmão Hippolyte, de 1844 a 1934 mandou imprimir em Paris e em Londres os livros que comercializava. A despeito desse fato, que rendeu aos franceses a antipatia das gráficas cariocas, a Garnier tornou-se referência no incipiente mercado de livros do Brasil centrando suas atividades na publicação de literatura ficcional – traduziu nomes fundamentais da literatura como Honoré de Balzac, Charles Dickens, Alexandre Dumas e Oscar Wilde e publicou grande parte dos romancistas brasileiros mais conhecidos da época.

Saraiva Ouvidor

Bibliófilos

Postado em Livros sobre livros em 18/10/2009 por Daniel

O bibliófilo

Por Daniel Louzada

Bibliofilia: amor aos livros; bibliófilo: amador ou colecionador de livros, segundo o dicionário. O termo pode assustar, mas os bibliófilos são figuras benéficas. Apaixonados por livros, por eles colocam em ação todo empenho. Colecionadores particulares, os bibliófilos não buscam qualquer livro, mas aqueles que possuam traços distintivos. Para um bibliófilo, o valor de um livro pode estar relacionado a sua raridade, ao fato de ser uma primeira edição ou possuir determinada encadernação, ilustração ou autógrafo. O Brasil teve grandes bibliófilos, gente como Rubens Borba de Moraes (1899-1986), Plínio Doyle (1906-2000) e José Mindlin (1914-). Sobre sua paixão pelos livros fala Rubens de Moraes: “Esse longo convívio com livros de toda sorte ensinou-me alguma coisa sobre eles, creio eu, mas ensinou-me, principalmente, que em matéria de livros tudo quanto sei só serve para mostrar o quanto ignoro. Não há dia que não aprenda alguma coisa. É, talvez, por isso que não me canso de manuseá-los, de folheá-los, de lê-los e de falar deles”.

O jovem, o andarilho, o suicida

Postado em Autores, Leituras em 17/10/2009 por Daniel

Por Daniel Louzada

Três indicações de Este Livro para um fim de semana de leituras.

 O jovem

O homem e sua hora

O homem e sua hora – Mário Faustino (Cia. das Letras) De vida breve – morreu aos 32 anos – e intensa atividade intelectual, o piauiense Mário Faustino ainda é pouco conhecido, mas sua obra é não só sofisticada como instigante. Nesse livro, poemas belíssimos como “Sinto que o mês presente me assassina”, “O mundo que venci deu-me um amor” e “Balada”.

O andarilho

Vida e época Michael K.

Vida e época de Michael K. – J. M. Coetzee (Cia. das Letras) Pobre, negro e com o lábio leporino, Michael K., um jovem sul-africano, vive sem entender o mundo que corre a sua volta e lhe ultrapassa como um  turbilhão. Como um bicho, é vítima da história. Grande personagem, grande livro de um grande escritor vivo.

O suicida 

Poemas - Maiakovski

Poemas – Vladimir Maiakóvski (Perspectiva) O poeta russo Vladimir Maiakóvski aliou inovação formal e engajamento revolucionário sem perder a sensibilidade. O drama da existência, o compromisso político e o amor aparecem na melhor forma em sua poesia. Antes do suicídio, compôs obras-primas como “A Sierguéi Iessiênin” e disse: “Dizem que em algum lugar/Parece que no Brasil/Existe um homem feliz”.

A história de amor de Dostoiévski

Postado em Autores, Literatura russa em 17/10/2009 por Daniel

Dostoievski e Crime e castigo

Por Daniel Louzada

Impelido por dívidas, o russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) escreveu ao mesmo tempo duas de suas principais obras, “Crime e castigo” e “O jogador”. A redação da primeira era feita pela manhã, a da segunda à tarde.

Para ajudá-lo na tarefa, o escritor contratou uma copista, Anna Giriegorievna Snitkine, então com 21 anos. Entre os dias 4 e 29 de outubro de 1866 Dostoiévski ditou a Anna “O jogador”.

Em 15 de fevereiro de 1867 casou-se com ela; três meses depois de pedir sua mão, quatro após conhecê-la.

Livros sobre livros: peça pelo número

Postado em Listas, Livros sobre livros em 15/10/2009 por Daniel

 book burger 2Do princípio às perspectivas das novas tecnologias, das variantes históricas ao caso brasileiro, do bibliófilo à livraria, da biblioteca ao livreiro, do escritor ao leitor. Abaixo um rápido menu de Este Livro sobre… livros.

  1. 10 livros que abalaram meu mundo – Vários (Casa da Palavra)
  2. A aventura do livro do leitor ao navegador – Roger Chartier (Unesp)
  3. A formação da leitura no Brasil – Marisa Lajolo (Ática)
  4. A leitura e seus lugares – Julio Pimentel Pinto (Estação Liberdade)
  5. Carta  sobre o comércio do livro – Denis Diderot (Casa da Palavra)
  6. Como falar dos livros que não lemos – Pierre Bayard (Objetiva)
  7. Como um romance – Daniel Pennac (Rocco)
  8. Guia de leitura – 100 autores que você precisa ler (L&PM)
  9. História da leitura – Steven Fischer (Unesp)
  10. História universal da destruição dos livros – Fernando Baéz (Ediouro)
  11. Leitores, espectadores e internautas – Nestor García Canclini (Iluminuras)
  12. Livros demais! – Sobre ler, escrever e publicar – Gabriel Zaid (Summus)
  13. O bibliófilo aprendiz – Rubens Borba de Moraes (Casa da Palavra)
  14. O Brasil pode ser um país de leitores? – Felipe Lindoso (Summus)
  15. O  livro no Brasil – Laurence Hallewell (Edusp)
  16. O negócio dos livros – como as grandes corporações decidem o que você lê – André Schiffrin (Casa da Palavra)
  17. Para ler como um escritor – Francine Prose (Jorge Zahar)
  18. Shakespeare and Company – Uma livraria na Paris do entre-guerras – Sylvia Beach (Casa da Palavra)
  19. Ter e manter – Philipp Blom (Record)
  20. Uma história da leitura – Alberto Manguel (Companhia das Letras)

Dois autores falam sobre seus livros.

Livros Demais! – “Existem livros demais. Se alguém se dedicasse a ler apenas os títulos de todos os livros publicados, passaria uma vida sem terminar. Mas livros demais são também livros de menos, pois sempre há algo de novo a dizer com novos livros. O que falta mesmo é a oportunidade de ter o “encontro feliz” entre o livro e seus leitores, que enriquece o leitor e dá sentido ao que o escritor quis dizer.” Gabriel Zaid

O Brasil pode ser um país de leitores? – “Sim! É mentira que o brasileiro não gosta de ler. O que falta são meios de acesso ao livro e à leitura. Com políticas públicas que melhorem a quantidade e a qualidade das nossas bibliotecas públicas, o brasileiro lerá mais. O acesso à cultura é um direito da cidadania e as bibliotecas são tão importantes quanto escolas e hospitais.” Felipe Lindoso

Onde vivem os monstros

Postado em Lançamentos, Literatura infanto-juvenil em 14/10/2009 por Daniel

PTbannersite_monstros

Por Daniel Louzada

O Dia das Crianças já passou, mas o mês de outubro ainda reserva uma grande novidade para os pequenos. No próximo dia 19 será lançado no Brasil o clássico norte-americano “Onde vivem os monstros”, de Maurice Sendak (Cosac Naify).

Escrito em 1963, o livro foi um marco na linha dos livros infantis ilustrados e desde lá já vendeu mais de 20 milhões de exemplares, sendo vencedor de alguns dos principais prêmios do gênero como o Hans Christian Andersen e o Astrid Lindgren.

A trama é a seguinte: o menino Max está vestido com sua fantasia de lobo fazendo a maior bagunça em casa e por isso é mandado para o quarto sem jantar. Inconformado, ele se transporta para uma floresta e num barquinho chega à ilha onde vivem os monstros. Rapidamente, Max se torna rei do lugar e comanda uma bagunça ainda maior junto com seus novos amigos. No meio da selvageria e de um mundo sem regras, entretanto, algo muda no garoto.

O lançamento tem o forte mote do filme homônimo a sair pela Warner Bros. em janeiro de 2010 com direção de Spike Jonze, o mesmo de Quero ser John Malkovich. Fora isso, será lançado um game ainda em outubro e, com a febre do filme, não deve demorar muito para as pelúcias dos monstros e de Max, sucesso nos EUA, também chegarem ao Brasil.

O livro sai com tiragem de 10 mil exemplares em edição caprichada com capa dura em tecido. O preço será 49,00 (um pouco caro para as 40 páginas, é verdade).

Um não ganhador do Nobel

Postado em Autores em 09/10/2009 por Daniel

Amos OzPor Luciana Rede

Desisti de opinar sobre quem ganhará o Nobel. O ganhador quase nunca aparece nas listas!

Tenho vários amigos que leram Hertha Miller e gostam muito, mas eu particularmente nunca li. Leremos e postaremos em breve!

Amos Oz. Escritor israelense nascido em 1939, participou da Guerra dos Seis Dias e da Guerra do Yom-Kippur.

É famoso por sua militância em favor da paz. E fundou o movimento Paz Agora.

Já veio ao Brasil participar da Flip <www.flip.org.br>.

Começou a escrever contos ainda na faculdade e é dono de uma prosa fluida e limpa.

Seus livros e contos são muito diversos entre si. Prosa poética, biografia social, literatura infanto juvenil…

Caixa Preta

Foi publicado em 2003 e não apresenta uma narrativa linear. É a chamada narrativa epistolar, em formato de cartas.

Toda família tem seus segredos e revelações, e aí está a analogia com o título e com uma relação amorosa desfeita.

Ilana, ex-mulher de Alex Gideon, intelectual famoso mundialmente, cujo divórcio foi escandaloso.

Ilana construiu outro relacionamento com Michel Sommo, um fanático religioso.

Existe o filho de Ilana e Alex, Boaz, adolescente sensível com problemas de violência.

As cartas entre eles tem um tom ora cômico, ora dramático e a maestria de Oz é fazer com que o leitor já identifique de quem é a carta já na primeira linha.

Gideon, com sua retórica acadêmica; Ilana mostra nas missivas sua ótima educação e gosto pela literatura russa; Michel, seu fanatismo e idéias extremistas.

Boaz deixa seus bilhetes com muitos erros e sinceridade comovente.

Temperando estas cartas temos o advogado do ex-casal, que nos tira da realidade com seus telegramas shakespeareanos.

É um romance temperado, diferente, erótico, poético e engraçado, e que ao mesmo tempo mostra um panorama social, político e religioso muito abrangente.

É um livro que após lido dificilmente será esquecido!

Clássicos: perdendo o medo

Postado em Textos em 06/10/2009 por Daniel

laurence6-44391

Por Daniel Louzada

Clássico. Para alguns a palavra assusta, soa como sinônimo de algo chato. O certo é que ela atravessa a arte em geral, não se refere apenas a alguns livros. Assim, por exemplo, há também discos e filmes clássicos.

Mas por que essas obras se distinguem em meio a tantas outras, afinal? Por que se diz que elas são essenciais na formação do leitor? Por que não podem faltar nas livrarias? A seguir, o esboço de algumas respostas com o auxílio do italiano Italo Calvino, autor de “Por que ler os clássicos” (Cia. das Letras).

“Os clássicos são livros que, quanto mais pensamos conhecer por ouvir dizer, quando são lidos de fato mais se revelam novos, inesperados, inéditos”.

Os clássicos são essenciais porque remetem ao que de fundamental foi produzido em literatura pelo homem até hoje, quer pela inovação formal, profundidade temática ou influência social. Esses livros foram consagrados por resistirem aos anos, por serem ricos em significados, por comunicarem a sucessivas gerações de leitores e críticos (embora não haja limites de tempo e origem para a definição – há livros que “quase” já nascem clássicos – em geral os clássicos demoram para se consolidar enquanto tal). Um clássico oferece a oportunidade de contínuas leituras ao dizer mais do que demonstra à primeira vista.

“O rendimento máximo da leitura dos clássicos advém para aquele que sabe alterná-la com a leitura de atualidades numa sábia dosagem”.

Essa conversa pode levar a um velho medo: seriam esses livros demasiado grandes para leitores mortais? Ora, é possível ler, ao mesmo tempo, livros com pretensões e livros para o simples divertimento. O que não devemos é nos sonegar a possibilidade de conhecer também essas obras. Há clássicos para todos os gostos e em todos os gêneros. O clássico é uma evolução dentro do gênero, o ponto alto de um gênero que tem, por sua vez, estágios intermediários e básicos. 

As palavras soam repetitivas quando nos referimos aos clássicos. O melhor é ir à leitura: encontrar um grande livro é descobrir um mundo novo.

“Que não se pense que os clássicos devem ser lidos porque ’servem’ para qualquer coisa. A única razão que se pode apresentar é que ler os clássicos é melhor do que não ler os clássicos”.

 

Erros de avaliação (ou como certos clássicos também podem ser difíceis para grandes leitores)

O crítico Luis Augusto Fischer cita uma série de casos em que editores e nomes consagrados da literatura erraram feio nas avaliações sobre clássicos que surgiam.

“O venerável Marcel Proust precisou pagar pela edição das centenas de páginas de ‘Em busca do tempo perdido’, porque sua obra foi rejeitada simplesmente por todos os editores buscados. Um chegou a escrever: ‘Quebro a cabeça e não consigo ver por que um sujeito deveria precisar de 30 páginas para descrever como ele se vira na cama antes de ir dormir’”.

Já o poeta Ferreira Gullar falava na década de 50 que não conseguia passar da página 70 do “Grande sertão: veredas” porque a partir dali o livro se configurava como “uma história de cangaço contada para linguistas”.

Como se vê aqui, na literatura, o tempo se encarrega sabiamente de tudo.

Enquete: Philip Roth será o Nobel 2009

Postado em Autores, Enquetes em 04/10/2009 por Daniel

Philip Roth

Encerrada a votação da nossa enquete sobre o favorito para ganhar o Nobel de Literatura 2009. Para 36% dos leitores de Este Livro, o vencedor será um dos eternos candidatos ao prêmio, o estadunidense Philip Roth.

Editado no Brasil pela Companhia das Letras, Philip Roth (1933) é talvez o maior escritor norte-americano da atualidade. Seu primeiro livro, “Adeus, Columbus”, é de 1959. De lá pra cá, publicou muitas outras obras – “O complexo de Portnoy”, o romance mais conhecido, saiu em 1969.

Professor de literatura até 1992, Roth hoje vive recluso em um sítio. Dessa data em diante se dedicou exclusivamente à literatura e lançou títulos importantes como “O teatro de Sabbath” e os que compõem a “trilogia americana”: “Pastoral americana”, “Casei com um comunista” e “A marca humana”.

A ficção de Roth está bastante ligada à história contemporânea dos Estados Unidos, abordando desde o macarthismo até o escândalo sexual do governo Clinton. Da mesma forma, é marcada por um peculiar humor ou certa ironia pesada e contém alguns traços autobiográficos.

Será dessa vez que Roth leva o Nobel? Ou será a hora de outro eterno candidato, o peruano Mario Vargas Llosa, segundo colocado nas intenções desse blog com 32% dos votos? É aguardar pra ver.

Sim, e além dos que citamos (5% apostaram em Thomas Pynchon e ninguém em Joyce Carol Oates e Carlos Fuentes – 27% disseram que nenhum deles será o vencedor) há outros cogitados para o prêmio que vale registrar aqui: o israelense Amoz Oz, os italianos Antonio Tabucchi e Claudio Magris, a argelina Assia Djebar, o holandês Cees Nootebom e o japonês Haruki Murakami.

Bibliofilia, bibliomania: Nunca te vi, sempre te amei

Postado em Cinema, Livreiro, Livros sobre livros em 03/10/2009 por Daniel

84 Imagens 2

Por Luciana Rede

Os amantes de livros conhecem estes termos e felizmente hoje existem muitos livros (e filmes!) disponíveis no mercado sobre este assunto!

É claro que ESTE LIVRO terá uma seção de livros sobre livros!

Para inaugurar esta “coluna”, poderíamos colocar uma lista com 100 livros, mas apaixonados como somos, vamos iniciar com um livro que deu origem a um filme que é uma ode aos livros.

O filme Nunca te vi, sempre te amei. Do original 84 Charing Cross Road, do diretor David Hugh Jones, filmado em 1987 com Anthony Hopkins no papel do livreiro inglês Frank Doel e Anne Bancroft como a escritora americana Helene Hanff. Judi Dench faz o papel da mãe do livreiro.

O livro não está mais disponível em português. Teve uma edição nacional em 1988, esgotada, que ainda é encontrada em sebos. O original em inglês pode ser encomendado nas livrarias.

O livro traz as cartas (na íntegra) entre a escritora e o livreiro.

A narrativa do filme tem por base estas cartas e mostra o início da amizade que se intensifica ao longo de duas décadas entre duas pessoas muito diferentes, Helene, mal humorada e Frank, discreto e delicado. A busca de livros raros, o amor mútuo pelos livros e pela literatura e a atmosfera da livraria são alguns dos sabores deste filme.

Tem como pano de fundo alguns fatos históricos como a Segunda Guerra, que muito refletiu na Inglaterra (Helene, por exemplo, mandava alimentos aos funcionários da livraria).

O emocionante é que essa história é real e tem um final surpreendente.

Um filme de mais de 20 anos que se mantém atemporal para os admiradores de livros.

Já assistiu? Comente abaixo!

Ainda não?  Corra e assista!!!

A edição original e a brasileira trazem as cartas entre Frank e Helene

A edição original e a brasileira trazem as cartas entre Frank e Helene

Os contos de Tchekhov

Postado em Autores, Literatura russa em 03/10/2009 por Daniel
Tchekhov e Tolstoi 2

Dois gigantes da literatura russa: Tchekhov e Tolstoi

Por Luciana Rede

Os contos são muito apreciados por sua concisão.

O brasileiro Machado de Assis, o americano Edgar Alan Poe, o argentino Jorge Luis Borges, o italiano Italo Calvino e o francês Guy de Maupassant são alguns exemplos.

Muito apreciado por suas peças como “A Cerejeira”, “Três Irmãs” e “A Gaivota”. Escreveu também novelas e romances. Seus contos estão sendo descobertos pelos leitores brasileiros através de traduções primorosas. Prefira traduções mais atuais, a maioria é direta do russo (as traduções antigas vinham do francês).

Podemos encontrar seu nome como Tchecov, Tchekhov ou Tchekov. O motivo é que o nome próprio também é traduzido, pois o original é, em cirílico, Антон Чехов.

Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904) foi um homem à frente de seu tempo e escrevia sobre o cotidiano como ninguém. Não escrevia sobre a moral do povo e sim sobre a simplicidade da vida e a grandeza humana. Seus contos são modernos e não seguem a narrativa linear de começo-meio-fim. Os acontecimentos são jogados e são quase visões instantâneas. É considerado um dos mestres do conto moderno.   

Estudou medicina e tratava de pacientes com tuberculose. Trabalhou em causas humanitárias a favor do povo russo, que vivia em estado de pobreza absoluta causada pela fome e pelo frio.

Viveu vários romances e por fim se casou em 1901 com a atriz alemã Olga Knipper, com quem manteve longa correspondência em tão poucos anos. Estas cartas são encontradas com muita facilidade em coletâneas de cartas de amor.

Nunca deixou de escrever e a literatura era sua paixão. À medida que o tempo passava, seus contos se tornavam mais curtos.

Contraiu tuberculose e foi para a Alemanha encontrar a esposa. Se é possível dizer assim, sua morte foi poética, pois sendo médico conhecia os sintomas como ninguém. Pediu uma taça de vinho a Olga, brindou e bebeu com ela e se foi calmamente aos 44 anos.

Pegue qualquer livro de contos do autor, abra em qualquer conto e leia! Inesquecível!

Promoções Este Livro já tem ganhadores

Postado em Promoção em 01/10/2009 por Daniel
Nossas duas primeiras promoções já tem seus resultados.

Na Promoção 1, destinada aos leitores não-colaboradores da Saraiva e Siciliano, os ganhadores foram:

Kit 1: Débora Rocha, de Porto Alegre-RS

Kit 2: Felipe Lima, de Sorocaba-SP

Já na Promoção 2, destinada aos leitores colaboradores da Saraiva e Siciliano, os ganhadores foram:

Kit 1: Patrícia Gama (Mega Paralela – Salvador)

Kit 2: Alexandre Amaral (Mega Salvador Shopping)

Aos vencedores parabéns e boa leitura.

Promoção 2 – ganhe livros da Biblioteca Saraiva

Postado em Promoção em 29/09/2009 por Daniel

Mulheres piscina

Promoção válida somente para os leitores colaboradores da Saraiva e Siciliano.

Os 2 primeiros leitores colaboradores que comentarem este post citando o título de três poemas que fazem parte de “A rosa do povo” levam pra casa um kit com os seguintes livros da Biblioteca Saraiva (Record): 

Kit 1: Do amor e outros demônios – Gabriel García Márquez / A peste – Albert Camus / A rosa do povo – Carlos Drummond de Andrade

Kit 2: O pêndulo de Foucault – Umberto Eco / Sidarta – Herman Hesse / São Bernardo – Graciliano Ramos

Importante

1) Escreva seu nome completo e loja ou unidade a que pertence no comentário.

2) A distribuição dos kits será pela ordem do acerto, ou seja, quem acertar primeiro leva o kit 1 automaticamente.

3) Entraremos em contato com os ganhadores em até dois dias após a definição da promoção.

Promoção 1 – ganhe livros da Biblioteca Saraiva

Postado em Promoção em 29/09/2009 por Daniel

Modelos equilibrado

Promoção válida somente para os leitores não-colaboradores da Saraiva e Siciliano.

Os 2 primeiros leitores não-colaboradores que comentarem este post citando corretamente a última frase de “O grande Gatsby” levam pra casa um kit com os seguintes livros da Biblioteca Saraiva (Record): 

Kit 1: O amor nos tempos do cólera – Gabriel García Márquez / O estrangeiro – Albert Camus / Antologia poética – Carlos Drummond de Andrade

Kit 2: O grande Gatsby – F. Scott Fitzgerald / O lobo da estepe – Herman Hesse / Angústia – Graciliano Ramos

Importante

1) Escreva seu nome completo no comentário.

2) A distribuição dos kits será pela ordem do acerto, ou seja, quem acertar primeiro leva o kit 1 automaticamente.

3) O frete de envio dos kits será a cobrar.

4) Entraremos em contato com os ganhadores em até dois dias após a definição da promoção.

Biblioteca do jovem leitor

Postado em Literatura infanto-juvenil em 28/09/2009 por Daniel

Meninos rua paulo

Até o final da semana chega às lojas Saraiva e Siciliano uma seleção muito especial de livros infanto-juvenis. Escolhemos 20 títulos legais para crianças de 5 a 12 anos gostarem de ler.

Poesia fora da estante

Há de tudo um pouco, de clássicos do gênero como “A reforma da natureza”, de Monteiro Lobato, a contemporâneos como “Asa de papel”, de Marcelo Xavier.

Todos os livros terão descontos de 10% a 20% até 18 de outubro. Veja abaixo a relação completa.

E feliz Dia das Crianças!

 1.   A alma do urso – Gustavo Bernardo (Formato)

2.    A biblioteca mágica de Bibbi Bokken – Jostein Gaarder (Cia. das Letrinhas)

3.    A bolsa amarela – Lygia Bojunga (Casa Lygia Bojunga)

4.    A droga da obediência – Pedro Bandeira (Moderna)

5.    A princesinha medrosa – Odilon Moraes (Cosac Naify)

6.    A reforma da natureza – Monteiro Lobato (Globo)

7.    Asa de papel – Marcelo Xavier (Formato)

8.    Bisa Bia, Bisa Bel – Ana Maria Machado (Salamandra)

9.    Cacoete – Eva Furnari (Ática)

10.  Chapeuzinho Amarelo – Chico Buarque (José Olympio)

11.  Emília no País da Gramática – Monteiro Lobato (Globo)

12.  Fiz voar o meu chapéu – Ana Maria Machado (Formato)

13.  Flicts – Ziraldo (Melhoramentos)

14.  Menina Nina: duas razões para não chorar – Ziraldo (Melhoramentos)

15.  Minhas memórias de Lobato – Luciana Sandroni (Cia. das Letrinhas)

16.  O menino do dedo verde – Maurice Druon (José Olympio)

17.  Os meninos da rua Paulo – Ferenc Molnar (Cosac Naify)

18.  Ou isto ou aquilo – Cecília Meirelles (Nova Fronteira)

19.  Poesia fora da estante – Vera Aguiar (Projeto)

20.  Viagem pelo Brasil em 52 histórias – Sílvia Salerno (Cia. das Letrinhas)

Três argentinos iluminam o livro e a leitura

Postado em Autores, Literatura argentina, Livreiro em 27/09/2009 por Daniel
Por Daniel Louzada

Os sentimentos dúbios em relação aos livros, à leitura e à literatura, por vezes a mitificação de seus poderes circulam há muito tempo.

A literatura em sentido estrito, ou seja, a literatura ficcional, poética, dramática e ensaística está repleta de exemplos sobre os possíveis benefícios ou malefícios que a leitura causaria. Eles demonstram que a humanidade alimenta uma espécie de relação de amor e ódio com o livro. Para o bem ou para o mal, o livro tem uma grande força simbólica.

Julio Cortázar

Julio Cortázar

Em uma pequena narrativa, o argentino Julio Cortázar fala sobre um mundo abarrotado de livros – os livros se reproduziriam de tal forma que tomariam conta de todos os espaços, não haveria mais rios ou casas, tudo sucumbiria diante deles. Emma Bovary, personagem central da obra-prima do francês Gustave Flaubert, teria cometido adultério em razão da má influência exercida pela leitura de folhetins. Para o grego Platão, na cidade ideal, os poetas deveriam ser banidos porque disseminariam a mentira, falseariam a realidade. O assassino de John Lennon alegou ter sido perturbado pela leitura de “O apanhador no campo de centeio” antes de cometer o crime. Dom Quixote enlouqueceu por ler demais, por ler irreais romances de cavalaria. E o senso comum diz: quem lê muito é anti-social ou estaria perdendo alguma coisa, deixando de viver.

Che Guevara

Che Guevara

Já em uma das mais antigas narrativas, vinda da tradição oral árabe, a literatura é o instrumento para vencer a morte – Scherazade, contando suas histórias que se ligam umas as outras por mil e uma noites, supera a sentença capital imposta pelo sultão Schahriah. Em vários campos de concentração nazistas, em que os prisioneiros viviam em condições sabidas e preocupados em comer pelo menos uma fatia de pão por dia, foram encontrados livros, obviamente traficados com perigo para os alojamentos já que as pessoas ao entrarem nos campos eram despidas de todos os pertences. O caso do argentino Ernesto Che Guevara é emblemático de situações-limite: exaurido na fuga pela selva boliviana, Che, uma pálida lembrança do vigoroso guerrilheiro quando foi capturado, já sem sapatos conservava uma bolsa com seu diário e alguns livros.

Longe do horror que Cortázar provoca no seu “Fim do mundo do fim”, numa livraria há valiosas amostras de algo que só traz perspectivas, sobretudo às épocas de escassas luzes. Todo conhecimento é fruto do trabalho de espíritos insatisfeitos. Buscar compreender com base em diferentes visões e novas experiências é o caminho para chegar a conclusões (ou dúvidas) próprias e, portanto, pensar com a própria cabeça. A livraria é o espaço para isso, o lugar da universalidade, do confronto e da concordância; os livreiros, os artífices desse lugar.

Ricardo Piglia

Ricardo Piglia

E há um livro imprescindível sobre isso tudo. Para leitores e livreiros. Para ser lido esta noite. O último leitor (Cia. das Letras), do argentino Ricardo Piglia, é a chave de ouro das lições acima e, especialmente, dessa tríade.

A função da arte

Postado em Autores, Literatura uruguaia, Textos em 27/09/2009 por Daniel

Por Eduardo Galeano

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.

Viajaram para o sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

- Me ajuda a olhar!.

Em: O livro dos abraços – Eduardo Galeano (L&PM)

O preconceito na literatura

Postado em Literatura de entretenimento em 25/09/2009 por Daniel

leitor - pulp 2

Por Luciana Rede

Andamos pesquisando e percebemos que grande maioria dos blogs sobre livros elitiza os livros.

Livros são para todos e ESTE LIVRO não tem preconceito, pois livro bom não é aquele que é difícil de ler e que traz linguagem conotativa acentuada.

Sem querer poetizar demais, os livros também tem o papel de mudar a vida de uma pessoa.

Não dá pra dar de presente Ulisses do Joyce para o adolescente que não tem o hábito de ler e nem Crime e Castigo para aquela senhora que começou a ler no mês passado.

Existe uma grande diferença entre a literatura clássica e contemporânea, aquela que sobreviveu a séculos e é admirada por intelectuais e admiradores da “boa literatura” e objeto de estudo nas Universidades.

Não podemos negar a presença da literatura de entretenimento, a literatura “comercial” erroneamente chamada de best seller.

Como diferenciar? O best seller é simplesmente o mais vendido, de O Segredo, Saramago, a Bíblia e Chico Buarque.

Os livros de entretenimento geralmente são escritos em forma de romances, com parágrafos curtos e muitos diálogos.

O livro de entretenimento é diagramado de forma que facilite a leitura e não canse o leitor, ou seja as letras são com fontes maiores e os espaçamentos entre as linhas e as margens são bem grandes.

Dan Brown é um deles.

A maioria já leu Código da Vinci e não assume.

Por que vendeu tanto?

Por que associou esta linguagem com o ritmo dos livros de espionagem e informações sobre história e arte.

Mas não é só de Dan Brown que vive a literatura de entretenimento.

Na verdade ela é muito mais abrangente do que parece.

Machado de Assis e Jorge Luis Borges amavam literatura policial, que por sinal tem como marco fundador um conto de um certo Edgar Alan Poe.

E o pulp? O cult do cult! Também entretenimento.

Vamos reler A Cartomante do Machado e procurar os traços de trama policial?

Aqui também entra a chamada chick lit, a comédia feminina, de Bridget Jones, Becky Bloom e das meninas do Sex and the City.

Tem também a literatura de senhora, os dramalhões que descendem de Julia, Sabrina e Bianca.

Aqui entram os chamados suspenses legais, que a trama ocorre com o advogado bonitão que resolve tudo, as tramas de espionagem e os deliciosos históricos. 

E suspense e terror? Tudo entretenimento.

Abaixo o preconceito!!!!

Por que não podemos ler livros somente pra passar o tempo?

O silêncio dos livros

Postado em Conectado em 23/09/2009 por Daniel

marilyn

O Silêncio dos Livros - http://www.osilenciodoslivros.blogspot.com – traz apenas imagens: são pinturas, desenhos e fotos de pessoas célebres e desconhecidas lendo ou com livros.

alfred

Pela originalidade das escolhas, entra com mérito para a nossa lista de indicados, então.

O espírito da Amoeba Music

Postado em Lugares, Música, Vídeos em 23/09/2009 por Daniel

Por Daniel Louzada

Este é um blog de livros, mas não só. Então aqui vai o endereço de uma loja de música muito legal, a Amoeba Music: www.amoeba.com

A Amoeba possui três lojas nos Estados Unidos - San Francisco, Los Angeles e Berkeley – e seu lema é algo como “aqui se encontra qualquer cd”. A julgar pelos depoimentos de quem já procurou raridades em suas prateleiras a promessa é cumprida. As lojas são gigantescas e lotadas de cds, dvds, vinis, posters e de tudo há novo e usado, música do mainstream e daquela banda obscura que não se encontra em mais de dois ou três lugares.

Alguns torcem o nariz para o fato das lojas não serem um primor estético. Verdade, são quase feias, a comunicação visual não é das mais eficazes, o conforto está longe do ideal, algumas coisas estão no limite do tosco. Mas o que mais importa é o velho e bom espírito que alia acervo e relacionamento, o que faz a Amoeba lotar mesmo em um momento em que a indústria fonográfica enfrenta dificuldades.

Outra coisa bacana que a Amoeba promove bem são os shows dentro de suas lojas. O público fica entre as gôndolas, não há muita produção. A agenda é intensa e contempla todos os gêneros – nesse mês, por exemplo, a nova formação dos Mutantes se apresentou na filial de Los Angeles.

Acima, pra dar uma idéia da influência e do clima da loja, postamos um vídeo do Paul McCartney. O beatle deu as caras por lá com direito a presença de Ringo Star.

Rubem Fonseca e João Ubaldo inéditos

Postado em Lançamentos, Literatura brasileira em 22/09/2009 por Daniel

Sai na primeira quinzena de novembro o novo livro de Rubem Fonseca, ainda sem título definido. Após a troca da Cia. das Letras pela Agir, Fonseca terá sua obra completa reeditada. Os dois primeiros volumes são “Lúcia McCartney” e “Os prisioneiros”, ambos revisados e agora com posfácio e outras informações adicionais.

Antes, em outubro, a Nova Fronteira lança o novo livro de João Ubaldo Ribeiro, “O albatroz azul”. A próxima edição da Bravo trará livro e autor em destaque. Da trama o que sabemos até agora é o seguinte: “Um homem diante da morte e da vida em busca de mudar seu destino”.

Tolkien, Lewis, García Lorca e Pirsig na nova fornada da Biblioteca Saraiva

Postado em Biblioteca Saraiva em 21/09/2009 por Daniel

 Biblioteca Saraiva - Pirulito para loja

Por Daniel Louzada

Em duas semanas as lojas Saraiva e Siciliano receberão os novos títulos negociados para a Biblioteca Saraiva, uma iniciativa inédita promovida em conjunto pela Livraria Saraiva e algumas editoras para oferecer por baixo preço obras que fazem parte da formação básica do leitor de literatura de ficção e poesia.

Dessa vez, a remessa é de livros da WMF – Martins Fontes. Escolhemos 8 títulos nas suas edições originais para compor a coleção, somando-se assim aos 12 da Cosac Naify e aos 28 há pouco enviados da Record.

Nessa leva, mantém-se a dupla que faz o sucesso da ação: título clássico + preço imbatível (até 60% de desconto sobre a capa). A autores já bem vendidos como J. R. R. Tolkien e C. S. Lewis somam-se outros livros referenciais de fundo de catálogo como a “Antologia poética” do García Lorca, o romance cavalheiresco de Tristão e Isolda e o hit da década de 70, “Zen e a arte da manutenção de motocicletas”.

Só tem clássico. Além de ótima oportunidade para sugestão e presente, a Biblioteca Saraiva também é a chance de ler aquele livro, aquele que todo mundo fala, agora sem a desculpa de que tá caro…

 

Antologia poética – Federico García Lorca (De: 49,90 Por: 29,90)

Contos inacabados – J. R. R. Tolkien (De: 68,10 Por: 39,90)

As crônicas de Nárnia – C. S. Lewis (De: 93,20 Por: 49,90)

O Hobbit – J. R. R. Tolkien (De: 58,40 Por: 33,90)

O romance de Tristão e Isolda – Joseph Bedier (De: 30,80 Por: 18,90)

Roverandom – J. R. R. Tolkien (De: 37,80 Por: 22,90)

O Silmarillion – J. R. R. Tolkien (De: 64,00 Por: 38,90)

Zen e a arte da manutenção de motocicletas – Robert Pirsig (De: 65,10 Por: 39,90) 

Descubra André Sant’Anna

Postado em Autores, Lançamentos, Literatura brasileira em 21/09/2009 por Daniel

Inverdades

Por Daniel Louzada

Primeira hipótese: pouco importa quem seja o André Sant’Anna. Segunda hipótese: numa livraria, a sorte lhe sorri e você encontra um dos melhores escritores brasileiros da atualidade, o André Sant’Anna.

Não sei quando esse cara decidiu escrever como só o André Sant’Anna escreve: repetitivo, circular, desbragado, melancólico, cru, se utilizando de tipos exemplares do nosso cenário nacional-sentimental como alpinistas sociais, policiais torturadores, garotas que sonham com sexo e amor, garotos onanistas, vendedores com vida interior. Tudo é estereotipado, em tudo há solidão e fracasso, tudo é muito engraçado na sua claustrofóbica lógica interna.

Na primeira parte do seu penúltimo livro, Sexo e Amizade (Cia. das Letras), Amizade, composta de 23 escritos curtos, alguns desses tipos, quase sempre em monólogos, expõem seus mundos. Notáveis são as narrativas do evangélico que acredita no gozo dos prazeres após a morte e pela mesma razão abdica de torcer para o Corinthians, do taxista com saudades da ditadura e dos veranistas de uma praia paulista.

A segunda parte, Sexo, é uma novela em que personagens como O Negro, Que Fedia e O Executivo De Óculos Ray-Ban exercitam seus papéis sociais, taras, desejos sexuais e afetivos, suas necessidades de consumo.                                                        

Mundo engraçado esse do escritor André Sant’Anna, um escritor de verdade bem no meio da desgraça.

Sim, acima lembrei do penúltimo livro dele. Tudo porque o André Sant’Anna acaba de lançar Inverdades pela 7 Letras. E já é hora de ler esse cara.

Do autor: Amor (Dubolso, 1998), Sexo (7Letras, 1999), Amor e outras histórias (Cotovia, 2001) e O paraíso é bem bacana (Cia. das Letras, 2006).

Cia. das Letras anuncia lançamentos

Postado em Lançamentos em 21/09/2009 por Daniel

Por Daniel Louzada

Durante a Bienal do Rio (10  a 20.09), a Companhia das Letras apresentou seus lançamentos até o final do ano. Abaixo destacamos os principais títulos em que apostamos.

 

Outubro

Caim – José Saramago: Em seu novo romance, Saramago retoma a Bíblia, dessa vez o Velho Testamento, para abordar com a habitual ironia o confronto entre Deus e homem.

Segue a reedição da obra de Lygia Fagundes Telles: A noite escura e mais eu, Ciranda de pedra e Seminário dos ratos.

Importante também: Jimmy Corrigan – Chris Ware (quadrinho) e Naquele dia – Dennis Lehane (policial).

 

Novembro

Padre Cícero – poder, fé e guerra no sertão – Lira Neto: Grande aposta da Cia. das Letras, a biografia promete colocar novamente em discussão a figura do padre cearense Cícero Romão Batista (1844-1934). O autor recupera a trajetória do líder religioso e político desde a infância revelando fatos até então desconhecidos. Santo para uns, impostor para outros, atualmente cogita-se nos meios católicos a reabilitação de Padre Cícero, rejeitado pela hierarquia da Igreja quando vivo.

Cabeza de Vaca – Paulo Markun: Se há alguém a quem se possa chamar de “figuraça” é a Álvar Núñez Cabeza de Vaca. Conquistador espanhol do século XVI, o autor de “Naufrágios e Comentários” viveu tantas e tão inacreditáveis aventuras na América que estranha que ele não seja tão conhecido quanto alguns de seus contemporâneos.

Céus de origamis – Luiz Alfredo Garcia-Roza: Grande presença do último Encontro de Especialistas, onde esbanjou simpatia e disponibilidade, Garcia-Roza traz um novo caso do delegado Espinosa na sempre surpreendente Copacabana.

O maior espetáculo da Terra – Richard Dawkins: O autor volta a relacionar argumentos para sustentar o evolucionismo.

Barroco tropical – José Eduardo Agualusa: Estréia do escritor angolano na editora.

 

Dezembro

Danuza fazendo as malas 2 – Danuza Leão: São Paulo, Buenos Aires, Berlim e Londres são as cidades visitadas por Danuza em suas crônicas.

Importante também: Chico Buarque: canções , histórias – título provisório – Vários autores (contos) e O outro, o mesmo – Jorge Luis Borges (poesia).

 

1º semestre de 2010

É no primeiro semestre de 2010 que a editora inicia a publicação da obra completa de Freud. Grande evento.

Juan Carlos Onetti, o mestre desencantado

Postado em Autores, Literatura uruguaia em 21/09/2009 por Daniel

Onetti 2

Por Daniel Louzada

É certo que raramente ouvimos falar de Juan Carlos Onetti (1909-1994). A circulação da obra do autor uruguaio desde sempre foi bastante restrita, a despeito da influência exercida sobre uma das mais importantes gerações de escritores latino-americanos, uma turma que inclui García Márquez e Julio Cortázar, e do estilo único de quem sabe escrever como poucos.

O relançamento de quatro obras de Onetti pela Planeta possibilita um novo acesso ao universo desencantado, cético e miserável que configura o espírito da ficção do escritor. Romances como “O estaleiro” ou novelas como “Para uma tumba sem nome” revelam um mundo em que personagens submersos em suas insignificâncias transitam entre a dureza da vida rotineira e os artifícios necessários à sobrevivência, senão a física, a mental. Larsen (ou Junta-cadáveres) é o modelo dessa linhagem maldita. Maldita, sim, mas nem por isso incomum.

As tramas de Onetti se passam, pelo menos desde a publicação de “A vida breve”, na cidade ficcional de Santa María, localizada em algum ponto do sul da América, entre Buenos Aires e Montevidéu. É curioso que, ainda na década de 50, a atmosfera que o autor cria seja bastante parecida com a que cidades como Montevidéu oferecem hoje a quem as visita: um possível cenário para Eu sou a Lenda 2.  Fora a piada, resta desolação.

Não há redenção possível para o homem em Santa María. Talvez por isso Onetti seja tão bom e atual.

 Títulos publicados em português e disponíveis no Brasil:

-          O poço / Para uma tumba sem nome (Planeta) – 1939/1959

-          A vida breve (Planeta) – 1950

-          O estaleiro (Planeta) – 1961

-          Junta-cadáveres (Planeta) – 1964

-          47 contos de Juan Carlos Onetti (Cia. das Letras)

Onze livros sobre futebol. Ou onze cerejas para o bolo

Postado em Listas, Livros sobre futebol em 21/09/2009 por Daniel

  

  1. Chuva de glórias – A trajetória do São Cristóvão de Futebol e Regatas (Pontes)
  2. Footballmania – Uma história social do futebol no Rio de Janeiro (Nova Fronteira)
  3. Futebol e guerra – Andy Dougan (Jorge Zahar)
  4. Uma história do futebol – Bill Murray (Hedra)
  5. A invenção do país do futebol – Mídia, raça e idolatria – Ronaldo Helal e outros (Mauad)
  6. Jogo de botão – Regras e táticas do futebol de mesa – Fred Mello (Ediouro)
  7. Nunca houve um homem como Heleno – Marcos Eduardo Neves (Ediouro)
  8. À sombra das chuteiras imortais – Nelson Rodrigues (Cia. das Letras) *esgotado
  9. O trauma da bola – João Saldanha (Cosac Naify)
  10. O universo tático do futebol – escola brasileira – Ricardo Drubscky (Health)
  11. Visão do jogo – Primórdios do futebol no Brasil – José M. dos Santos Neto (Cosac Naify)

  

Futebol ao sol e à sombra

Postado em Livros sobre futebol em 21/09/2009 por Daniel

 Garrincha 2

Por Daniel Louzada

Antes vistos com preconceito, tachados como maus de venda de antemão, mal escritos e produzidos ou tudo isso junto, os livros sobre futebol são cada vez mais publicados. Uma nova safra de títulos volta a abordar esse fenômeno social que desperta o interesse não apenas do fã, mas de um público amplo e diversificado. Até agosto de 2009 foram lançados mais de 100 novos títulos que tem o esporte como tema.

As crianças têm sido um dos alvos importantes para os editores brasileiros. Uma parte significativa dos lançamentos é destinada à gurizada como a série “Meu Pequeno”, da Belas Letras, um exemplo de sucesso nessa linha (assim como a mais antiga “O dia em que me tornei…”, da Panda). Aliando livros ilustrados com textos acessíveis sempre escritos por torcedores ilustres, a série vai muito bem: os dois últimos títulos são “Meu pequeno vascaíno”, da Fernanda Abreu, e “Meu pequeno tricolor”, do Evandro Mesquita. Há menos de um mês a editora Globo entrou nessa também e lançou quadrinhos de Corinthians e Flamengo assinados pelo Ziraldo.

Nesse universo de lançamentos, o Corinthians tem sido outra grande estrela. À boa fase nos gramados e com o centenário batendo à porta, corresponde uma enxurrada de novos livros. Mas não só. De modo geral, além dos títulos de ocasião, a memória do futebol brasileiro vem sendo resgatada seja através de obras panorâmicas ou da história de clubes e de seus personagens.

Aí estão incluídas as trajetórias de clubes como na coleção Camisa 13 da Ediouro (que teve títulos reimpressos e conta com textos muito bons como o do Flamengo, escrito pelo Ruy Castro, e o do Grêmio, pelo Eduardo Bueno), biografias de craques do passado como Didi (que acaba de ser reeditada pela Gryphus) e de figuras às vezes relegadas a segundo plano como goleiros e técnicos, coletâneas com os melhores de todos os tempos em cada clube – a Maquinária tem uma coleção bacana chamada “Os dez mais” que conta com volumes sobre Palmeiras e Internacional, entre outros – livros sobre camisas e escudos (ambos da Panda) e muitos etc.

Isso sem contar a vertente ensaística desde o clássico “O negro no futebol brasileiro”, de Mário Filho (Mauad), até “Veneno remédio”, de José Miguel Wisnik (Cia. das Letras) ou a linha humorística com livros de piadas, já que no futebol às vezes o mais importante não é ganhar mas sim ver o rival perder (série “Piadas pra sacanear…”, da Mauad e da Fivestar).

Pra superar a distância do futebol que às vezes algumas coisas reais ou imaginárias provocam, uma experiência muito legal – pra quem ainda não o fez – é visitar o Museu do Futebol, em São Paulo. Assim como alguns museus de clubes, o Museu do Futebol é uma alternativa não só para o fã, que lá encontra de tudo um pouco, mas também pra quem quer se divertir, viver a experiência futebol sem necessariamente ler todos os dados ou babar diante dos gols e objetos (embora nesse momento aconteça uma exposição muito interessante de camisas, botões e flâmulas chamada Mania de Colecionar). Nesse sentido, a reprodução das torcidas dos trinta maiores clubes brasileiros sob a arquibancada do Pacaembu é um ponto alto e emocionante.

Com o auxílio luxuoso do Hobsbawm – “E quem, tendo visto a seleção brasileira em seus dias de glória, negará sua pretensão à condição de arte?” – pergunto e finalizo: E quem negaria ao futebol, especialmente ao brasileiro, o seu devido lugar na livraria?

Futebol e literatura com Luis Fernando Verissimo e Flávio Carneiro no Entrelinhas: http://www.youtube.com/watch?v=_LdyOHpoi7w

Colecionador de livros de futebol na TV Curioso:  http://www.youtube.com/watch?v=6MW1zFPvgpk

Os direitos imprescindíveis do leitor

Postado em Listas, Textos em 21/09/2009 por Daniel

Por Daniel Pennac

  1. O direito de não ler.
  2. O direito de pular páginas.
  3. O direito de não terminar um livro.
  4. O direito de reler.
  5. O direito de ler qualquer coisa.
  6. O direito ao bovarismo.
  7. O direito de ler em qualquer lugar.
  8. O direito de ler uma frase aqui e outra ali.
  9. O direito de ler em voz alta.
  10. O direito de calar.

Em: Como um romance – Daniel Pennac (Rocco e L&PM)

A cidade e seu improvável livreiro

Postado em Livreiro, Textos em 21/09/2009 por Daniel

Por Roberto Gomes

Quando cheguei a Curitiba, em 1964, me senti em Nova York. Que cidade, eu me perguntava, teria tantas livrarias? Eu vinha de uma cidade sem livrarias.

Nesse circuito, algum tempo depois, eu procurava um livro de Arnold Hauser, História Social da Arte. Como não havia tradução brasileira, fui informado de que poderia encontrar uma edição em espanhol na livraria do Vignoles.

Era o nome do livreiro. Um sujeito esquisito, me advertiram.

A livraria ficava, se não me engano, no primeiro andar da esquina da Rua do Rosário com a Praça Tiradentes. Entrava-se por uma escada estreita, de madeira. Subi passo a passo, os degraus rangendo a lembrar um filme de terror. Ninguém. Prateleiras, livros, um balcão. Andei de um lado para outro, pigarreei, arrastei o pé no chão. Já estava desistindo, quando emergiu, por detrás do balcão, um sujeito que me perguntou:

- O que você quer?

Assim, sem rodeios, um golpe de direita no queixo. Era um homem careca, de cara monolítica e sobrancelhas tensas. Ele balançou o corpo – parecia não se conter dentro de si – uma das mãos na cintura e outra sobre o balcão. Repetiu a pergunta:

- O que você quer?

Naquela época eu era um tímido profissional, capaz de horas de mutismo e de silêncios abissais e intransponíveis. Mal consegui dizer:

- Procuro um livro…

Hesitei. Súbito, o nome do livro sumira de minha cabeça. O careca atacou:

- É claro que procura um livro. Mas qual é o livro?

- História Social da Arte, Arnold Hauser – lembrei, de soco.

Afastando-se ligeiramente, ele ergueu o tronco que inclinara para falar comigo. Retirou a mão que estava sobre o balcão, mantendo a outra na cintura e continuou, no estilo boxeador:

– E por que precisa deste livro?

Eis uma pergunta que eu não me fizera. Ou seja: queria ler, apenas isso. Já encontrara várias referências a ele em artigos, em livros, em jornais.

- Quero ler, murmurei.

- É claro, para que iria querer um livro, não é mesmo?

Ficamos os dois, olhos nos olhos, preparando o bote. Boxe puro. Temi que eu pudesse passar da timidez mórbida à agressividade mais desastrada, o que me acontecia na época. Por sorte, ele relaxou, ergueu os ombros, fazendo com que seu pescoço sumisse no meio deles, e estaqueou os braços sobre o balcão:

- Olhe, meu rapaz. Eu tenho o livro. Está ali, na prateleira ao lado da janela. Mas… – esperei pelo pior – …seu professor, ou seja lá quem lhe indicou este livro, não explicou uma coisa, provavelmente porque também não sabe.

E me disse que eu perderia tempo lendo aquele livro. Está na moda, comentou com alguma repugnância, todo mundo anda lendo, todo mundo indica, mesmo sem ter a menor noção do que se trata. Moda, compreende? Moda é moda. Acontece que é um livro teoricamente fraco, com uma visão tosca das relações entre sociedade e arte. O autor, esse Hauser, leu Marx e não entendeu nada.

E arrematou:

- Bom, o livro está ali. Se quiser comprar… Não aconselho.

Não comprei. Sumi escada abaixo.

Só fui ler o livro meses depois, comprado no sebo da Voluntários.

Em todos os casos, era outra Curitiba. Em qual das livrarias de hoje eu poderia encontrar um espécime raro daqueles: um livreiro que lia os livros que vendia, que tinha uma opinião a respeito deles – qualquer que fosse – e que, por discordância teórica e ideológica, preferisse não vendê-los a um estudante incauto?

Anos depois, me tornei amigo do Vignoles, quando ele já deixara de ser livreiro. Seguimos no estilo boxeador, como sempre, com diretos e cruzados de lado a lado. Uma grande figura. Um livreiro que sabia falar sobre os livros que vendia.

Era outra Curitiba. Talvez outro mundo.