O amor como trégua
Se pelo menos uma parte da arte, livros e filmes incluídos, evoca de alguma maneira histórias de amor, como já se disse, também é certo que forma e resultado variam. Há histórias de amor que derramam o idealizado desejo de triunfo e pacificação pelo encontro com o outro, e outras, mais contidas, fechadas no seu infernal círculo de angústia, abertas ao desencontro. Destas, memorável é o amor outonal de A trégua, do uruguaio Mario Benedetti, editado no Brasil pela Alfaguara.
Martín Santomé, prestes a completar 50 anos, leva uma vida sem brilho na Montevidéu do final da década de 50. Viúvo, tem três filhos que não lhe dão muita atenção. Seus dias são monótonos; sua única aspiração é a aposentadoria.
A rotina de Santomé tem uma pausa feliz ao conhecer Laura Avellaneda, mulher de 24 anos, sua nova funcionária. O encontro é cheio de exitações por parte de Santomé, homem seco e atormentado pela idade e implicações desta na relação com Avellaneda. Essa história de amor, trégua em uma vida obscura, vinga até que algo acontece, antes da confirmação total da união.
Santomé registra tudo no seu diário, forma em que o livro é escrito. Diário que se encerra no último dia de trabalho do personagem.
O Uruguai com o peso da estagnação e do comodismo é o pano de fundo da trama. As reflexões de Santomé sobre isso proporcionam passagens notáveis, o que exemplifica uma característica marcante da narrativa, seu humor melancólico.
Trechos
“A segurança de saber-me capaz de algo melhor colocou-me nas mãos o adiamento, que no fim das contas é uma arma terrível e suicida”.
“Aprendi a gostar desse monstro folclórico que é o Palácio Salvo. Não é por acaso que aparece em todos os postais para turistas. É quase uma representação do caráter nacional: rústico, insosso, exagerado, simpático. É tão, mas tão feio, que deixa a gente de bom humor”.
“Imagino que todo mundo sempre deve ter tido vontade de protegê-la. No entanto, não é tão indefesa, está bastante segura do que quer. Além disso, agrada-me que esteja segura. Tem certeza de que o trabalho a asfixia, de que nunca se suicidará de que o marxismo é um grave erro, de que eu gosto dela, de que a morte não é o fim de tudo, de que seus pais são magníficos de que Deus existe, de que as pessoas em quem confia nunca vão decepcioná-la. Eu não poderia ser assim tão categórico. Mas o melhor de tudo isso é que ela não se equivoca. Sua segurança lhe serve inclusive para espantar o destino”.
“Por isso sinto outra vez que o coração é uma coisa enorme que começa no estômago e termina na garganta”.
“Em algumas ocasiões, não posso captar as nuances que separam a inércia do desespero”.
Outros livros de Mario Benedetti editados no Brasil
A borra do café (Record)
Antologia poética (Record)
Correio do tempo (Alfaguara)
Gracias por el fuego (L&PM)
O amor, as mulheres e a vida (Verus)
Quem de nós (Record)

