Arquivos | Autores RSS feed for this section

Entrevista: Lori Foster

17 dez

(Originalmente publicado no Saraiva Conteúdo em 17.12.2012 – Por Andréia Silva)

Lori Foster, autora de Farsante

Lori Foster, autora de Farsante

Lori Foster é uma escritora norte-americana que já lançou dezenas de livros que misturam romance, suspense e sensualidade. Além disso, como ela mesma diz, tem um lado negro, com o qual publica seus títulos de fantasias urbanas.
 
A escritora, best-seller em listas como as dos jornais The New York Times e USA Today, é um dos nomes da nova série de livros Romances Saraiva, parceria entre a Saraiva e a Harlequin Brasil. Os autores escolhidos trazem histórias nas quais os ingredientes básicos são amor e sexo.
 
Pela coleção, Lori vai lançar o livro Farsante. A história gira em torno do detetive particular Dane Carter, que assumiu a identidade de seu irmão gêmeo para descobrir quem o assassinou. No entanto, acaba se envolvendo com a principal suspeita, Angel Morris.
 
Aproveitando o lançamento da coleção, Lori Foster, que diz gostar de escrever ao som de Kid Rock, falou sobre literatura e sua vida de escritora.
 
Leia a entrevista abaixo.
 
Como você cria suas histórias? O que lhe inspira?
 
Lori Foster. A vida me inspira. As pessoas e seus tipos únicos. Gosto muito de escrever sobre triunfos, sobre viver a vida e superar obstáculos para chegar a um final feliz. Penso que a maioria das pessoas entende que os problemas vão ocorrer – ninguém vive sem passar por momentos difíceis. Mas o modo como lidamos com isso é o que nos faz fortes. Gosto de colocar essas histórias no papel, e gosto mais quando elas fazem sucesso entre os leitores.
 
Você chegou a publicar de seis a dez livros em apenas um ano. É um número e tanto. Você se considera uma escritora obsessiva?

Lori Foster. Absolutamente. Sou uma pessoa melhor escrevendo. Mais relaxada e mais organizada. É como se, começando meu dia escrevendo, todo o resto se encaixasse. Não escrevo mais tantos livros agora porque meus títulos simples [ou seja, os não seriados] estão em maior número agora, então tenho muitas promoções e compromissos que reduzem meu tempo para escrever. Mas isso também impulsiona a minha criatividade, vai equilibrando.
 
Para você, o que é mais fácil e o mais difícil na hora de escrever?

Lori Foster. O começo de um livro, os personagens, essa é a parte fácil. Os personagens aparecem já completos para mim. Fico logo com pressa de colocá-los no papel. Mas os finais… Amarrar todos os detalhes e ter certeza que não deixei nenhum drama aberto… isso toma muito do meu tempo.
 
Você também escreve sobre o universo paranormal. Você já viveu experiências desse tipo? O que despertou seu interesse pelo assunto?

Lori Foster. Assisto a muitos filmes. Sentada ali, entrando em uma história visual, é o único momento em que eu não estou criando histórias para os meus livros. Meus filmes preferidos são os de horror. Um filme medíocre de horror é melhor para mim do que um bom drama. Não sou fã de épicos ou dos chamados “chick flicks”. Horror em primeiro lugar, ação depois. E por gostar tanto, decidi escrever sobre isso. Em breve eu espero poder voltar a escrever mais sobre fantasias urbanas.
 
Você acha que existe uma literatura de entretenimento?

Lori Foster. Claro que há. A maioria de nós quer ser entretida. Não temos que ler apenas livros educacionais. Nós merecemos nos divertir, com livros bem-escritos, que façam o leitor se identificar e deixá-lo com um sorriso no rosto.
 
Você é fã de romances históricos, certo? Qual a sua lista de autores favoritos?

Lori Foster. Essa é fácil. Histórias de Julie Garwood, Johanna Lindsey, Catherine Coulter, Linda Howard, Amanda Quick… Elas são ótimas!
 
E quanto a outros autores?

Lori Foster. Entre os meus autores preferidos estão Erin McCarthy, Jill Shalvis, Macy Beckett, Catherine Mann, Kresley Cole e um novato, Katie McGarry, que é excepcional.
 
Até agora, seus livros não foram adaptados para o cinema. Isso é algo que você gostaria?

Lori Foster. Adoraria ver a minha série Men Who Walk the Edge of Honor ser adaptada. Acho que as histórias falam sobre um problema da sociedade contemporânea, o tráfico humano. Os livros mostram que mesmo quando coisas muito trágicas acontecem nas nossas vidas, o amor pode curar a alma.

Bertolt Brecht: uma arte para o nosso tempo

3 jul

Livraria Saraiva e Editora Paz e Terra lançam a obra teatral completa de um dos maiores artistas do século XX

(Originalmente publicado na revista Almanaque Saraiva de julho de 2012 – Por Daniel Louzada) 

Talvez ninguém na história, exceto Shakespeare, tenha sido mais encenado que Bertolt Brecht (1898-1956). Esse fato já confere ao dramaturgo e poeta alemão sua real estatura, a de um dos maiores artistas do século XX. Ainda que asfixiada pelo clima da época, a obra brechtiana insiste em ressurgir com todo vigor.

A Livraria Saraiva e a Editora Paz e Terra relançam agora o teatro completo de Brecht. Esta edição reafirma o compromisso da Saraiva que, em parceria com editoras brasileiras, recoloca obras relevantes no mercado a preços mais baixos do que os das edições anteriores, realizando de fato a democratização do acesso ao livro e promovendo a livre circulação de ideias.

 Imagem

Artista radical

Bertolt Brecht foi um artista revolucionário em todos os sentidos. Sua influência, sobretudo no teatro moderno, como autor e diretor, encenador e teórico, é fundamental. Da mesma forma, sua ideia de que o artista deve compreender a própria dimensão histórica, intervir na esfera pública – afinal, toda arte é política – permanece.

Dos melhores produtos da cultura de esquerda, sem se apegar a dogmas ou ao populismo que submeteu tantos intelectuais no mesmo período, Brecht baseou sua criação no estudo e na experiência radical.

Mais do que constatar, o autor procurou desvelar as razões do mundo mercantilizado, da natureza das relações sociais. Essa característica talvez explique a baixa circulação de sua obra nas últimas décadas no país e ainda hoje os preconceitos de que é vítima.

Um dos símbolos da arte brechtiana é o teatro épico, também ora denominado de crítico ou dialético. Essa formulação realizada por Brecht na segunda metade da década de 1920 refere-se, em linhas gerais, a um teatro narrativo, anti-ilusionista, que estimula a ação do espectador e trata de questões mais amplas em detrimento das privadas, tem foco na existência do indivíduo na sociedade. A célebre Ópera dos três vinténs (1928), que representa a exploração de classe, é o primeiro experimento do teatro épico brechtiano.

No cenário de um mundo convulsionado por guerras e contradições, o fundo claramente político da obra de Brecht se acentua, sem abdicar da inventividade, em peças memoráveis como A santa Joana dos Matadouros (1931), Vida de Galileu (1939) e Mãe Coragem e seus filhos (1939).

Imagem

A vida por inteiro

Filho de família de classe média, Brecht serviu como enfermeiro na Primeira Guerra Mundial, foi ativista na tentativa de revolução alemã e, em 1924, acabou transferindo-se de Munique para Berlim, onde iniciou sua grande aventura artística.

Na cena berlinense, logo alcançou sucesso de público sem, contudo, fazer concessões ao gosto médio. Envolveu-se também com o cinema – meio que ele via com simpatia –, admirava Sergei Eisenstein e Charles Chaplin.

As tensões sociais na Alemanha possibilitaram a ascensão do nazismo – para Brecht, já no final dos anos de 1920, as condições para isso estavam dadas. Assim, ele, alvo preferencial dos fascistas, inicia um longo período de fuga, primeiro pela Europa, a partir de 1933, e depois para os Estados Unidos, em 1941.

Tudo o que encontra nos EUA – a sociedade capitalista por excelência – lhe é estranho e incômodo. Como precisa sobreviver, e com a ajuda da comunidade alemã exilada, arranja trabalhos como roteirista.

Brecht foi investigado pelo FBI em 1947 por “atividades antiamericanas” mas, embora evidentemente comunista, não mantinha contatos partidários diretos e não pôde ser incriminado. No dia seguinte ao seu interrogatório, partiu dos EUA, primeiro para a Suíça, depois para a Alemanha. Era a viagem de volta.

Fixou-se na extinta RDA, ou Alemanha Oriental, produto da partilha de influência entre Estados Unidos e União Soviética. Brecht, muitas vezes identificado como artista oficial, teve, na verdade, uma relação tensa com a liderança do país. De qualquer forma, foi lá que deu início, com Helene Weigel, a sua lendária companhia de teatro Berliner Ensemble.

Imagem

Uma edição notável

As duas caixas desta edição contemplam os 12 volumes da obra teatral completa de Brecht. Todas as 43 peças são traduzidas do original alemão e estão em rigorosa ordem cronológica – apenas os fragmentos estão fora de ordenação e incluídos no último volume.

A edição dos textos que integram os volumes é fruto de uma revisão crítica das traduções existentes. Ela aproveita os valiosos trabalhos já realizados e os completa com novas traduções. No time de tradutores há nomes como os de Fernando Peixoto, Geir Campos, Roberto Schwarz e Christine Röehrig. Trata-se, sem dúvida, da materialização de um trabalho coletivo, cujo principal objetivo é oferecer aos leitores um texto de qualidade em língua portuguesa.

Brechtianas

“Do rio que tudo arrasta, diz-se que é violento. Mas ninguém chama violentas às margens que o comprimem.”

“Temam menos a morte e mais a vida insuficiente.”

“De todas as coisas seguras, a mais segura é a dúvida.”

“Tenho muito o que fazer. Preparo meu próximo erro.”

Artifícios de Funes

24 ago

Assim como já fez com outros autores, hoje o Google homenageou Jorge Luis Borges. Para marcar os 112 anos de nascimento do argentino, o site aplicou, onde tradicionalmente vai o logo na página principal, uma ilustração inspirada em dois de seus escritos referenciais: “A Biblioteca de Babel” e “O jardim dos caminhos que se bifurcam”.

A menção alude ao universo Google. Outras, fantasmagóricas e menos elogiosas, também poderiam ser levantadas. Mas dispensemos a amargura; recorra-se a Borges de novo. 

Uma ficção espetacular sua é “Funes, o memorioso”: Irineu Funes, após um acidente, passa a lembrar de cada mínimo detalhe de cada instante, sua memória torna-se assombrosa. Essa capacidade não gera conhecimento, no entanto; Funes não é capaz de relacionar e entender o que lembra.

Não se tem notícia de que Funes cobrasse por suas lembranças sem conhecimento.

3 em 1 Este Livro

“Disse-me que antes daquela tarde chuvosa em que o derrubou o azulego ele fora o que são todos os cristãos: um cego, um surdo, um abobado, um desmemoriado. (..) Dezenove anos havia vivido como quem sonha: olhava sem ver, ouvia sem ouvir, esquecia-se de tudo, de quase tudo. Ao cair, perdeu o conhecimento; quando o recobrou, o presente era quase intolerável de tão rico e tão nítido, e também as memórias mais antigas e mais triviais. Pouco depois, constatou que estava aleijado. O fato apenas lhe interessou. Pensou (sentiu) que a imobilidade era um preço mínimo. Agora sua percepção e sua memória eram infalíveis. (…) Disse-me: ´Mais recordações tenho eu sozinho que as que tiveram todos os homens desde que o mundo é mundo`”.

(Ficções - Jorge Luis Borges – Globo)

“Não há por que lamentar que a exuberância de dados e a mistura de linguagens tenham feito ruir uma ordem ou um solo comum que era para poucos. O risco está em que a viagem digital errática seja tão absorvente que leva a confundir a profusão com a realidade, a dispersão com o fim do poder, e que a admiração impeça que se renove o assombro como caminho para um outro conhecimento”.

(Leitores, espectadores e internautas - Néstor García Canclini – Iluminuras)

“E, antes que um contemporâneo chegue a abrir um livro, caiu sobre seus olhos um tão denso turbilhão de letras cambiantes, coloridas, conflitantes, que as chances de sua penetração na arcaica quietude do livro se tornaram mínimas. Nuvens de gafanhotos de escritura, que hoje já obscurecem o céu do pretenso espírito para os habitantes das grandes cidades, se tornarão mais densas a cada ano seguinte. Outras exigências da vida dos negócios levam mais além”.

(Rua de mão única – Walter Benjamin – Brasiliense)

O flâneur de Lisboa

31 jul

Cesário Verde

No post anterior falamos da viagem de Federico Mayol. Uma das cidades que visita o personagem é Lisboa. Foi ela também matéria do português Cesário Verde (1855-1886) em um de seus mais conhecidos poemas, O sentimento dum ocidental. Abaixo, um trecho da obra desse poeta que morreu jovem e sem reconhecimento.

O teto fundo de oxigênio, d’ar,

Estende-se ao comprido, ao meio das trapeiras;

Vêm lágrimas de luz dos astros com olheiras,

Enleva-me a quimera azul de transmigrar.

.

Por baixo, que portões! Que arruamentos!

Um parafuso cai nas lajes, às escuras:

Colocam-se taipais, rangem as fechaduras,

E os olhos dum caleche espantam-me, sangrentos.

.

E eu sigo, como as linhas de uma pauta

A dupla correnteza augusta das fachadas;

Pois sobem, no silêncio, infaustas e trinadas,

As notas pastoris de uma longínqua flauta.

Edição de 2010 da Ateliê

Excepcional capacidade para afundar

30 jul

Às vezes acontece ao leitor. Às vezes, já desde o primeiro parágrafo, acontece do leitor perceber que entrou em território movediço. Essa é a sensação estranha e poderosa que provoca o universo das narrativas do espanhol Enrique Vila-Matas, um dos grandes escritores contemporâneos.

A viagem vertical foi o primeiro título de Vila-Matas lançado no Brasil pela Cosac Naify. Trama engenhosa e fabular em que ótimos personagens desfiam suas maneiras peculiares de ver (ou narrar) o mundo, trata-se de excelente passo de entrada na obra do autor.

O livro descreve o percurso trágico e algo cômico de Federico Mayol. Certa tarde, no dia seguinte às suas bodas de ouro, Mayol é surpreendido pela mulher: ela pede que ele vá embora de casa, que a deixe porque não sabe quem é em razão de ter passado a vida inteira a sua sombra.

O fato detona a odisséia pessoal de Mayol. Desencontrado, questiona-se sobre quem é e tem a urgente necessidade de ser outro. Esse sentimento é reforçado pela descoberta de que o filho mais velho, herdeiro e continuador de seu grande  orgulho, a Seguros Mayol, também vive profunda crise interior.

Abalado nos dois fundamentos de vida que o auto-identificavam, o catalão Federico Mayol está perdido aos 77 anos. A solução que encontra é viajar, sair de Barcelona. Parte, então, sem saber bem para onde e para que. Vai à Portugal, ao Porto, depois à Lisboa, em seguida à ilha da Madeira, ao mar, ao Atlântico. Sempre abaixo, em direção ao sul, verticalmente.

Um homem em confronto com sua história e frustrações pessoais como a falta de cultura literária. Mayol viaja em busca de si mesmo através do outro ou pela solidão essencial que a todos habita. Um velho, no fim, precisando recomeçar, ir ao fundo.

Trecho  “Ao pensar tantas coisas, Mayol oscilava entre duas realidades contrapostas: o desespero e a alegria. Sabia que era mortal e isso, somado à injusta atitude de sua mulher, lhe causava desespero. Mas, por outro lado, sabia que triunfara sobre a morte, porque poderia perfeitamente já estar morto e no entanto vivia, o que lhe alegrava e o levara até a inventar para si uma Dulcinéia. Essa luta entre desespero e alegria constituía o núcleo principal da vida de Mayol”.

Enrique Vila-Matas

Sobre o autor  Enrique Vila-Matas nasceu em Barcelona em 1948. Estreou na ficção na década de 70 e desde então publicou vários livros. Veja, a seguir, outros títulos lançados no Brasil pela Cosac Naify.

Bartleby e Companhia

O Mal de Montano

Paris não tem fim

Suicídios exemplares

Doutor Pasavento

História abreviada da literatura portátil

Dublinesca

Orientalize-se: literatura japonesa

5 jan

Por Luciana Rede

A literatura japonesa é bastante diversa, remete à época das gueixas e dos samurais e ao modernismo pop da Tókio contemporânea. Isso sem contar os autores de origem japonesa que migraram para centros urbanos ocidentais como Londres e Los Angeles. Atentas a essa riqueza, muitas editoras brasileiras têm investido em traduções primorosas direto do japonês.

Diferentes estilos

A cultura oriental, em geral, é muito diferente da nossa e, como as literaturas de outros locais, é um reflexo da realidade e da vida, o que faz com que o leitor se envolva e se apaixone.

Algumas características estão quase sempre presentes na literatura japonesa: o resgate dos contos populares e a sensualidade explícita sem os tabus ocidentais, por exemplo.

Você já ouviu falar de Haikai? São pequenos poemas com três versos que remetem à natureza. No Brasil foram popularizados por Paulo Leminski e Mario Quintana. O Haikai original japonês, ou simplesmente Haiku, é bem diferente da versão nacional, pois a escrita lá é em ideogramas e a forma do desenho da caligrafia já remete ao tema do poema. Matsuo Bashô (1644-1694) é seu representante mais famoso. Um haikai de Bashô traduzido: “As pernas da garça / estão mais curtas / na chuva de primavera”. 

Históricos

Muito confundidos com a literatura japonesa em si, os livros históricos não são necessariamente escritos por japoneses, como é o caso de “Memórias de uma gueixa”, de Arthur Golden, e da série “Xogun”, de James Clavell.

As tramas se passam em algum momento do passado da nação, nas diversas dinastias, com descrição detalhada da vida cotidiana, das gueixas e das batalhas e tradições dos samurais.

Os históricos se enquadram na chamada literatura de entretenimento que são livros escritos para entreter o leitor sem compromisso com a linguagem.

Yasunari Kawabata

Clássicos

Englobam desde autores consagrados mundialmente como Yasunari Kawabata (Prêmio Nobel de Literatura em 1968), Kenzaburo Oe (Prêmio Nobel de Literatura em 1994) e o badalado Yukio Mishima até o não tão conhecido Ryonosuke Akutagawa, que inspirou o cineasta Akira Kurossawa em vários de seus filmes.

Natsume Soseki é um nome que tem se tornado conhecido no Brasil. Vale a pena conhecer!

Haruki Murakami

Contemporâneos

Tratam de temas corriqueiros que acontecem nas grandes cidades.

Haruki Murakami é o nome pop. Seus livros se passam no Japão moderno com problemas e situações idem. Ideal para presentear os fãs da nova literatura mundial.

Algumas sugestões do Este Livro

A casa das belas adormecidas – Yasunari Kawabata (Estação Liberdade)

Uma questão pessoal – Kenzaburo Oe (Cia. das Letras)

Há quem prefira urtigas – Junichiro Tanizaki (Cia. das Letras)

Coração - Natstsume Soseki (Globo)

Kafka à beira-mar – Haruki Murakami (Alfaguara)

Bando de pardais – Takashi Matsuoka (Bertrand)

Musashi – Eiji Yoshikawa (Estação Liberdade)

Memórias de uma gueixa – Arthur Golden (Imago)

O duo fino da Cosac para setembro

2 set

Lima Barreto

DIÁRIO DO HOSPÍCIO E O CEMITÉRIO DOS VIVOS – Lima Barreto

O volume reúne duas obras de Lima Barreto, Diário do Hospício e a novela inacabada O Cemitério dos vivos. O primeiro é um documento impressionante da internação do escritor no Hospício Nacional dos Alienados (RJ). O segundo enfrenta a experiência da loucura em chave ficcional. Publicados postumamente, em 1953, funcionam como vasos comunicantes. Esta nova edição conta com um prefácio exclusivo de Alfredo Bosi e oferece um conjunto inédito de informações que entrelaça diferentes disciplinas: crítica literária, história e psiquiatria. Também traz textos de Machado de Assis, Raul Pompéia e Olavo Bilac sobre o hospício como instituição.

Samuel Beckett

DIAS FELIZES – Samuel Beckett

Dias felizes (1961) completa o trio de peças que consagrou Samuel Beckett como um dos principais renovadores da dramaturgia do século XX. Em cena, Winnie, uma mulher de meia-idade, enterrada numa colina e debaixo de sol a pino, busca agarrar-se às poucas coisas que estão ao seu alcance. Ao redor, uma paisagem inóspita e o marido indiferente. A edição traz apêndice com cartas que o dramaturgo trocou com Alan Schneider, diretor da montagem norte-americana, o depoimento da atriz Martha Fehsenfeld, que o acompanhou na versão londrina de 1979, além de fotos das principais atrizes que interpretaram Winnie.

*Sinopses da editora.

A África em 7 escritores

31 mar

Por Luciana Rede

O leitor brasileiro tem se interessado cada vez mais pela literatura dos países africanos. De antemão, é importante compreender que na África existem basicamente dois tipos de literatura: a árabe e a africana.

Como o escritor é um reflexo de seu tempo e meio, a literatura árabe é produzida por países de cultura árabe e muçulmana em que se retrata o universo de “As mil e uma noites”, os problemas em relação às mulheres e a atual política do Islã.

Já a literatura dos países que não têm cultura islâmica e árabe é a que chamaremos de literatura africana. É importante ressaltar que cada país africano traz uma herança cultural diferente e não podemos considerar a literatura do continente como um todo.

A literatura desses países mostra a busca de identidade, pois todos passaram pelo período colonial. Tratam da realidade presente e alguns autores usam a poesia, o lirismo e histórias antigas para falar da violência e das guerras que ocorrem por lá.

Embora todas as nações tenham produção literária, Este Livro traz uma breve apresentação de sete autores de três países.

África do Sul – autores escrevem em inglês

J.M. Coetzee (1940) Literatura ácida e bem escrita, traduz com maestria em seus romances a realidade do apartheid. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2003. Para o leitor que se interessa por boa literatura e temas fortes. “Desonra” conta a história de um professor de literatura branco e de meia idade que tem um caso com uma jovem. Depois desse livro é impossível ver a questão política da mesma maneira.

Nadine Gordimer (1923) Ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1993. Sua escrita registra a deterioração social que afetou seu país durante o apartheid (e suas atuais conseqüências). Autora não tão conhecida no Brasil, começou a escrever aos 15 anos. “A arma da casa” é a história de um casal comum que descobre que seu filho cometeu um crime. Inesquecível!

Angola – autores escrevem em português

Pepetela (1941) Ainda estudante foi guerrilheiro e participou da guerra colonial que fez Angola deixar de ser colônia portuguesa. Seus livros falam daquela época e de hoje. Um dos escritores mais militantes de seu país e ganhador de vários prêmios pelo mundo, faz a análise de Angola a partir da construção da nação. “O planalto e a estepe” conta o amor de dois jovens.

Ondjaki (1977) Representante da nova geração, cineasta, ator e artista plástico. Apesar de jovem, seus livros tratam de temas que pouco saem na mídia como crianças de 6 anos que sofrem as mazelas da guerra. Mora no Rio de Janeiro desde 2007. “Avodezanove…” é cheio de neologismos, autobiográfico e conta a construção de um mausoléu.

José Eduardo Agualusa (1966) Utiliza linguagem poética e a fantasia para contar temas fortes sobre a realidade angolana. Divide seu tempo entre Brasil, Portugal e Angola e é um autor que tem agregado muitos novos fãs no nosso país por sua escrita universal. Fundou a editora Língua Geral, dedicada a autores de língua portuguesa. “A conjura” narra a fundação de Luanda, colônia que era destino de ladrões e degregados.

Moçambique – autores escrevem em português

Mia Couto (1955) Iniciou os estudos de medicina quando começou o curso de jornalismo. Largou a medicina para se dedicar às palavras. Escreve contos, crônicas, poesia e romances. Consegue transmitir a cultura de sua terra através de escrita refinada e poética. É comparado a Gabriel García Márquez, Jorge Amado e João Guimarães Rosa e já ganhou muitos prêmios literários. “Antes de nascer o mundo” narra a história de cinco homens morando em um lugar ermo até que o futuro se mostra diferente.

Paulina Chiziane (1955) Quando criança falava os dialetos chope e ronga. Aprendeu a língua portuguesa em escola de missão católica. Fez militância política, mas desiludiu-se com os partidos e concentrou-se na literatura. Escreveu crônicas para jornais e foi a primeira mulher a publicar um romance em seu país. Sua prosa é lírica. “Niketche” traz Rami, mulher casada há 20 anos que descobre que seu marido tem várias esposas.

Literatura de terror

31 mar

Por Luciana Rede

A ficção de terror sempre teve muitos fãs, tanto na literatura quanto no cinema. Como a data comemorativa norte-americana Halloween, que é o Dia das Bruxas, tem sido cada vez mais difundida no Brasil.

Origens

Muito se fala sobre terror, mas as cenas de cinema são muito diferentes das páginas dos livros. Quando no cinema apela-se para o visual com a utilização de sangue em excesso, nos livros os escritores se concentram mais nas narrativas e descrições que podem fazer de uma simples sombra algo aterrador.

Apesar de muito se falar sobre a literatura de terror suas origens se perdem no tempo. Existem registros na Grécia antiga e na França, mas foi popularizada pela literatura gótica, cujo marco é o “Castelo de Otranto”, de Sir. Horace Walpole (1717-1797).

Mestres do terror

A discussão sobre qual seria o maior mestre do terror nunca terá fim! Elegemos três grandes autores norte-americanos desse gênero para ilustrar nosso texto. Da literatura cult a de entretenimento!

Edgar Alan Poe (1809-1849) Mestre da poesia e do suspense, escreveu contos incríveis e inaugurou o gênero policial moderno com o conto “A carta roubada”. Tinha personalidade difícil.

HP Lovecraft (1890-1937) Se hoje é um escritor cult, teve poucos leitores em sua época. Sua literatura perturba pelo simbolismo, escrita erudita e grau de realismo. “O chamado de Tchulhu” é imperdível para quem se interessa pelo gênero.

Stephen King (1947 – vive nos EUA) Amado por muitos, odiado por outros. O que importa é que ele cria histórias muito bem escritas que prendem a atenção do leitor. É um mestre da literatura de entretenimento e praticamente todos os seus livros e contos viraram filmes. Hoje escreve roteiros para TV. É uma porta de entrada para a literatura.

O terror na literatura infantil

Desde cedo as crianças tem se interessado pelo mórbido assunto. São diversos livros e coleções como Goosebumps e Hora do Arrepio.

O mito Frankenstein no cinema

Impossível falar de terror sem tocar no nome Boris Karloff! O ator interpretou em 1931 a lendária criatura do livro “Frankenstein”, de Mary Shelley, e é dele a imagem que a maioria tem quando vem à lembrança essa história.

Erico Verissimo

28 fev

Natural de Cruz Alta-RS, Erico Verissimo (1905-1975) foi um escritor de estilo simples, um contador de histórias hoje reconhecido como grande nome da ficção brasileira.

Filho de família tradicional, mas arruinada economicamente, Erico exerceu várias atividades profissionais antes de se dedicar à escrita: ajudante de comércio, bancário, balconista de farmácia e desenhista na imprensa.

Em alguns de seus romances procurou retratar o homem contemporâneo divorciado da religião, na busca de uma solução nem sempre otimista. Sua temática é tipicamente brasileira e, mais do que isso, gaúcha. A tentativa de recriação da história do Rio Grande do Sul foi outro ponto focal e atingiu seu ápice na trilogia “O tempo e o vento”: O continente, O retrato e O arquipélago.

Ao lado de Jorge Amado, o autor foi o romancista brasileiro com maior receptividade junto ao público. Da mesma forma, sua obra conquistou respeito da crítica e visibilidade internacional graças as muitas traduções.

Em 2005 foi comemorado o centenário de nascimento de Erico Verissimo e com os volumes da série “O tempo e o vento” a editora Companhia das Letras deu início à reedição da obra completa do escritor. 

Do autor: “Clarissa”, “Música ao longe”, “Olhai os lírios do campo”, “O resto é silêncio”, “Ana Terra”, “Um certo Capitão Rodrigo”, “Incidente em Antares”, “O senhor embaixador”, “As aventuras de Tibicuera”, “Caminhos cruzados”, “Noite”, “O prisioneiro”, “Solo de clarineta”, “Um lugar ao sol”, “A liberdade de escrever”, “Gato preto em campo de neve”, “A volta do gato preto”, “A vida de Joana d’Arc”, “Breve história da literatura brasileira”, “Fantoches e outros contos”, entre outros.

*Acima um trecho da adaptação de “O tempo e o vento” feita pela Tv Globo em 1985.

Ziraldo

20 fev

Ziraldo Alves Pinto nasceu em 1932 em Caratinga (MG). Além de escritor é cartazista, jornalista, teatrólogo, chargista, caricaturista e pintor. Começou sua carreira nos anos 50 em jornais e revistas, mas explodiu nos 60 com o lançamento da primeira revista em quadrinhos brasileira feita por um só autor: A Turma do Pererê. Durante a ditadura militar (1964-1984) fundou com outros humoristas O Pasquim – um jornal não-conformista que fez escola. Em 1969, Ziraldo publicou seu primeiro livro infantil, “Flicts”. A partir de 1979 concentrou-se na produção de livros para crianças e em 1980 lançou “O Menino Maluquinho”, um dos maiores fenômenos editoriais do Brasil em todos os tempos.

O MENINO MALUQUINHO

“Era um menino traquinas que fazia muita confusão. Um anjinho, um saci? Alegria da casa, liderava a garotada. Fazia versinhos, canção, inventava brincadeiras. Era sabido e um amigão. Menino maluquinho, diziam. Mais tarde descobriram que tinha sido um garoto muito amado e muito feliz”.

“Depois de viver muito e prestar muita atenção na vida e nos vivos é fácil perceber que as pessoas mais criativas, mais felizes, mais produtivas, mais bem ajustadas ao mundo tiveram uma infância povoada pelos livros. Estou seguro de que uma infância em que a imaginação tenha sido mais atendida – seja por um avô contador de histórias, seja por um ambiente povoado de livros – ajuda muito o ser humano no seu trajeto pela vida futura. Se o lar é bem constituído e seus componentes se comunicam intensamente, se a família se reúne para conversar, para comentar fatos e coisas, para falar de livros, de filmes e de histórias, para comentar a notícia do dia, a presença da literatura é fundamental para criar pessoas mais felizes. Num núcleo familiar em que isso não acontece, fica difícil para a literatura ter importância”. (Folha de S. Paulo – 13/08/2000)

Máximas do mestre Shaw

9 fev

“Não deveis supor, só por eu ser um homem de letras, que nunca tentei ganhar a vida honestamente”.

“O homem razoável adapta-se ao mundo; o desarrazoado insiste em tentar adaptar o mundo a si mesmo. Por isso, todo progresso depende do homem desarrazoado”.

“Neste mundo sempre há perigo para aqueles que o temem”.

“É certo que um romance não pode ser ruim demais para não ser publicado… Mas é decerto possível que um romance seja bom demais para ser publicado”.

Socialismo para milionários – Bernard Shaw (Ediouro, 2004)

Do autor: “A profissão da senhora Warren (Peixoto Neto) e “O Teatro das ideias” (Cia das Letras).

Maiakóvski: um homem só coração

31 jan

“Quando o poeta se encontra no ponto mais baixo, o mundo deve realmente estar virado às avessas. Se o poeta não está mais autorizado a falar em nome da sociedade, mas apenas no seu, não resta mais dúvida que descemos à última vala”.

Henry Miller em “A hora dos assassinos” (L&PM)

Vladimir Vladimirovitch Maiakóvski nasceu em 1893 na Geórgia, então Império Russo. Após a morte do pai, em 1906, mudou-se com a família para Moscou. Em 1908, aos 15 anos, filiou-se ao partido bolchevique (socialista), sendo preso duas vezes, a última delas por onze meses. Em 1910 ingressou na Escola de Belas Artes, de onde foi expulso quando já se encontrava ligado ao movimento futurista. Participou da elaboração do primeiro manifesto futurista russo e tornou-se uma das mais representativas figuras do movimento.

Após a revolução russa de 1917, Maiakóvski colaborou com o novo regime, participando ativamente em funções culturais. Suas inovações estéticas, todavia, trouxeram-lhe conflitos crescentes com as autoridades do período stalinista. Foi tachado pelos burocratas como “incompreensível para as massas”. Maiakóvski sustentava que “não há conteúdo revolucionário sem forma revolucionária”. Assim, a linguagem que empregava era a do dia a dia, sem nenhum apego a formalismos então em voga.

Sua obra é profundamente revolucionária na forma e nas idéias defendidas. Maiakóvski foi um homem de grandes paixões, arrebatado e lírico, épico e satírico ao mesmo tempo.  Nos últimos três anos de vida levou seus versos a mais de 180 mil pessoas em conferências e recitais por várias cidades, coerente com sua vida e seus múltiplos interesses (escreveu também peças teatrais e roteiros de cinema, além de ter se dedicado ao desenho e à propaganda).

Maiakóvski suicidou-se em Moscou, em 14 de abril de 1930, talvez pela falta de perspectivas que via para a sua arte, talvez por problemas de saúde, talvez pelos relacionamentos amorosos infelizes. Seja como for, sua existência brilhante e visceral continua viva, bem aqui.

Do autor: Minha descoberta da América (Martins), Mistério bufo (Musa), O percevejo (34), Poemas (Perspectiva) e Poética – como fazer versos (Global).

Sobre o autor: Maiakóvski e o teatro de vanguarda (Perspectiva), Maiakóvski – o poeta da revolução (Record), Maiakóvski – vida e obra (Paz e Terra), Maiakóvski – vida e poesia (Martin Claret) e A poética de Maiakóvski (Perspectiva).

A Flauta-Vértebra

Prólogo

A todas vocês,

que eu amei e que eu amo,

ícones guardados  num coração caverna,

como quem num banquete ergue a taça e celebra,

repleto de versos levanto meu crânio.

Penso, mais de uma vez:

seria melhor talvez

pôr-me o ponto final de um balaço.

Em todo caso

eu

hoje vou dar meu concerto de adeus.

Memória!

Convoca os salões do cérebro

um renque inumerável de amadas.

Verte o riso de pupila em pupila,

veste a noite de núpcias passadas.

De corpo a corpo verta a alegria.

Esta noite ficará na História.

Hoje executarei meus versos

na flauta de minhas próprias vértebras.

1915 (Tradução de Haroldo de Campos e Boris Schnaiderman)

A Sierguéi Iessiênin (Fragmentos)

Remédio?

Para mim, despautério:

mais cedo ainda

você estaria nessa corda.

Melhor morrer de vodca

que de tédio!

Por enquanto

há escória de sobra.

O tempo é escasso –  mãos à obra,

Primeiro é preciso

transformar a vida,

para cantá-la – em seguida.

Para o júbilo

o planeta está imaturo.

é preciso arrancar alegria ao futuro.

Nesta vida

morrer não é difícil.

O difícil

é a vida e seu ofício.

1926 (Tradução de Haroldo de Campos)

Fragmento 1

Me quer? Não me quer? As mãos torcidas

os dedos

despedaçados um a um extraio

assim se tira a sorte enquanto

no ar de maio

caem as pétalas das margaridas

Que a tesoura e a navalha revelem as cãs e

que a prata dos anos tinja sem perdão

penso

e espero que eu jamais alcance

A impudente idade do bom senso

1928-1930 (Tradução de Augusto de Campos)

Com Holden e Phoebe, sempre

28 jan

Morreu Jerome David Salinger, autor do livro que incendiou e incendiará juventudes.

Agora é hora de retomar o talvez esquecido exemplar velho e cinza do Apanhador e, com o impulso juvenil de Holden e Phoebe, saber que a vida pode ser mais do que consumir e cumprir convenções.

“Aí, de repente, comecei a chorar. Não consegui evitar o troço. Chorei baixinho para que ninguém me ouvisse, mas chorei. A Phoebe ficou apavorada quando me viu chorar e veio para perto de mim, me pedindo para parar. Mas depois que a gente começa, não consegue parar assim à toa. Quando comecei a chorar ainda estava sentado na beira da cama, e aí ela passou o braço por trás do meu pescoço e eu também pus o meu em volta dela, mas sem conseguir parar. Chorei um tempão. Pensei que ia morrer sufocado ou coisa que o valha. Puxa, nunca vi a pobrezinha da Phoebe tão apavorada. A droga da janela estava aberta e a Phoebe estava tremendo e tudo, porque só estava com o pijama em cima da pele. Mandei ela voltar para a cama, mas ela não quis. Até que enfim consegui parar de chorar. Mas custou um bocado. Aí acabei de abotoar o sobretudo e prometi a ela que ia telefonar. Respondeu que, se eu quisesse, podia dormir com ela, mas eu disse que não, que era melhor dar no pé, porque o Professor Antolini estava me esperando e tudo. Aí tirei o chapéu de caça do bolso e dei pra ela. Ela gosta desses chapéus malucos. Só a muito custo aceitou. Sou capaz de apostar que dormiu com ele na cabeça. Ela gosta muito desse tipo de chapéu. Aí eu disse de novo que ligava para ela, se desse jeito, e saí.”

(O apanhador no campo de centeio – J. D. Salinger. Ed. do Autor, pp. 175)

Do autor: Carpinteiros, levantem bem alto a cumeeira e Seymour, uma apresentação (L&PM), Franny e Zooey (Ed. do Autor) e Nove estórias (Ed. do Autor).

De tudo que um mago é capaz

22 jan

Paulo Coelho divulgou no Twitter quais são seus escritores preferidos. Dentre eles estão Oscar Wilde, Kafka, Borges, Jorge Amado, Henry Miller e Balzac.

Este Livro, após o exaustivo exame dos últimos tweets do autor – por hora não conseguiremos alcançar a obra completa – chegou à conclusão de que só a modéstia, virtude amiga dos genuínos vencedores, impediu Coelho de dizer que mais do que preferência, a leitura desses autores o influenciou decisivamente, marcando seu estilo e universo narrativo.

Dúvidas? Vejamos.

1. Não sou um corpo com uma alma. Sou uma alma com uma parte visível chamada corpo. (20.01)

Ambíguo como só Oscar Wilde o saberia.

2. Não defina seu objetivo de vida baseando-se naquilo que deseja agora.  (19.01)

Coisa que o Henry Miller nem sempre praticou. Ainda que morto, vale alertar seus eventuais seguidores.

3. Perdoe, mas não esqueça. Ou sofrerá de novo. (18.01)

Produto de uma leitura menos rasa do Kafka.

4. Dia do Sorriso em 2 semanas. Quem bom que não preciso ir em uma loja comprar um p/dar de presente. (18.01)

Difícil. Esse remete, talvez, a autores obscuros que, bem dito, desconhecemos; demérito nosso.

5. Quando fecharem as portas que não levam a lugar nenhum, joguem a chave longe! Pq a tendência é querer voltar. (12.01)

Aha! Voltar e se perder no labirinto infinito. Com a chave. Sem a chave. Borges puro.

6. A vida não é o porto. A vida é o barco. (11.01)

Bêbado, aliás. Mais uma vez a modéstia impediu a citação: Rimbaud.

7. Escrevi em inglês que os HOMENS estão desaparecendo da terra. Restam reprodutores, nada mais. (08.01)

O sertão está dentro da gente. Ou não. Jorge Amado ou Capitão Rodrigo?

8. Meditando no estacionamento: mesmo que esteja cheio, mantenha a mente vazia. (10.01)

Coisa que um leitor não deve fazer. Sobretudo em uma livraria.

O escritor nada compreende

11 jan

“Eu acho que não são os escritores que devem resolver questões como Deus, o pessimismo etc. O que cabe ao escritor é apenas representar quem, quando e em que circunstâncias falou ou pensou sobre Deus ou sobre o pessimismo. O artista não deve ser juiz de suas personagens e daquilo que dizem, mas tão-somente testemunha imparcial. Ouvi dois russos falarem sobre o pessimismo, numa conversa sem nexo e que não chegava a nada. Devo transmitir essa conversa exatamente como a ouvi; a julgá-la serão os jurados, ou seja, os leitores. Meu papel é apenas o de ter talento, ou seja, de saber diferenciar os testemunhos importantes dos inúteis, de saber iluminar as personagens e falar a língua delas. Chtcheglov-Leóntiev recrimina-me por eu ter concluído o conto com a frase: ‘Não se compreende nada neste mundo!’. Na opinião dele, o artista-psicólogo deve compreender, pois ele é psicólogo. Mas com isso eu não concordo. Já está na hora de as pessoas que escrevem, e principalmente os artistas, compenetrarem-se de que neste mundo não se compreende nada, como outrora reconheceu Sócrates e como Voltaire reconhecia. A turba acha que compreende tudo e que sabe tudo; e quanto mais estúpida ela é, mais amplo lhe parece o seu horizonte. Se um artista, em quem a multidão acredita, tomar a decisão de declarar que ele não compreende nada do que vê, só isso já constituirá um grande saber no domínio do pensamento e um grande passo à frente”.               

Anton Tchékhov (1860-1904)

Sem trama e sem final (São Paulo: Martins, 2007).

Nelson Rodrigues e Shakespeare

18 dez

(Herculano chega em casa. Tem um certo cansaço feliz.)

HERCULANO (gritando) – Geni! Geni!

(Aparece a criada negra.)

NAZARÉ – Veio mais cedo, dr. Herculano?

HERCULANO – Nazaré, cadê d. Geni?

NAZARÉ – Saiu.

HERCULANO – Mas eu avisei! Telefonei do aeroporto dizendo que já podia tirar o jantar.

NAZARÉ – Pois é.

HERCULANO – Foi aonde?

NAZARÉ – Não disse.

HERCULANO (entre espantado e divertido) – Que piada!

NAZARÉ – Ah, mandou entregar isso ao senhor.

(Ao mesmo tempo, Nazaré apanha em cima do móvel um embrulho.)

HERCULANO (falando à criada) – Estou com uma fome danada! É um caso sério! Mas o que é?

NAZARÉ – Isso aqui.

HERCULANO (recebendo o embrulho) – E, nem ao menos, deixou recado?

NAZARÉ – Comigo não deixou.

(Herculano, intrigadíssimo, abre o embrulho.)

HERCULANO – Fita de gravação! (não entende) Boazinha!

NAZARÉ – D. Geni disse para o senhor não deixar de ouvir o disco.

(Sai Nazaré. Então, sozinho, Herculano assovia e prepara-se para ouvir a gravação. Apaga-se o palco. Nas trevas, ouve-se a voz de Geni.)

GENI – Herculano, quem te fala é uma morta. Eu morri. Me matei. (ao mesmo tempo que Geni fala, ilumina-se parte do palco. Aparecem Patrício e as tias. Enquanto durar a fala de Geni, Patrício e as tias permanecerão imóveis e mudos)

GENI – Herculano, ouve até o fim. Você pensa que sabe muito. O que você sabe é tão pouco! (com triunfante crueldade) (violenta) Há uma coisa que você não sabe, nem desconfia, uma coisa que você vai saber agora, contada por mim e que é tudo. Falo pra ti e pra mim mesma. (dilacerada) (ressentida e séria) Escuta, meu marido. Uma noite em tua casa.

___________________________________________________________

Obsessivo, Nelson Rodrigues (1912-1980) soube transformar suas tragédias pessoais em arte. Uma das características essenciais de sua obra é a morbidez, a atração pela morte – retratada no excerto acima de “Toda nudez será castigada”.

Tal atração, muitas vezes concretizada através de verdadeiros banhos de sangue, Rodrigues compartilhou com o maior nome do teatro em todos os tempos, William Shakespeare (1564-1616).

Tanto um quanto o outro, separados por três séculos e antes do reconhecimento, foram acusados de estimular a vulgaridade e o mau gosto. 

Dia de perder-se na cidade com Benjamin

27 nov

Saber orientar-se numa cidade não significa muito. No entanto, perder-se numa cidade, como alguém se perde numa floresta, requer instrução. Nesse caso, o nome das ruas deve soar para aquele que se perde como o estalar do graveto seco ao ser pisado, e as vielas do centro da cidade devem refletir as horas do dia tão nitidamente quanto um desfiladeiro. Essa arte aprendi tardiamente; ela tornou real o sonho cujos labirintos nos mata-borrões de meus cadernos foram os primeiros vestígios”.

“E antes que um contemporâneo chegue a abrir um livro caiu sobre seus olhos um tão denso turbilhão de letras cambiantes, coloridas, conflitantes, que as chances de sua penetração na arcaica quietude do livro se tornaram mínimas. Nuvens de gafanhotos de escritura, que hoje já obscurecem o céu do pretenso espírito para os habitantes das grandes cidades, se tornarão mais densas a cada ano seguinte. Outras exigências da vida dos negócios levam mais além”.

Walter Benjamin

Obras escolhidas II: Rua de mão única. Brasiliense, 1995.

Escritores, misticismo e religiosidade

27 out

1_Este livro_Doyle_Pessoa

Por Luciana Rede

Existem incontáveis livros psicografados de personalidades muito famosas quando em vida, entre eles Liév Tolstoi, Charles Dickens e até o próprio Jesus.

Mas definitivamente não vamos discutir aqui no ESTE LIVRO como os famosos utilizam seu tempo no além-túmulo.

Muitos escritores de renome tiveram sua vida pessoal ligada à espiritualidade.

Fernando Pessoa, a exemplo de William Blake, tem sua obra conhecida como transcendental.

Além de dar conta de tantos heterônimos, dominava assuntos tidos pelos intelectuais como supersticiosos e ignorantes como Alquimia, Kabbalah, Astrologia, Magia e Ocultismo.

Pessoa foi Rosacruz, estudioso de Teosofia e amigo pessoal de Aliester Crowley, do qual traduziu poemas, entre eles Hino a Pã, cuja tradução foi publicada pela primeira vez em 1931 no livro Presença. O nome de Crowley não aparece no livro, apenas seu nome mágico, Mestre Therion.

Arthur Conan Doyle, criador do detetive Sherlock Holmes, personagem querido por gerações, também teve suas buscas e assim como Fernando Pessoa, se interessou pela Teosofia e Ocultismo, até que perdeu a esposa e filhos em um acidente e se tornou espírita fervoroso.

Escreveu um livro sobre o assunto, “História do Espiritismo”, editado no Brasil pela Pensamento. Muitos confundem e acreditam que este livro é psicografado, mas não, foi escrito em vida e reflete seu pensamento na época em que ajudou a divulgar esta doutrina de origem francesa em sua Inglatera.

Ao contrário de Pessoa, Doyle quase não passa traços de espiritualidade e misticismo para a literatura.

O silencieiro

24 out

O silencieiro

Uma cidade latino-americana depois de 1950, um homem jovem que não suporta o barulho produzido pela metrópole.

“O ruído não me permite existir”.

A solidão e o dilaceramento do personagem principal por conta da sensibilidade ao mínimo ruído.

O amigo Besarión e o zelo de sua mãe.

“Mas ninguém é absolutamente mau para si próprio, embora o seja para os demais. Todos temos uma justificativa. Que não será admitida pelos outros (exceto aqueles predispostos, que são os que nos amam)”.

Fuga. Os barulhos o fazem perambular com a família de casa em casa, de bairro em bairro.

Perseguido pela cidade em expansão, inexorável, incontrolável em sua trajetória.

“Os mártires, me parece, não podem se defender. Ninguém os escuta”.

Acusado de incendiar a casa de uma vizinha vai preso.

Tentativa de suicídio.

“Mártir da pretensão de viver minha vida e não a vida alheia, a vida imposta”.

Antonio Di Benedetto (1922-1986) é autor de “O silencieiro” (1964), “Mundo animal” (1953), “Zama” (1956) e “Os suicidas” (1969), todos editados no Brasil pela Globo, entre outros. Jornalista, foi preso e torturado com o advento do golpe militar argentino de 1976. Libertado após catorze meses, exilou-se em vários países, ficando fora da Argentina até 1984. Conciso, discreto, mas nem por isso menos denso e pungente, Di Benedetto, é um dos gigantes da literatura latino-americana do século XX.

A biblioteca de Gonçalo Tavares

23 out

Biblioteca

Quatro excertos do mais novo livro de Gonçalo M. Tavares, Biblioteca (Casa da Palavra). Nele, o escritor português reúne pequenos textos à moda de um dicionário. A matéria prima é o universo de autores tão diferentes quanto Platão, Kafka, Nelson Rodrigues e Umberto Eco.

Dylan Thomas

“Não ignoro que a iluminação, quando entra na água, se torce como a vara que parece se torcer. Mas há uma diferença: a vara toca no fundo, mesmo na água suja, e a luz, não sei se com a água suja toca no fundo. A luz não é um metal.

Ou o metal talvez seja uma luz mais lenta. Como o ouro mostra. E daí o seu valor monetário, que não é mais que o seu valor para os olhos.

A tudo o que ilumina um coração podre podemos chamar luz. O dinheiro, por exemplo”.

E. M. Cioran

“Se a alma é uma víscera, não quero pensar o que será Deus.

O homem que quer destruir traz as mãos pesadas. O homem que quer fugir traz os pés leves.

O homem que quer lutar não traz pressa. O homem que quer morrer encontrou o mundo certo”.

Sade

“No fundo, entre a febre excitada e a sabedoria há um combate, e umas vezes ganha a febre, outras vezes é a sabedoria que perde”.

Yukio Mishima

“Toda a estética é uma renúncia ao músculo.

Claro que a renúncia ao músculo é sempre temporária, porque a morte vem, e nela o corpo tem de estar presente. Porém a estética não. A morte, poderias dizer, torna dispensável a estética.

Se colocares o ouvido junto ao dorso de uma vaca não escutarás o som do mar”.

O editor

23 out

Monteiro Lobato

Além de ter sido criador de inesquecíveis personagens infantis que encantam sucessivas gerações de crianças desde a década de 20 do século XX, Monteiro Lobato (1882-1948) foi também um destacado editor. O escritor paulista introduziu inúmeras inovações no mercado editorial do País, foi pioneiro na implantação de práticas avançadas no processo de edição e comercialização de livros tais como distribuição consignada para bancas de jornal, papelarias, armazéns e farmácias, cuidado com o aspecto gráfico das obras (capas atraentes, ilustrações e diagramação moderna), publicidade em jornais por ocasião dos lançamentos e envio gratuito de exemplares para bibliotecas de escolas. A trajetória empresarial de Lobato materializou-se na Monteiro Lobato & Cia, na Companhia Editora Nacional e, por fim, na Brasiliense – que fundou com Caio Prado Jr., entre outros – e exemplifica o duplo papel que tem um editor: sendo um comerciante é, ao mesmo tempo, um agente cultural; as histórias de grandes editores como José Olympio (1902-1990), Ênio Silveira (1925-1995) e Jorge Zahar (1920-1998) o comprovam.

Robert Crumb

19 out

Crumb

A cena é essa: com um exemplar fresquinho (ou seria quentinho?) do Gênesis de Robert Crumb nas mãos, pronto pra ser lido. Um Crumb tão poderoso como quase sempre, ao que tudo indica.

Gênesis (Conrad) é mais uma oportunidade – a melhor, talvez, pois o álbum mereceu divulgação inédita nessas bandas - para o reconhecimento desse mestre dos quadrinhos que produziu obras essenciais pra quem gosta do gênero ou ainda nem tanto.

Abaixo, aproveitando a ocasião e como tira-gosto à leitura do Gênesis, sugerimos três Crumbs de boa cepa.  

Fritz, the Cat – Robert Crumb (Conrad)

Um gato brigão, preguiçoso e que adora sexo. Símbolos da contracultura nos EUA dos anos 60, as histórias de Fritz contém o universo daquele momento recheado de drogas, sexo e rebeldia contra os padrões da sociedade produtivista, um caldeirão caótico e irônico. Fritz levou o cartunista à notoriedade e a sentir pela primeira vez o assédio da indústria cultural. Mantendo uma notável coerência, Crumb não teve dúvidas e matou o personagem quando ele estava no auge da popularidade – a história em que Fritz é morto por uma avestruz inclusive está neste volume. Assim como estão as histórias que Crumb produziu ainda na adolescência (o material do álbum vai de 1961 a 1971).

Mr. Natural – Robert Crumb (Conrad)

Primeiro personagem de Crumb a ter uma revista própria, o velho, alegre e barbudo Mr. Natural vaga pelos Estados Unidos distribuindo conselhos cercado de discípulos. Se a princípio se assemelha a um charlatão que só busca dinheiro, por outro parece alguém que alcançou certa sabedoria e encara as coisas com leveza envolvendo-se com figuras atormentadas como Flakey Foont e Shuman, the Human. Crumb escreveu uma pequena biografia para seu personagem que, entre tantas aventuras, teria inventado um remédio milagroso, sido músico de uma famosa big band e taxista no Afeganistão. O certo é que nos quadrinhos deste álbum está toda a irreverência de Crumb, sua crítica ácida ao americano médio, a ironia em relação ao flower power e seu despudor característico, longe de qualquer politicamente correto.

Zap Comix – Vários autores (Robert Crumb, S. Clay Wilson, Rick Griffin, Victor Moscoso, Manuel Spain Rodiguez, Gilbert Shelton, Robert Williams, Paul Mavrides) (Conrad)

Coletânea dos 15 números da revista Zap Comix (1967-1998), que chegou a vender centenas de milhares de exemplares de algumas de suas edições. Sempre fora do esquema da grande indústria do entretenimento, negando continuamente as tentativas de cooptação, a Zap se tornou escola e referência para o universo underground surgido nos anos 60 nos Estados Unidos. A Zap no. 1 foi totalmente desenhada por Robert Crumb, assim como a no. 0, que saiu posteriormente. Na seqüência foram agregados os demais cartunistas.

Bastante desigual, neste volume sobressai a figura de Crumb, que alia a forma ao conteúdo. Alguns, como Griffin e seu psicodelismo, parecem agora bastante datados. Outros, como Moscoso, são estilistas do desenho, mas falta força. Ainda assim, destaco S. Clay Wilson (pela irreverência como na divertida história do encontro de piratas gays com piratas lésbicas) e Gilbert Shelton (com o seu javali-maravilha). Nas quatro últimas histórias da coletânea está retratada a desavença entre os artistas, que tem como um dos membros-chave Crumb, para quem não fazia mais sentido levar adiante uma experiência que considerava esgotada – isso rende ofensas entre alguns deles. A velha Zap acabou em 1998.

Vale recordar, ainda, o depoimento que nos deu há dois anos o Allan Sieber a propósito do livro “Bob & Harv – dois anti-heróis americanos”, também da Conrad:  “Pra quem gosta de quadrinhos para adultos não débeis mentais (categoria em extinção hoje em dia, especialmente depois do lançamento do 14º filme do Homem-Aranha), esse livro é um prato cheio. Todas frustrações do roteirista e perdedor Harvey Pekar no traço classudo de R. Crumb, um dos inventores do gênero do quadrinho autobiográfico. Na América de Pekar  – e em todo mundo, sejamos realistas – não há lugar para quem não tem o bronzeado certo, o carro certo e não puxa o saco das pessoas certas. Só resta odiar e reclamar, coisas que os dois fazem com maestria”.

O jovem, o andarilho, o suicida

17 out

Três indicações de Este Livro para um fim de semana de leituras.

 O jovem

O homem e sua hora

O homem e sua hora – Mário Faustino (Cia. das Letras) De vida breve – morreu aos 32 anos – e intensa atividade intelectual, o piauiense Mário Faustino ainda é pouco conhecido, mas sua obra é não só sofisticada como instigante. Nesse livro, poemas belíssimos como “Sinto que o mês presente me assassina”, “O mundo que venci deu-me um amor” e “Balada”.

O andarilho

Vida e época Michael K.

Vida e época de Michael K. – J. M. Coetzee (Cia. das Letras) Pobre, negro e com o lábio leporino, Michael K., um jovem sul-africano, vive sem entender o mundo que corre a sua volta e lhe ultrapassa como um  turbilhão. Como um bicho, é vítima da história. Grande personagem, grande livro de um grande escritor vivo.

O suicida 

Poemas - Maiakovski

Poemas – Vladimir Maiakóvski (Perspectiva) O poeta russo Vladimir Maiakóvski aliou inovação formal e engajamento revolucionário sem perder a sensibilidade. O drama da existência, o compromisso político e o amor aparecem na melhor forma em sua poesia. Antes do suicídio, compôs obras-primas como “A Sierguéi Iessiênin” e disse: “Dizem que em algum lugar/Parece que no Brasil/Existe um homem feliz”.

A história de amor de Dostoiévski

17 out

Dostoievski e Crime e castigo

Impelido por dívidas, o russo Fiódor Dostoiévski (1821-1881) escreveu ao mesmo tempo duas de suas principais obras, “Crime e castigo” e “O jogador”. A redação da primeira era feita pela manhã, a da segunda à tarde.

Para ajudá-lo na tarefa, o escritor contratou uma copista, Anna Giriegorievna Snitkine, então com 21 anos. Entre os dias 4 e 29 de outubro de 1866 Dostoiévski ditou a Anna “O jogador”.

Em 15 de fevereiro de 1867 casou-se com ela; três meses depois de pedir sua mão, quatro após conhecê-la.

Um não ganhador do Nobel

9 out

Amos OzPor Luciana Rede

Desisti de opinar sobre quem ganhará o Nobel. O ganhador quase nunca aparece nas listas!

Tenho vários amigos que leram Hertha Miller e gostam muito, mas eu particularmente nunca li. Leremos e postaremos em breve!

Amos Oz. Escritor israelense nascido em 1939, participou da Guerra dos Seis Dias e da Guerra do Yom-Kippur.

É famoso por sua militância em favor da paz. E fundou o movimento Paz Agora.

Já veio ao Brasil participar da Flip <www.flip.org.br>.

Começou a escrever contos ainda na faculdade e é dono de uma prosa fluida e limpa.

Seus livros e contos são muito diversos entre si. Prosa poética, biografia social, literatura infanto juvenil…

Caixa Preta

Foi publicado em 2003 e não apresenta uma narrativa linear. É a chamada narrativa epistolar, em formato de cartas.

Toda família tem seus segredos e revelações, e aí está a analogia com o título e com uma relação amorosa desfeita.

Ilana, ex-mulher de Alex Gideon, intelectual famoso mundialmente, cujo divórcio foi escandaloso.

Ilana construiu outro relacionamento com Michel Sommo, um fanático religioso.

Existe o filho de Ilana e Alex, Boaz, adolescente sensível com problemas de violência.

As cartas entre eles tem um tom ora cômico, ora dramático e a maestria de Oz é fazer com que o leitor já identifique de quem é a carta já na primeira linha.

Gideon, com sua retórica acadêmica; Ilana mostra nas missivas sua ótima educação e gosto pela literatura russa; Michel, seu fanatismo e idéias extremistas.

Boaz deixa seus bilhetes com muitos erros e sinceridade comovente.

Temperando estas cartas temos o advogado do ex-casal, que nos tira da realidade com seus telegramas shakespeareanos.

É um romance temperado, diferente, erótico, poético e engraçado, e que ao mesmo tempo mostra um panorama social, político e religioso muito abrangente.

É um livro que após lido dificilmente será esquecido!

Enquete: Philip Roth será o Nobel 2009

4 out

Philip Roth

Encerrada a votação da nossa enquete sobre o favorito para ganhar o Nobel de Literatura 2009. Para 36% dos leitores de Este Livro, o vencedor será um dos eternos candidatos ao prêmio, o estadunidense Philip Roth.

Editado no Brasil pela Companhia das Letras, Philip Roth (1933) é talvez o maior escritor norte-americano da atualidade. Seu primeiro livro, “Adeus, Columbus”, é de 1959. De lá pra cá, publicou muitas outras obras – “O complexo de Portnoy”, o romance mais conhecido, saiu em 1969.

Professor de literatura até 1992, Roth hoje vive recluso em um sítio. Dessa data em diante se dedicou exclusivamente à literatura e lançou títulos importantes como “O teatro de Sabbath” e os que compõem a “trilogia americana”: “Pastoral americana”, “Casei com um comunista” e “A marca humana”.

A ficção de Roth está bastante ligada à história contemporânea dos Estados Unidos, abordando desde o macarthismo até o escândalo sexual do governo Clinton. Da mesma forma, é marcada por um peculiar humor ou certa ironia pesada e contém alguns traços autobiográficos.

Será dessa vez que Roth leva o Nobel? Ou será a hora de outro eterno candidato, o peruano Mario Vargas Llosa, segundo colocado nas intenções desse blog com 32% dos votos? É aguardar pra ver.

Sim, e além dos que citamos (5% apostaram em Thomas Pynchon e ninguém em Joyce Carol Oates e Carlos Fuentes – 27% disseram que nenhum deles será o vencedor) há outros cogitados para o prêmio que vale registrar aqui: o israelense Amoz Oz, os italianos Antonio Tabucchi e Claudio Magris, a argelina Assia Djebar, o holandês Cees Nootebom e o japonês Haruki Murakami.

Os contos de Tchekhov

3 out
Tchekhov e Tolstoi 2

Dois gigantes da literatura russa: Tchekhov e Tolstoi

Por Luciana Rede

Os contos são muito apreciados por sua concisão.

O brasileiro Machado de Assis, o americano Edgar Alan Poe, o argentino Jorge Luis Borges, o italiano Italo Calvino e o francês Guy de Maupassant são alguns exemplos.

Muito apreciado por suas peças como “A Cerejeira”, “Três Irmãs” e “A Gaivota”. Escreveu também novelas e romances. Seus contos estão sendo descobertos pelos leitores brasileiros através de traduções primorosas. Prefira traduções mais atuais, a maioria é direta do russo (as traduções antigas vinham do francês).

Podemos encontrar seu nome como Tchecov, Tchekhov ou Tchekov. O motivo é que o nome próprio também é traduzido, pois o original é, em cirílico, Антон Чехов.

Anton Pavlovitch Tchekhov (1860-1904) foi um homem à frente de seu tempo e escrevia sobre o cotidiano como ninguém. Não escrevia sobre a moral do povo e sim sobre a simplicidade da vida e a grandeza humana. Seus contos são modernos e não seguem a narrativa linear de começo-meio-fim. Os acontecimentos são jogados e são quase visões instantâneas. É considerado um dos mestres do conto moderno.   

Estudou medicina e tratava de pacientes com tuberculose. Trabalhou em causas humanitárias a favor do povo russo, que vivia em estado de pobreza absoluta causada pela fome e pelo frio.

Viveu vários romances e por fim se casou em 1901 com a atriz alemã Olga Knipper, com quem manteve longa correspondência em tão poucos anos. Estas cartas são encontradas com muita facilidade em coletâneas de cartas de amor.

Nunca deixou de escrever e a literatura era sua paixão. À medida que o tempo passava, seus contos se tornavam mais curtos.

Contraiu tuberculose e foi para a Alemanha encontrar a esposa. Se é possível dizer assim, sua morte foi poética, pois sendo médico conhecia os sintomas como ninguém. Pediu uma taça de vinho a Olga, brindou e bebeu com ela e se foi calmamente aos 44 anos.

Pegue qualquer livro de contos do autor, abra em qualquer conto e leia! Inesquecível!

Três argentinos iluminam o livro e a leitura

27 set

Os sentimentos dúbios em relação aos livros, à leitura e à literatura, por vezes a mitificação de seus poderes circulam há muito tempo.

A literatura em sentido estrito, ou seja, a literatura ficcional, poética, dramática e ensaística está repleta de exemplos sobre os possíveis benefícios ou malefícios que a leitura causaria. Eles demonstram que a humanidade alimenta uma espécie de relação de amor e ódio com o livro. Para o bem ou para o mal, o livro tem uma grande força simbólica.

Julio Cortázar

Julio Cortázar

Em uma pequena narrativa, o argentino Julio Cortázar fala sobre um mundo abarrotado de livros – os livros se reproduziriam de tal forma que tomariam conta de todos os espaços, não haveria mais rios ou casas, tudo sucumbiria diante deles. Emma Bovary, personagem central da obra-prima do francês Gustave Flaubert, teria cometido adultério em razão da má influência exercida pela leitura de folhetins. Para o grego Platão, na cidade ideal, os poetas deveriam ser banidos porque disseminariam a mentira, falseariam a realidade. O assassino de John Lennon alegou ter sido perturbado pela leitura de “O apanhador no campo de centeio” antes de cometer o crime. Dom Quixote enlouqueceu por ler demais, por ler irreais romances de cavalaria. E o senso comum diz: quem lê muito é anti-social ou estaria perdendo alguma coisa, deixando de viver.

Che Guevara

Che Guevara

Já em uma das mais antigas narrativas, vinda da tradição oral árabe, a literatura é o instrumento para vencer a morte – Scherazade, contando suas histórias que se ligam umas as outras por mil e uma noites, supera a sentença capital imposta pelo sultão Schahriah. Em vários campos de concentração nazistas, em que os prisioneiros viviam em condições sabidas e preocupados em comer pelo menos uma fatia de pão por dia, foram encontrados livros, obviamente traficados com perigo para os alojamentos já que as pessoas ao entrarem nos campos eram despidas de todos os pertences. O caso do argentino Ernesto Che Guevara é emblemático de situações-limite: exaurido na fuga pela selva boliviana, Che, uma pálida lembrança do vigoroso guerrilheiro quando foi capturado, já sem sapatos conservava uma bolsa com seu diário e alguns livros.

Longe do horror que Cortázar provoca no seu “Fim do mundo do fim”, numa livraria há valiosas amostras de algo que só traz perspectivas, sobretudo às épocas de escassas luzes. Todo conhecimento é fruto do trabalho de espíritos insatisfeitos. Buscar compreender com base em diferentes visões e novas experiências é o caminho para chegar a conclusões (ou dúvidas) próprias e, portanto, pensar com a própria cabeça. A livraria é o espaço para isso, o lugar da universalidade, do confronto e da concordância; os livreiros, os artífices desse lugar.

Ricardo Piglia

Ricardo Piglia

E há um livro imprescindível sobre isso tudo. Para leitores e livreiros. Para ser lido esta noite. O último leitor (Cia. das Letras), do argentino Ricardo Piglia, é a chave de ouro das lições acima e, especialmente, dessa tríade.

A função da arte

27 set

Por Eduardo Galeano

Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar.

Viajaram para o sul.

Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.

E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai:

- Me ajuda a olhar!.

Em: O livro dos abraços – Eduardo Galeano (L&PM)

O livro dos abraços

Descobrindo André Sant’Anna

21 set

Sexo e amizade

Primeira hipótese: pouco importa quem seja André Sant’Anna. Segunda hipótese: numa livraria, a sorte lhe sorri e você encontra um dos melhores escritores brasileiros da atualidade: André Sant’Anna.

Repetitivo, circular, melancólico, cru, utilizando-se de tipos exemplares da paisagem nacional-sentimental como alpinistas sociais, policiais torturadores, garotas que sonham com sexo e amor, guris onanistas, vendedores com vida interior. Muito estereótipo e muita solidão e fracasso; mas tudo é engraçado nesse claustrofóbico mundo.

Na primeira parte do seu penúltimo livro, Sexo e Amizade (Cia. das Letras), Amizade, composta de 23 escritos curtos, alguns desses tipos, quase sempre em monólogos, dão as caras. Notáveis são as narrativas do evangélico que acredita no gozo dos prazeres após a morte e pela mesma razão abdica de torcer para o Corinthians, do taxista com saudades da ditadura e dos veranistas de uma praia paulista.

A segunda parte, Sexo, é uma novela em que personagens como O Negro, Que Fedia e O Executivo De Óculos Ray-Ban revelam taras, desejos sexuais e afetivos, necessidades de consumo.

André Sant’Anna acaba de lançar Inverdades pela 7 Letras. Já é hora de ler esse cara.

Do autor: Amor (Dubolso, 1998), Sexo (7Letras, 1999), Amor e outras histórias (Cotovia, 2001) e O paraíso é bem bacana (Cia. das Letras, 2006).

Juan Carlos Onetti: o desencanto

21 set

Onetti 2

É certo que raramente ouvimos falar de Juan Carlos Onetti (1909-1994). A circulação da obra do autor uruguaio sempre foi restrita, a despeito da influência exercida sobre uma das mais importantes gerações de escritores latino-americanos, uma turma que inclui Gabriel García Márquez e Julio Cortázar, e do estilo único de quem sabe escrever como poucos.

O relançamento de quatro obras de Onetti pela Planeta possibilita um novo acesso ao universo desencantado e miserável que configura a ficção do escritor. Romances como O estaleiro ou novelas como Para uma tumba sem nome revelam personagens submersos em suas insignificâncias a transitar entre a dureza da vida e os artifícios necessários à sobrevivência, senão a física, a mental. Larsen (ou Junta-cadáveres) é o modelo dessa linhagem maldita.

Junta-cadáveres

As tramas de Onetti se passam, pelo menos desde a publicação de A vida breve, na cidade ficcional de Santa María, localizada em algum ponto do sul da América, entre Buenos Aires e Montevidéu. A atmosfera que o autor cria, ainda na década de 50, é bastante parecida com a que cidades como Montevidéu oferecem hoje a seus visitantes: um possível cenário para Eu sou a lenda 2.  Fora a piada, resta desolação.

Não há redenção possível para o homem em Santa María. Talvez por isso Onetti seja tão bom e atual.

Títulos publicados em português e disponíveis no Brasil:

-          O poço / Para uma tumba sem nome (Planeta) – 1939/1959

-          A vida breve (Planeta) – 1950

-          O estaleiro (Planeta) – 1961

-          Junta-cadáveres (Planeta) – 1964

-          47 contos de Juan Carlos Onetti (Cia. das Letras)

Seguir

Obtenha todo post novo entregue na sua caixa de entrada.

Junte-se a 28 outros seguidores