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A África em 7 escritores

31 mar

Por Luciana Rede

O leitor brasileiro tem se interessado cada vez mais pela literatura dos países africanos. De antemão, é importante compreender que na África existem basicamente dois tipos de literatura: a árabe e a africana.

Como o escritor é um reflexo de seu tempo e meio, a literatura árabe é produzida por países de cultura árabe e muçulmana em que se retrata o universo de “As mil e uma noites”, os problemas em relação às mulheres e a atual política do Islã.

Já a literatura dos países que não têm cultura islâmica e árabe é a que chamaremos de literatura africana. É importante ressaltar que cada país africano traz uma herança cultural diferente e não podemos considerar a literatura do continente como um todo.

A literatura desses países mostra a busca de identidade, pois todos passaram pelo período colonial. Tratam da realidade presente e alguns autores usam a poesia, o lirismo e histórias antigas para falar da violência e das guerras que ocorrem por lá.

Embora todas as nações tenham produção literária, Este Livro traz uma breve apresentação de sete autores de três países.

África do Sul – autores escrevem em inglês

J.M. Coetzee (1940) Literatura ácida e bem escrita, traduz com maestria em seus romances a realidade do apartheid. Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2003. Para o leitor que se interessa por boa literatura e temas fortes. “Desonra” conta a história de um professor de literatura branco e de meia idade que tem um caso com uma jovem. Depois desse livro é impossível ver a questão política da mesma maneira.

Nadine Gordimer (1923) Ganhadora do Prêmio Nobel de Literatura de 1993. Sua escrita registra a deterioração social que afetou seu país durante o apartheid (e suas atuais conseqüências). Autora não tão conhecida no Brasil, começou a escrever aos 15 anos. “A arma da casa” é a história de um casal comum que descobre que seu filho cometeu um crime. Inesquecível!

Angola – autores escrevem em português

Pepetela (1941) Ainda estudante foi guerrilheiro e participou da guerra colonial que fez Angola deixar de ser colônia portuguesa. Seus livros falam daquela época e de hoje. Um dos escritores mais militantes de seu país e ganhador de vários prêmios pelo mundo, faz a análise de Angola a partir da construção da nação. “O planalto e a estepe” conta o amor de dois jovens.

Ondjaki (1977) Representante da nova geração, cineasta, ator e artista plástico. Apesar de jovem, seus livros tratam de temas que pouco saem na mídia como crianças de 6 anos que sofrem as mazelas da guerra. Mora no Rio de Janeiro desde 2007. “Avodezanove…” é cheio de neologismos, autobiográfico e conta a construção de um mausoléu.

José Eduardo Agualusa (1966) Utiliza linguagem poética e a fantasia para contar temas fortes sobre a realidade angolana. Divide seu tempo entre Brasil, Portugal e Angola e é um autor que tem agregado muitos novos fãs no nosso país por sua escrita universal. Fundou a editora Língua Geral, dedicada a autores de língua portuguesa. “A conjura” narra a fundação de Luanda, colônia que era destino de ladrões e degregados.

Moçambique – autores escrevem em português

Mia Couto (1955) Iniciou os estudos de medicina quando começou o curso de jornalismo. Largou a medicina para se dedicar às palavras. Escreve contos, crônicas, poesia e romances. Consegue transmitir a cultura de sua terra através de escrita refinada e poética. É comparado a Gabriel García Márquez, Jorge Amado e João Guimarães Rosa e já ganhou muitos prêmios literários. “Antes de nascer o mundo” narra a história de cinco homens morando em um lugar ermo até que o futuro se mostra diferente.

Paulina Chiziane (1955) Quando criança falava os dialetos chope e ronga. Aprendeu a língua portuguesa em escola de missão católica. Fez militância política, mas desiludiu-se com os partidos e concentrou-se na literatura. Escreveu crônicas para jornais e foi a primeira mulher a publicar um romance em seu país. Sua prosa é lírica. “Niketche” traz Rami, mulher casada há 20 anos que descobre que seu marido tem várias esposas.

Pasárgada: Ovídio Martins x Bandeira

24 jan

Anti-evasão

Ovídio Martins (Cabo Verde – 1928)

Pedirei
Suplicarei
Chorarei

Não vou para Pasárgada

Atirar-me-ei ao chão
E prenderei nas mãos convulsas
Ervas e pedras de sangue

Não vou para Pasárgada

Gritarei
Berrarei
Matarei

Não vou para Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Manuel Bandeira (Brasil – 1886-1968)

Vou-me embora pra Pasárgada

Lá sou amigo do rei

Lá tenho a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada

Aqui eu não sou feliz

Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconseqüente

Que Joana a Louca de Espanha

Rainha e falsa demente

Vem a ser contraparente

Da nora que nunca tive

E como farei ginástica

Andarei de bicicleta

Montarei em burro brabo

Subirei no pau-de-sebo

Tomarei banhos de mar!

E quando estiver cansado

Deito na beira do rio

Mando chamar a mãe-d’água

Pra me contar as histórias

Que no tempo de eu menino

Rosa vinha me contar

Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo

É outra civilização

Tem um processo seguro

De impedir a concepção

Tem telefone automático

Tem alcalóide à vontade

Tem prostitutas bonitas

Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste

Mas triste de não ter jeito

Quando de noite me der

Vontade de me matar

— Lá sou amigo do rei —

Terei a mulher que eu quero

Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada.

Desonra, o filme

8 dez

É lugar comum comparar filmes com os livros que lhes deram origem.

Lugar comum é criticar filmes baseados em livros, sobretudo em livros marcantes.

E é lugar comum dizer que um e outro são linguagens diferentes, portanto pouco comparáveis.

Sim, tudo com certa razão. Assim é o lugar comum.

Mas quem vê o filme Desonra (2009, Dir. Steve Jacobs e com John Malkovich no papel principal) se perde de uma obra extraordinária, não há resquícios dela ali. Um filme que, embora não exatamente ruim, está muito aquém da grande realização de J. M. Coetzee.

Fica a sugestão: leia o livro; só depois veja o filme.

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